Londres, Bagdá - Le Monde Diplomatique

EDITORIAL

Londres, Bagdá

por Ignacio Ramonet
1 de agosto de 2005
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As conseqüências trágicas para os britânicos do alinhamento de Blair com o belicismo de Washington, apesar da grande oposição popular à guerraIgnacio Ramonet

Nada justifica os atentados de 7 de julho que, em Londres, mataram cinqüenta e dois inocentes, além de seus autores-kamikazes. Isto porque matar inocentes em prol de uma suposta causa justa não é defender uma causa justa, mas simplesmente matar inocentes.
As agressões eram previsíveis. “Para nós, esses atentados não foram uma surpresa, confessou Christophe Chaboud, chefe da Unidade de coordenação da luta antiterrorista na França, mas a confirmação de algo inevitável, levando-se em conta o contexto internacional, notadamente a guerra do Iraque.” Havia meses, responsáveis pela segurança repetiam que a questão não era mais de saber se os ataques iriam ocorrer, mas quando ocorreriam. A abertura do encontro do G8 (grupo das sete potências mais ricas, mais a Rússia), em Gleneagles, na Escócia, forneceu a ocasião simbólica. E os famosos Serviços de segurança britânicos, conhecidos pelas siglas MI 5 e MI 6 (Military Intelligence), foram incapazes de evitar a carnificina. Isso confirma que, até o momento, ninguém encontrou um refúgio seguro contra o terrorismo.

Anthony Blair, premiê britânico, não quer admitir o vínculo entre os atentados e sua política iraquiana. Está claro, entretanto, que o alinhamento de Londres com o belicismo de Washington, invadindo e ocupando o Iraque, apesar de grande oposição popular, acabaria por ter conseqüências trágicas na Grã-Bretanha mesma. Os atentados de Madri, em 11 de março de 2004, haviam sido, nesse sentido, um aviso sinistro.

Além disso, a situação no Iraque está caótica. As autoridades estadunidenses – que, comprovadamente, mentiram para justificar a invasão – superestimaram sua capacidade de administrar o pós-guerra. O Iraque não se tornou só um estojo de pólvora, mas um verdadeiro barril.

Laboratório do terror

Diferentemente do que afirmara o presidente Bush, o mundo não está mais seguro desde que o Iraque foi ocupado, tornando se um verdadeiro “labortório do terror”

Diferentemente do que afirmara o presidente Bush, o mundo não está mais seguro desde que o Iraque foi ocupado. Pelo contrário. A rede Al Qaida não foi desmantelada. Osama Bin Laden não foi preso. E a nebulosa djihadista atacou locais até então deixados de lado: Istambul, Bali, Casablanca, Madri, Londres… De acordo com os próprios serviços de inteligência norte-americanos, o Iraque se tornou uma “escola de guerrilha urbana”, um verdadeiro “labortório do terror” que recebe centenas de voluntários, vindos de vários países. A violência atinge dimensões paroxísticas. Os insurgentes mataram mais de 12 mil pessoas nos últimos 18 meses. Atualmente, o número de iraquinaos mortos em atentados está em 200 por semana, 800 por mês! O Pentágono estima que a rebelião, essencialmente sunita, tem cerca de 20 mil combatentes, apoiados por 200 mil ocasionais…

As forças de ocupação não sabem o que fazer. Apesar de uma repressão que não recua diante dos seqüestros, prisões secretas, tortura – como os abusos na prisão de Abu Ghraib mostraram -, ou do uso desproporcionado da força. Um soldado, Jim Talib, que participou do ataque a Faluja testemunha: “Um dia, enquanto eu conduzia um detento, o encarregado dos interrogatórios nos disse de não mais os trazer. “Mate-os”, disse. Estava sem fôlego. Não conseguia acreditar que ele realmente dissera isso. Ele não estava brincando. Alguns dias depois, um grupo de veículos Humvees passou, com dois iraquianos presos no capô como animais. Um dos corpos estava com o crânio aberto e o cérebro estava fervendo sobre o capô do veículo. Era um espetáculo horrível. Fui testemunha de muito pouco respeito em relação aos vivos, quase nenhum com os mortos, e ninguém tinha que prestar contas.”

No Tribunal mundial do Iraque que ocorreu de 25 a 27 de junho em Istambul, e que os grandes meios ocultaram, um dos testemunhos mais marcantes foi feito pelo jornalista libano-estadunidense Dahr Jamail. Ele relatou como um funcionário da administração de Bagdá, Ali Abbas, foi a uma base estadunidense para investigar o paradeiro de um de seus vizinhos desaparecidos. Como insistia, Abbas foi preso na hora, despido, vendado e obrigado a simular atos sexuais com outros prisioneiros. O procedimento padrão. Depois, cachorros foram soltos em cima dele, ele foi chutado na genitália, recebeu descargas elétricas no ânus. Com o cano de uma arma enfiado na boca, seus algozes ameaçaram executá-lo se ele gritasse. Por fim, deixaram-no em meio a seus excrementos…
Blair estima que não há relação entre os abusos cometidos no Iraque e

Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.



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