RESENHA

“Lila”, o inventivo experimento literário de Gael Rodrigues

Livro é o vencedor do Prêmio CEPE Nacional de Literatura na categoria conto

Em “Lila”, livro vencedor do Prêmio CEPE Nacional de Literatura na categoria conto, o escritor Gael Rodrigues demonstra versatilidade ao compor sete narrativas sinceras, intensas e delicadas. As histórias que integram a obra recém-lançada pela CEPE Editora abraçam a ruptura e a ausência sem deixar de evidenciar contradições humanas e dilemas inquietantes. 

Capa do livro "Lila", de Gael Rodrigues (Divulgação/CEPE Editora)
Capa do livro “Lila”, de Gael Rodrigues (Divulgação/CEPE Editora)

Mais do que um livro com boas histórias a contar, “Lila” é um inventivo experimento literário. Isso porque seus contos têm os mesmos personagens, ainda que transmutados em pessoas totalmente diferentes. 

Lila, por exemplo, é figura recorrente, embora assuma novos mantos a cada história. Primeiro é uma mulher que sofre com a perda da filha, depois é alguém que jamais foi mãe. Também é quem foge para construir outra identidade numa cidade diferente, assombrada por acontecimentos da adolescência, e até mesmo a mulher que se transforma num urso. 

Com Caco, seu irmão, a situação não é diferente: em um dos contos é um homem gay que vive livremente sua sexualidade em São Paulo, em outro teme a repressão em João Pessoa. Mais à frente, ocupa a figura de hétero religioso e reacionário que se enxerga como “ex-gay curado pela Igreja”. 

Dessa forma, em meio a pistas falsas e possibilidades em aberto, o escritor constrói realidades que se anulam no tempo-espaço ao mesmo tempo em que arquiteta seu próprio multiverso, formado por personagens construídos à base de angústias, traumas e enfrentamentos – como cada um de nós. 

Para além de toda a criatividade utilizada para estabelecer tramas e abordar o cotidiano, Gael Rodrigues tem uma técnica literária bem definida. Suas frases curtas e poéticas permitem que leitores e leitoras saboreiem cada palavra enquanto mergulham nas vivências de personagens autênticos e complexos. 

Essa mesma construção – capaz de devorar pelo abismo da linguagem – é capaz de despertar curiosidade, tirar o fôlego e estabelecer um vínculo de empatia que jamais se enfraquece. Motivos para isso, não faltam. Afinal, como reagir a um sequestro, enfrentar a xenofobia ou lidar com a morte de uma criança?

A literatura de Gael Rodrigues se baseia em perguntas que ressoam. E, felizmente, não se ocupa de respostas fáceis. Também por isso, “Lila” é um acontecimento. E dos mais sonoros e potentes. Um mergulho nas muitas possibilidades de uma personagem grandiosa em todas as suas formas. 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em Comunicação e autor de “Desprazeres existenciais em colapso” (Patuá) e “Desemprego e outras heresias” (Sabiá Livros). Escreve sobre literatura no Jornal Rascunho e na São Paulo Review.

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