ENTREVISTA

Luiz Fernando Treviso: “Quero personagens negros no centro da história, com toda a complexidade de qualquer protagonista”

Autor de Era uma vez em Parpoplanca e O Ano da Desordem, Luiz Fernando Treviso fala sobre racismo estrutural, humor ácido e a decisão de colocar pessoas negras, em situação de rua, usuárias de drogas e entregadores de aplicativo no centro da resistência contra o poder 

Era uma vez em Parpoplanca e O Ano da Desordem, de Luiz Treviso constrói histórias na fronteira entre o humor e o terror, gênero que ele chama de terrir. Nos dois livros, a questão racial ocupa o centro da narrativa: no primeiro, por meio de uma família negra marcada por contradições que escapam ao arquétipo do vilão ou do herói; no segundo, através de uma sátira política em que motoboys, bikeboys e outros corpos marginalizados se organizam contra um governo que atua em nome da supremacia branca. 

Adotado ainda criança e criado em uma família branca, Treviso descreve uma relação inicial de estranhamento com a própria cor, atravessada por racismo e humilhações na infância. Foi só mais tarde, ao se aproximar da história de seus antepassados e das experiências de outras pessoas negras, que passou a incorporar essa vivência à sua ficção, sem transformá-la em retrato autobiográfico. 

Na conversa a seguir, o autor fala sobre as referências que moldaram seus personagens, do cinema blaxploitation à obra de Jorge Amado, sobre o Monumento às Bandeiras como inspiração para a estrutura racial de Parpoplanca, e sobre o humor ácido como ferramenta para expor, e não naturalizar, o racismo estrutural. 

Crédito: Luiz Fernando Treviso/Arquivo Pessoal

O que te levou a colocar a questão racial no centro de Era uma vez em Parpoplanca e de O Ano da Desordem? 

A questão racial aparece de maneiras diferentes nos dois livros. Em Era uma vez em Parpoplanca, procurei construir personagens negros que não fossem definidos por um único arquétipo. Há uma família em que encontramos tanto bondade quanto maldade, às vezes dentro do mesmo personagem. São dois lados da mesma moeda. Mesmo aqueles que cometem atos ruins têm relações de afeto, vínculos familiares e contradições. Minha intenção era não reduzi-los simplesmente à figura do vilão. 

Já em O Ano da Desordem, a questão racial assume uma dimensão mais diretamente social e política. A resistência à supremacia branca atravessa a história, e procurei não perder esse foco ao longo da narrativa. Também existe o olhar para personagens marginalizados, como a pessoa em situação de rua, não apenas pela condição em que vivem, mas como pessoas que têm história, conhecimento e experiências para transmitir. 

Em Parpoplanca, a família Cor, branca e de olhos claros, domina a cidade fictícia e ergue um monumento que retrata negros escravizados sob chicotadas. Como surgiu essa imagem para representar a estrutura racial da cidade? 

Essa imagem surgiu a partir do Monumento às Bandeiras, localizado próximo ao Parque Ibirapuera, em São Paulo. Sempre me chamou a atenção não apenas o monumento em si, mas também as leituras críticas que existem em torno dele. Popularmente os bandeirantes foram tratados como heróis, embora sua trajetória também esteja relacionada à violência e à escravização, principalmente de povos indígenas. No monumento, negros e indígenas aparecem a pé, enquanto algumas das figuras que representam os bandeirantes estão a cavalo, o que também permite uma leitura sobre hierarquia e relações de poder. Foi a partir dessa referência que criei, em Parpoplanca, um monumento muito mais explícito e brutal, com negros escravizados sendo chicoteados, para representar a estrutura racial daquela cidade e o poder exercido pela família Cor. 

O detetive Canduco Tavares, um dos protagonistas negros do livro, é construído com humor e afeto ao lado da parceira Pseuda. Por que era importante que personagens negros ocupassem o centro da narrativa, e não apenas sua margem? 

A decisão de colocar personagens negros no centro da narrativa ganhou força quando tive contato com o cinema blaxploitation, principalmente com filmes como Shaft, e também com a literatura de Jorge Amado, que trouxe para suas histórias personagens pobres, negros e marginalizados, dando a eles grande importância dentro da narrativa. Um dos livros que mais me marcou nesse sentido foi Capitães da Areia, pela força de seus personagens e pela magnitude de sua escrita. Outra obra que despertou muito a minha atenção foi Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco. 

