Luis Fernando Veríssimo (1936-2025), o literato colorado de Porto Alegre
Luis Fernando Veríssimo foi um dos poucos autores que manteve obras relevantes e eticamente coerentes por cinco décadas
Que se escreva em boas linhas, de que Luis Fernando Veríssimo, é um autor de pleno domínio das letras e narrativas, contador de histórias dos melhores. Mestre em retratar o Brasil por suas contradições e absurdos, sem deixar de reverenciar as suas qualidades e belezas, sempre pautado por um bom humor, por vezes sutil, outras vezes ácido, mas sempre na busca por recontar o mundo por um viés humanista.
Filho de Érico Veríssimo, um dos expoentes da literatura nacional, herdou de seu pai o olhar apurado para destacar e valorizar os pequenos aspectos que dão sentidos a vida cotidiana, que por vezes passam despercebidos em suas importâncias e significados. Um autor que desenvolveria a partir daí os seus próprios caminhos literários, dando corpo e alma a sua própria escrita. Senhor de uma elegância irônica, ao mesmo tempo engraçada e mordaz, de sutilezas e pormenores para dar vida as mais variadas histórias, contos, crônicas, roteiros e charges.
Apesar de sua origem de classe média – o que num país desde sempre socialmente cindido como o Brasil, garante uma série de privilégios e vantagens – nunca optou por uma literatura burguesa alienante ou autoindulgente. Pelo contrário, lançava olhar voraz em desnudar as hipocrisias, os segredos e tabus dos típicos cidadãos de bem que agem como vitalícios senhores absolutos de todas as nossas virtudes morais e civilizatórias. E ao mesmo tempo, quando desenvolvia narrativas com um recorte popular, nunca exerceu uma ideologização do povo brasileiro como “puro e bom por natureza” ou – por outro lado – como eternamente alienado e socialmente perigoso. Sempre desenvolvendo tramas, criando personagens demasiadamente e radicalmente humanos, que interagiam entre si e com os leitores, a partir de sua verve autoral em esmiuçar e dar forma aos arcabouços de nossas almas.

Nunca deixando de transparecer em seu conjunto literário seus ideários políticos e sociais progressistas. Mesmo passando longe de poder ser classificado de panfletário, nunca se furtou, se calou ou se omitiu em combater o conservadorismo e o reacionarismo ao longo de toda a sua trajetória de escritor. O que explica a sua ojeriza ante os poderosos de sempre dessa terra brasilis e sua postura em nunca bajular os pretensos donos do poder da sociedade brasileira. Nem mesmo aos pertencentes dos círculos culturais e literários aos quais, por bem ou por mal, acabava por circular.
Em um país de pouca valorização a leitura, em que nas últimas décadas se consolidou um total desprezo pelo saber e pela cultura, Verissimo acabou por se consolidar como um escritor popularmente reconhecido por seus próprios e inegáveis méritos. Até mesmo exercendo a figura de um intelectual público, com presença constante – desde os anos 1980 – as mais diferentes formas de mídias. Das páginas de papel dos jornais de circulação nacional as páginas virtuais, sites e canais da internet, tornou-se figura humana de sensatez e bom senso, sempre em defesa dos direitos humanos, justiça social e democracia.
Autor que acabou por criar uma imagem daquela pessoa a qual você gostaria de ter como amigo, sempre com uma fala precisa e ponderada. Fazia e sabia valer o uso dos canais de comunicação para estabelecer um espaço direto de diálogo com o seu público cativo e as novas gerações que acabavam tomando contato com a sua obra e com a sua pessoa pública, lhe garantindo uma renovação de leitores contínua, década após década, a pelo menos nos últimos trinta anos.
Não sendo exagero afirmar que se tornou um dos autores mais querido do país, tendo uma rara aceitação e reconhecimento tanto de público, quanto de crítica. Fato nada usual, ainda mais de um escritor e sua obra, que não se portavam como neutros ou alienados ante as demandas históricas da sociedade brasileira.
Autor que com seus escritos acabou por ser um intérprete da nossa alma, de nossas brasilidades contraditórias, por vezes conflituosas, mas que nos tornam presentes e vivo ao mundo. Que nunca se envergonhou ou temeu em retratar o Brasil em todas as suas faces e recortes. Um país em que se ama/odeia, briga/dialoga, chora/ri… Em que os antagonismos são inúmeras vezes elementos primeiros de reconciliações e construções ditas antes como impossíveis ou inimagináveis. Tal qual o jazz que tanto amava, criava sua obra a partir dos olhares e valorização do que se considerava sem importância ou de menor valor. Artesão das letras de olhar arguto e sensibilidade apurada em dar forma e sentido, aos retalhos de sutilezas e amiúdes escondidas ou renegadas que nos formam enquanto povo e sociedade.
