Made in Brazil - Le Monde Diplomatique

TRANSEXUAIS BRASILEIROS

Made in Brazil

por Fabiana Ghiringhello
4 de outubro de 2011
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Cerca de 120 mil brasileiros moram hoje na Itália, sem contar os imigrantes que vivem na irregularidade. Entre eles há um grupo expressivo de transexuais, que atuam como profissionais do sexo com péssimas condições de trabalhoFabiana Ghiringhello

(Cena de “Luis Antônio Gabriela”, peça que conta a história da travesti Gabriela (antes, Luís Antonio) desde o nascimento em Santos até a morte em Bilbao (Espanha), a partir da relação complexa de opressão e carinho com o irmão, Nelsinho – o próprio diretor, Nelson Baskerville.)

Começa a tocar Garota de Ipanema na conhecida rádio FM – Deejay. Os apresentadores, antes de iniciarem a música explicam que a oferecem a todos os brasileiros, uma forma carinhosa de homenagear o nosso grande povo.  Eles explicam que a composição de Vinícius de Moraes e Tom Jobim cantada por João Gilberto e Astrud, a versão que tocam, é como um hino aos brasileiros. São onze horas da manhã.

Enquanto a escuta Jessica*, levanta e começa a sua rotina. Caminha até o quarto e escolhe um vestido preto. Sentada na penteadeira ela arruma-se para o trabalho. Escolhe sombras azuis, passa um grosso contorno de lápis preto nos olhos, um batom vermelho vibrante e voilà! Observa fixamente a própria imagem refletida no espelho, e constata que ainda mantém os meus brilhos nos olhos de quando chegou aqui. Ela mora na Itália há mais de dez anos e como ela são 120 mil brasileiros residentes no país atualmente.

A maioria vem por opção pessoal, não são obrigados e nem embarcados a força.  Afirmam que é a falta de oportunidades no Brasil os fizeram abandonar a pátria. Jéssica não é diferente. Quando veio para a Itália trabalhar, não tinha emprego no Brasil. Para chegar ao continente europeu assumiu um débito e foi trazida por uma rede internacional. Em média os integrantes dessa rede são brasileiros com contatos nos países europeus. Eles pedem por volta de 16 mil euros pela viagem e suporte no período inicial. Os interessados na viagem vêem o preço sem muitas queixas. Vivendo aos insultos no Brasil e escondendo a própria existência, eles não têm muito a lamentar. Muitos os chamam de sem vergonha, descarados e vagabundos. Independente de como os chamam, uma coisa é bem certa: todos ignoram quem são eles.

Nas esquinas e ruas das grandes e médias cidades italianas eles trabalham. Que coisa oferecem? Eles mesmos, estão semi-vestidos, expondo o produto, uma conhecida estratégia de marketing. Mas porque não vão trabalhar? Trabalham, mas como prostitutas. Por que não fazem outra coisa?  Refaço melhor a pergunta. Você daria emprego a um transexual? Conhece alguém que daria?

Transexual é uma pessoa que sente fisicamente, emocionalmente e psicologicamente que pertence ao sexo oposto ao que nasceu. Muitos homens e mulheres transexuais apresentem a sensação de desconforto ou impropriedade de seu próprio sexo e desejam fazer uma transição de seu sexo de nascimento para o outro sexo. Se sentem como “uma mulher presa em um corpo masculino” ou vice-versa. Eles não podem ser chamados simplesmente de gays ou lésbicas.

   

(Marcos Felipe – ator que interpreta Luis Antônio Gabriela no documentário cênico de Nelson Baskerville)

Por seis meses acompanhei o trabalho de uma entidade, financiada pela Região Toscana, que oferece assistência ao trabalho de prostituição em Pisa, a Cooperativa Sociale Il Cerchio. Nesse período conheci 41 transexuais, 39 brasileiros e dois italianos. Todos trabalham, sem exceção, como prostitutas, sete dias na semana, cerca de oito horas por dia.  Parte do dinheiro que recebem eles enviam as famílias no Brasil e a outra parte pagam o aluguel, compram comida, transporte, roupas, etc. Dependendo do “acordo” que fazem para chegar até a Europa, o débito deve ser quitado em prazo pré-estipulado.

