O PAÍS RETOMOU AO PROTAGONISMO NO CENÁRIO GLOBAL.

O Brasil perdeu influência no mundo?

O Brasil não é uma potência, mas é um país que consegue manter um equilíbrio pragmático nas relações com esses atores

Na última semana, o artigo de opinião no periódico, The Economist, colocou em dúvida a influência do governo Lula no mundo com a informação de que o governo é “incoerente no exterior” e “impopular no Brasil”. Até que ponto o Brasil perdeu influência no mundo?

Há muitos anos atrás, um americano que falava inglês,  Edward Said, lançou seu clássico livro, Orientalismo: O oriente como invenção do Ocidente. Apesar de possuir uma influência europeia, o autor demonstrou em fins dos anos de 1970 que o mundo estava em transformação. A lógica de contrapor Ocidente x Oriente já não era uma cadeia de pensamento relevante para o sistema internacional que estava por vir.

Muito embora, tenham se passados quase meio século desse cânone, ainda se encontra um pensamento Ocidente x Oriente em alguns estratos da nossa sociedade. Ao afirmar que a política externa de Lula da Silva é incoerente porque é próxima do Irã e Rússia, e se afasta de Israel e Estados Unidos, o artigo desconsidera o mundo em crescente transformação. Na verdade, ele volta a uma lógica colonial em que para o Brasil ser grande, ele precisa estar ao lado dos países “ocidentais”.

Ao analisar os passos do Brasil nos últimos anos, e especialmente a partir de 2023, percebe-se que o país retomou ao protagonismo no cenário global. Apresentou suas credenciais ao receber importantes foros globais, da dimensão do G-20 em 2024, dos BRICS+ em 2025 e da COP30 em 2025. Nos três encontros, o Brasil recebeu países de diversas tendências para discutir temáticas fundamentais da economia global, da geopolítica mundial e do meio ambiente. Mas, afinal, por que a crítica do periódico inglês?

O artigo frisa que Lula não exerceu seu papel de líder, pois não conseguiu se encontrar com Donald Trump, enquanto fez duas viagens para a China e uma viagem para a Rússia nos últimos anos. Entretanto, o que não é dito é que Lula visitou Joe Biden entre 2023 e 2024, para cumprir compromissos e agendas entre os dois países. É evidente que Lula e Trump não possuem diálogos políticos, mas isso não significa dizer no futuro isso não possa mudar.

Presidente Lula falando no microfone no palanque das Nações Unidas. Ele usa um terno cinza e uma gravata em tons avermelhados.
Crédito: Ricardo Stuckert / PR

Outra questão importante é relembrar qual tem sido o posicionamento histórico do Brasil em relação às grandes potências em disputa. O Brasil não é uma potência, mas é um país que consegue manter um equilíbrio pragmático nas relações com esses atores. Somos universais e estamos dispostos a nos relacionar bem para garantir os interesses brasileiros. No cenário atual, marcado por um mundo multipolar e pela perda relativa de poder dos Estados Unidos, torna-se essencial estar atento a todas as possibilidades — sem adesões incondicionais. Um exemplo de adesão incondicional sem resultados foi a recente relação do governo Bolsonaro com Donald Trump entre 2019 e 2020. Não houve resultados econômicos, políticos, militares ou tecnológicos que justificassem a chamada “aliança especial” com os americanos. Houve, é certo, uma promessa de apoio de adesão a OCDE, mas até o momento não foi alcançado esse projeto.

Dito isto, o Brasil, em 2025, necessita saber conviver com as três grandes potências: EUA, Rússia e China. Evitar mecanismos que coloquem a linha de raciocínio “Ocidente x Oriente”, apesar de estarmos em um mundo de crescente conflitos. Aliás, vale relembrar que o Brasil é uma das autoridades no quesito luta pela paz. Inclusive, o governo Lula patrocinou junto com a China, o “Grupo de Amigos pela Paz”, formado por 12 países, buscando o diálogo na guerra da Rússia x Ucrânia, em 2024.

Além dessa questão política, é importante lembrar a densidade econômica das três potências para nossa balança comercial. Em 2024, a China foi nosso principal parceiro comercial, com US$ 94,4 bilhões exportados de produtos brasileiros e US$ 63,57 importados de produtos chineses. Já os Estados Unidos, exportou-se US$ 40,3 bilhões em produtos nacionais, e foi importado US$ 40,58 bilhões em produtos americanos. Por fim, a Rússia exportou US$ 1,4 bilhões de produtos brasileiros e importou US$ 10,96 bilhões de produtos russos.

A postura brasileira frente as três grandes potências têm sido de pragmatismo e universalismo. E o mais importante, evitando a retórica do “ocidente x oriente”, que em 1978 um americano já havia previsto que não era o caminho. O mundo é múltiplo, conflitivo e instável. E nesse jogo, o Brasil é cada vez mais influente.

 

Danilo Sorato é professor de História e Relações Internacionais. Doutor em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisador do Laboratório de Política Externa Brasileira (LABPEB/UFF) e Pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e do Planejamento Espacial Marinho (CEDEPEM/UFF/UFPel). Escreveu diversos artigos acadêmicos e jornalísticos sobre as relações internacionais do Brasil, em especial os governos Temer, Bolsonaro e Lula.

 

Referências

SAID, E. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

THE ECONOMIST. Brazil’s president is losing clout abroad and unpopular at home. The eoconomist, publicado em 29 de junho de 2025. Disponível em: https://www.economist.com/the-americas/2025/06/29/brazils-president-is-losing-clout-abroad-and-unpopular-at-home.

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