Livros para o corpo, a cidade e o fim do mundo
Coleção Projeto Desandar, da artista Beatriz Cruz, será lançada no próximo sábado, com performance e bate-papo sobre a relação entre escrita, performance e intervenção no espaço público
Entre as muitas crises que vivemos atualmente, está a crise do corpo. Por um lado, corpos que passam horas e horas em frente às telas, anestesiados. Por outro, discursos que pregam o corpo eficiente, conduzido por hábitos para uma vida fitness, otimizada ao máximo para a produtividade. O corpo criativo e erótico, canal para experiências sensíveis, criador de subjetividades e afetividades, parece esquecido.
Este é um dos pilares do Projeto DESANDAR, da artista Beatriz Cruz, que, agora, materializa-se em forma de publicação impressa, com design de Vânia Medeiros. De saída, a designer já propõe ao leitor um gesto corporal. Publicado pela novíssima editora Kipuka, em parceria com a Conspire Edições, selo de Vânia Medeiros, o box é composto por três livros independentes que podem ser lidos e manuseados de muitas maneiras.
Com lançamento presencial no dia 27 de setembro, na Livraria Sentimento do Mundo, a coleção DESANDAR é um objeto que certamente despertará o interesse de artistas, performers e leitores focados em pensar as relações entre corpo, cidade e texto.
Na primeira parte, Caderno de Programas: série de programas de performance para a cidade, o corpo e o fim do mundo, a artista fala sobre o projeto, explicando que ele transita entre dois territórios que dialogam entre si: o corpo e a linguagem. Ele surge da experiência com práticas de deriva urbana, de errar pela cidade, de experimentar o corpo no espaço público. Segundo Beatriz Cruz, “quanto mais o corpo anda e deixa-se afetar pelo espaço da cidade, quanto mais vivencia práticas para colocar-se em relação com o ambiente urbano e com aqueles que circulam e habitam as ruas, mais abre espaços internos.”
Assim como as derivas urbanas, as ações do Projeto DESANDAR são infinitas, pois nascem a partir de verbos: descaracterizar-se, destroçar-se, desfrutar-se, destemperar-se, entre outras. Cada verbo é um programa de performance que pode concretizar-se efetivamente no corpo da artista ou virtualmente no ato da leitura.
O segundo livro se concentra em um programa específico: Desfrutar-se: uma ode à siririca e ao orgasmo autogestionado como resistência ao patriarcado. A partir da ambiguidade do verbo, a fabulação começa da seguinte forma: “Alimento-me de frutas. Aprecio os sabores dos frutos e dissabores do corpo.” Beatriz Cruz propôs uma pesquisa sobre a masturbação feminina, convidando outras mulheres a realizarem, também, o programa. Uma fruta para cada corpo. Mulheres que se masturbaram com a ajuda de caquis, papayas, melancias, melões. Manusear esta parte do livro é recordar que os corpos, assim como as frutas, têm sabor e textura – ácido, cítrico, firme, escorregadio; a exuberância das frutas como lembrete da potência de uma boa siririca. As participantes escreveram textos, fizeram fotos e o registro do Desfrutar-se oscila entre momentos sensíveis, engraçados, escatológicos e eróticos.
Na época, os relatos anônimos foram compartilhados em locais públicos, em diferentes suportes: lambe-lambe, performance presencial, videopoema, lives em rede social, vivências em grupo. Quem passar pelo lançamento, verá uma banquinha de frutas com essa performance na calçada da livraria.
O terceiro livro, Descaracterizar-se: notas sobre 365 dias vestida de outras pessoas, é inteiramente dedicado a uma investigação de fôlego na qual Beatriz Cruz vestiu roupas de outras pessoas, durante um ano inteiro. Roupas de parentes, amigas, amigos, e, também, de pessoas desconhecidas. A experiência de se descaracterizar incluía usar o corte de cabelo proposto pela pessoa, sua maquiagem, acessórios e perfume, por impressionantes sete dias. Durante a experiência, a artista produziu registros, em texto e imagem.

Reflexões de todo tipo surgem nas páginas do livro. Usando as peças de sua mãe, a artista diz que “travou uma guerra com a bolsa.” Ao vestir sapatos de outras pessoas, percebeu o quanto eles incentivavam ou não sua circulação pela cidade. Há roupas que deixam a mulher mais livre para se mexer enquanto outras pedem posturas bem mais contidas e controladas. Reflexões sobre gênero e gestos se misturam às percepções sobre o efeito que tecidos, estampas e formas geram na mente. Beatriz Cruz, com olhar curioso, dá vazão a todo tipo de dúvida que o experimento traz. “Reclamo sobre minha libido, sinto-a baixa. Alguém me pergunta se isso não tem a ver com estar usando as roupas da minha avó.”
Uma das participantes a irrita com o uso excessivo da palavra look. Ao final da semana, a artista começa a gostar do termo, a ponto de usá-lo. Com roupas de determinadas pessoas, Beatriz se sente exposta. Com outras, se sente focada.
Eu mesma fui uma das pessoas que emprestou roupas para a artista. Vê-la com casacos, calças e camisetas que, em sua maioria, nem existem mais, causou uma curiosa sensação enquanto virava as páginas do livro. Se por um lado as fotos impressas me transportam para outra época e causam certa nostalgia, por outro me mostram que essas peças cumpriram um destino um tanto único. Vestindo minhas roupas, Bia experimentou emoções e pensamentos. Um dia, escolheu uma camiseta com estampa de David Bowie “para refrescar o peito” e se perguntou sobre os sentidos literais e metafóricos da palavra descolada. Ela me contou que se sentiu “descolada” com minhas roupas. E eu devolvi: “descolada do quê?”
Na capa do box que contém os três livrinhos, lemos os modos de usar: “Leve na bolsa, no bolso, debaixo do braço. Leia e desande pela cidade.” Uma publicação para acompanhar e estimular o corpo ou um corpo para imaginar e viver histórias e espaços? Beatriz Cruz mostra que são infinitos os caminhos e invenções possíveis.
Livia Piccolo é escritora, roteirista e comunicadora.
Serviço
O quê: Lançamento da Coleção Projeto Desandar, de Beatriz Cruz e da editora Kipuka + conversa com a autora e com a designer Vânia Medeiros, mediação de Livia Piccolo + performance Desfrutar-se na calçada da livraria, com a atriz Beatriz Barjud.
Onde: Livraria Sentimento do Mundo – Rua Barão de Tatuí, 496, Vila Buarque, São Paulo.
Quando: 27 de setembro de 2025, das 16h às 19h. Conversa com a autora às 17h.
Entrada gratuita
Mais info e pré-venda da Coleção Projeto Desandar: https://kipuka.com.br/titulo/pre-lancamento-colecao-projeto-desandar/