Somando essas referências, fui trazendo para o universo de Parpoplanca personagens negros com diferentes personalidades e contradições. Entre eles está o detetive Canduco Tavares, que possui uma personalidade muito própria. Antes de se tornar detetive, ele passa por diferentes profissões e busca conhecimento, inclusive das leis, como uma maneira de compreender melhor o mundo em que vive e encontrar formas de enfrentar um sistema opressor. 

Mas não quis construir Canduco como aquele detetive sério típico do noir, nem fazer com que ele existisse apenas para representar uma questão racial. Ele tem humor, afeto, defeitos, contradições e uma relação muito particular com Pseuda. A ideia era construir um protagonista negro cuja cor faça parte de quem ele é, mas não seja sua única característica. Queria que ele pudesse simplesmente ocupar o centro da história com toda a complexidade de qualquer protagonista. 

O humor ácido serve como ferramenta de crítica social? Que função específica ele cumpre quando o alvo é o racismo estrutural? 

A crítica social pode ser trabalhada por diferentes gêneros e linguagens, mas optei por desenvolvê-la através do humor e também do terror – uma combinação que muitos chamam de “terrir” – porque acredito que ambos têm um peso muito forte quando se fala de crítica social. 

Nesse caso, o humor se torna ácido. Escolhi essa acidez porque ela é uma maneira de nos fazer refletir sobre alguma coisa. É quase como apanhar rindo, levar um soco no estômago acompanhado de uma sensação de riso. Às vezes é aquele riso que fica preso, querendo sair, mas não sai porque você até teme a reação de quem está ao lado. Para mim, esse desconforto faz parte do humor ácido. 

Só que, nas minhas obras, procuro usar essa acidez não exatamente no sentido de apanhar rindo, mas de contra-atacar rindo. Em Era uma vez em Parpoplanca, ela aparece muito no ataque ao moralismo: quanto mais falsamente moralistas são determinados personagens, mais eu os escrachos, muitas vezes recorrendo a um humor deliberadamente baixo, justamente para provocar desconforto. Em O Ano da Desordem, esse falso moralismo também está presente, mas a sátira se volta principalmente para as elites e para aqueles que ocupam posições de poder. 

Quando entra a questão do racismo estrutural, quem sofre o racismo não é o alvo da piada. A acidez está justamente em expor e ridicularizar o absurdo do preconceito e as relações de poder que ajudam a perpetuá-lo. Nesse caso, o humor deixa de ser apenas uma maneira de provocar o riso e se transforma também numa forma de contra-ataque. 

Em O Ano da Desordem, o enredo apresenta um governo que atua em nome da supremacia branca, enquanto motoboys e outros corpos marginalizados organizam a resistência. Que paralelos você enxergava com o Brasil ao escrever essa sátira? 

A ideia de O Ano da Desordem surgiu muito antes do cenário político que depois acabaria influenciando a história. Em 2013, escrevi uma breve sinopse – ou melhor, uma linha de raciocínio – sobre um Salvador que surgia no Morro do Dendê e que, desde o seu nascimento, despertava a descrença de muitas pessoas, até ser novamente perseguido e crucificado. Anos depois, por acaso, reencontrei essa ideia no meu banco de arquivos e resolvi desenvolvê-la. Como não queria retratar o Rio de Janeiro, até porque não sou de lá, transportei a história para São Paulo. 

Foi durante o desenvolvimento da história que comecei a pensar em quem seriam as pessoas que se colocariam contra esse Salvador. Nesse momento, o cenário político brasileiro começou a entrar na construção da sátira. Um dos insights veio do nome de um ex-presidente, que traz “Messias” no próprio nome. A partir daí, comecei a trabalhar com o falso moralismo e com a contradição entre o discurso dos chamados “bons costumes” e as atitudes de determinados personagens que defendem esses valores. Aos poucos, fui incorporando à história características que observava na vida pública brasileira. 

Depois comecei a pensar em quem estaria do outro lado, junto desse Salvador. Foi quando surgiu a ideia dos motoboys e bikeboys. Eu trabalhei como bikeboy, comecei durante a pandemia e, ocasionalmente, ainda faço esse serviço às vezes. Naquele período, percebi como esses trabalhadores se tornaram ainda mais essenciais para o funcionamento da cidade, ao mesmo tempo em que continuavam enfrentando uma rotina bastante difícil. Trabalhando de bicicleta, presenciei situações de descaso tanto por parte de clientes quanto de estabelecimentos e conheci de perto a relação desses trabalhadores com o sistema dos aplicativos. 

Daí surgiu outro paralelo com o Brasil: imaginar o que aconteceria se trabalhadores que ajudam a manter a cidade funcionando, mas que muitas vezes permanecem à margem, resolvessem se organizar e se rebelar contra esse sistema. Foi assim que os entregadores acabaram se tornando parte da resistência. 