O Popular – Crônicas, ou Coisa Parecida (1973), As cobras (1975), Ed Mort e Outras Histórias (1979), O Analista de Bagé (1981), A Velhinha de Taubaté (1983), Orgias (1989), Gula – O Clube dos Anjos (1998), Veríssimas: Frases, reflexões e sacadas sobre quase tudo (2016) e Informe do Planeta Azul e Outras Histórias (2018), obras díspares e diversas, mas sempre repletas de alma, poesia, ironia, tesão e vida… Livros, dentre tantos outros de sua autoria, que não passam incólumes por nossas retinas, que invadem sem pedir licença nossas almas e imaginações, que nos tornam pessoas outras, melhores, ao final de cada leitura…
Narrativas sempre em uma escrita coloquial, sem deixar de ser elegante, por vezes lúdica, mas de uma sofisticação ímpar. Em que se identifica de imediato de quem é a sua autoria. Para autores que acreditam ser necessário aparentar uma vulgaridade explicita para se abordar ou falar sobre o popular, a prosa de Veríssimo é exemplo do quanto isso é falso e desnecessário. O quanto tal tipo de escrita revela muito mais os preconceitos e alienação de seus autores, além de sua limitação enquanto escritores, do que buscar representar de fato as vivências e experiências humanas das camadas mais populares de nossa sociedade. Um autor precisa acima de tudo ser verdadeiro consigo, para poder ser verdadeiro com seu público. O tamanho, a longevidade e a qualidade do conjunto de sua obra, é a maior comprovação do sucesso dessa sua premissa básica enquanto escritor.
Não queremos, com isso, dar a impressão de que se trata de uma pessoa infalível ou imune às transformações sociais que se sucedem de geração em geração. Desde termos e expressões até recortes de análise, construções narrativas e personagens, percebe-se o quanto sua obra e sua produção discursiva foram se moldando aos ares de cada época, aos referenciais de novos tempos – não por rendição ou acomodação ao que, pejorativamente, costuma ser rotulado de “politicamente correto”.
E sim, em compreensão e reconhecimento ao seu próprio processo de amadurecimento e maturação enquanto escritor e ser humano. Sem que isso representasse a negação de suas obras mais antigas ou perda de qualidade de suas produções mais recentes, até o AVC sofrido em 2021, que interrompeu a sua produção literária. Ao mesmo tempo em que se faz notável o seu arrojo e coragem, em escrever sobre nossos cotidianos não apenas por caminhos mais “tradicionais”, como por narrativas eróticas, diretas e explicitas. Não temendo em acabar maculado por sua obra ou pelos temores pudicos – e hipócritas – que cada vez mais parecem reger as relações humanas no Brasil, ao longo da última década.
O medo e a hipocrisia sempre passaram longe de sua obra, não cabendo em suas linhas, nem como reticências ou notas de rodapé. Um autor que sempre dialogou com o espírito de seu tempo, mas que nunca se deixou curvar por ele, nem quando lhe poderia ser conveniente ou mais seguro. Sempre fazendo o Brasil rir sobre si, na esperança de um outro porvir de sociedade, mais humana, radicalmente democrática e socialmente justa. Ao mesmo tempo que nos fazia refletir e amadurecer – sem moralismos ou julgamento prévios – acerca das nossas mumunhas de cada dia e das coisas pequenas que acabam por tornar a vida potencialmente mais bela!
Não sendo por isso surpresa a comoção que seu falecimento físico causou. Pois quantas obras se mantem relevantes ao longo de mais de cinco décadas de existência? Coerente aos seus princípios e compromissos éticos? Quantos autores se manteriam enquanto referenciais por décadas, enfrentando e vencendo ditadura, modismos literários, elitismos e neofascismos? Quantas autorias conseguem criar um conjunto de obras que dialogam diretamente com a alma e ao coração de seu povo, de seu país?
Podemos dizer que poucos, bem poucos, sendo o literato colorado de Porto Alegre um desses notáveis! Por isso, não sendo à toa essa sensação de vazio que a tantos acomete a partir da divulgação da sua morte. Afinal de contas, quando perdemos alguém que nos é tão próximo e que representa o melhor que podemos vir a ser, somos assolados por uma dor que parece não ter fim!
Mas que a tristeza em nós não se faça morada, não deixemos nos abater, pois apesar de tudo, não é tempo de dor! Mas de celebrações e loas. Perante uma obra que se faz agora eterna e em honra ao sempre gentil e elegante mestre da literatura mundial que foi – que na verdade é e sempre será – Luis Fernando Veríssimo, um gigante gentil brasileiro.
Que o repouso lhe seja acolhedor, que a eternidade lhe seja abençoada e bela! E que a sua escrita continue trilhando as páginas do infinito!
Christian Ribeiro doutor em Sociologia. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. Membro do grupo de pesquisa “Pensamento social: contextos, instituições, intelectuais e movimentos” do IFCH/UNICAMP.