Nas duas obras, personagens marginalizados (pessoas negras, usuárias de drogas, prostitutas, entregadores de aplicativo) aparecem no centro da resistência contra o poder. Isso reflete alguma visão sua sobre quem sustenta, de fato, a sociedade brasileira? 

Acredito que a experiência, os obstáculos e o sofrimento enfrentados por esses personagens têm muito a acrescentar à sociedade. Não gosto muito da definição “marginalizados”, porque acho que ela traz uma conotação estranha, embora seja o termo utilizado para definir pessoas que a própria sociedade coloca à margem. Negros, usuários de drogas, prostitutas e até entregadores de aplicativo carregam experiências que podem ser de suma importância para a sociedade. 

A história de vida e os obstáculos enfrentados podem gerar ideias, conhecimento e até formas de resistência contra uma ordem imposta. Essas pessoas muitas vezes conhecem a raiz de determinados problemas justamente porque os vivenciam. Um usuário de drogas que conseguiu superar a dependência, por exemplo, conhece as dificuldades desse processo e pode compreender quais projetos seriam necessários para ajudar outras pessoas na mesma situação. Uma prostituta conhece questões específicas da realidade em que vive; um entregador conhece por dentro as dificuldades e contradições do seu trabalho. 

Por isso, quando penso em quem sustenta a sociedade, não me refiro apenas à profissão ou ao que cada pessoa faz para ganhar seu sustento. Para mim, esse “sustentar” também está no conhecimento adquirido pela experiência e naquilo que essas pessoas podem transmitir para a sociedade. É justamente por conhecerem determinados problemas a partir da própria vivência que, nas minhas histórias, esses personagens também encontram forças para resistir e enfrentar quem está no poder. 

O quanto da sua vivência como homem negro entrou diretamente nos personagens negros de Parpoplanca e de O Ano da Desordem? 

Minha vivência como homem negro não aconteceu em um ambiente rodeado de pessoas negras. Fui adotado ainda muito pequeno e cresci em uma família branca. Minha experiência inicial com a questão racial foi bastante estranha, porque durante muito tempo fui alvo de piadas racistas e humilhações por causa da minha cor. Isso fez com que, naquela época, eu próprio rejeitasse minha cor, porque não conseguia enxergá-la como algo positivo. Era como se eu fosse, literalmente, um estranho no ninho. 

Durante muito tempo, essa sensação me acompanhou. Minha vivência como homem negro passou, portanto, também por esse sentimento de não compreender plenamente minha própria cor e minha origem. 

Foi mais tarde que comecei a conhecer melhor a história dos meus antepassados e também a me aproximar das experiências de outras pessoas negras, através de livros, filmes e relatos. Passei a conhecer melhor questões como o apartheid, a realidade de pessoas negras que vivem nas periferias, o abandono por parte do poder público, a violência sofrida por serem negras e pobres e, de maneira mais ampla, a luta diária de homens e mulheres negros no Brasil para conquistar espaço e voz. 

Quando comecei a construir essas histórias, levei parte dessa minha vivência para os personagens, inclusive essa experiência de ter crescido em um ambiente predominantemente branco. Mas Era uma vez em Parpoplanca e O Ano da Desordem não são construídos apenas a partir da minha experiência pessoal. Procurei incorporar também experiências e realidades de outras pessoas negras. Por isso, existe algo de mim nesses personagens, mas eles não são um retrato autobiográfico da minha vida. 

O que você espera que a pessoa leitora sinta ao terminar a leitura de Parpoplanca ou de O Ano da Desordem? 

Espero que, ao terminar os dois livros, a pessoa leitora fique com um espírito de resistência e, principalmente, de união. Tenho a impressão de que o povo, especialmente a classe trabalhadora, está cada vez mais desunido e sendo colocado uns contra os outros. Muitas vezes, vejo pessoas que pertencem a essa mesma classe reproduzindo pensamentos e valores muito mais próximos das elites do que da própria realidade em que vivem. 

Tanto em Parpoplanca quanto em O Ano da Desordem, existe essa ideia de que determinadas mudanças só acontecem quando as pessoas deixam de agir isoladamente e passam a unir forças. É essa sensação que gostaria que permanecesse depois da leitura: resistência, união e a percepção de que reproduzir pensamentos elitistas não necessariamente transforma a realidade de quem está na base da sociedade. 

 

Isabelle Rieger é jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Também é licenciada em Letras – Português (PUCRS). Tem interesse em literatura, imagem, educação e cultura. 

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