Sofia chegou à Itália há uma semana. Trabalha na Via Aurélia, uma rodovia estadual que liga Roma a França seguindo a costa do Mar Tirreno. Em media são 12 horas de trabalho diário. Das três da tarde até por volta das nove da noite na Via Aurélia. Depois segue para Migliarino, uma pequena cidade vizinha a Pisa, onde permanece até as seis da manhã. “Hoje tô feliz, fiz 250 euros noite passada” conta contente a jovem que depois de pagar a dívida poderá mandar dinheiro à família que a espera no Brasil. “Isso não é vida pra ninguém, espero poder voltar no Brasil em dezembro” reclama.

Recentemente um transexual foi agredido e teve uma perfuração no rim. Paula sofreu agressão de um cliente que se recusou a pagar pelo serviço. Ela trabalha na Itália há mais de 15 anos, tem carro, casa no Brasil e estabilidade financeira. “Era um italiano, e acho que poderia ser até um policial, pois me lembro de receber somente um golpe quando ele me jogou para fora do carro. Senti fortes dores. Já quando estava em casa, às dores pioraram e no outro dia tive que ir correndo para o hospital”. Paula ficou em casa semanas até se recuperar.

Muitos consideram a transexualidade como um tipo de transtorno de identidade de gênero. Não há muitos estudos publicados sobre o assunto. Preconceitos e discriminação em diferentes âmbitos, tanto cultural, social e religioso, impedem uma necessária abertura sobre o tema. Os transexuais vivem completamente marginalizados. Aos homens transexuais a única opção de emprego é a prostituição e constantemente recorrem ao uso de álcool e drogas para suportar a precariedade das condições do trabalho. Ao contrário das mulheres transexuais que sofrem menos preconceito, como a americana Dorothy Lucille Tipton, que mesmo nascida em 1914, pode se tornar um homem aos 26 anos de idade. Billy Tipton trabalhou como músico de jazz nos Estados Unidos, nas décadas de 40 e 50.

A rede internacional transformou os homens transexuais brasileiros em um produto “Made in Brazil”. Não existem nenhum registro oficial de quantos deixam o Brasil atrás do dinheiro europeu. Ano passado foi divulgado um vídeo onde o presidente da região Lazio, Piero Marrazzo mantinha relações sexuais com Brenda, um trans brasileiro.O material registrado por Carabinieri (a policia Italiana), não expôs somente uma pessoa pública importante, como acabou demonstrando o uso recorrente da sociedade, nesse caso da mais alta camada social, aos serviços dos transexuais brasileiros. Depois do escândalo, o apartamento de Brenda em Roma foi incendiado e a jovem morreu.  O responsável pelo crime não foi encontrado.

Para regularizar a sua situação na Itália, Melissa, casou, sob pagamento, com uma jovem italiana. A noiva cansada de viver com os pais, usuários de substancias tóxicas recebeu cinco mil euros pelo casamento. Hoje a jovem depende de Melissa para viver.

A prostituição na Itália não é crime. O crime é considerado quando existe a exploração por parte de uma terceira figura, conhecido como cafetão. No Articolo 18 da Constituição italiana está previsto assistência e permissão de permanência na Itália, a concessão do permesso di soggiorno, aos que vivem ou viveram nessa situação de exploração do trabalho. As vitimas devem denunciar formalmente a quem dão o dinheiro e imediatamente são colocadas sob proteção por risco de retaliação. Cristina terminou o relacionamento com um namorado italiano que passou a persegui-la. Uma noite o ex entrou na casa e a ameaçou de morte com uma faca. Os dois foram levados e a polícia não registrou a ocorrência contra o italiano, mas emitiu o documento de deportação a Cristina. A jovem vive sob um programa de proteção a vitimas deste tipo de perseguição amorosa, o stalking, e foi orientada por advogados a denunciar as condições de trabalho que está submetida na Itália para poder anular a expulsão e requerer o permesso. Com medo ela não sai da casa onde foi colocada pelas autoridades italianas.

Em media os transexuais conseguem por mês de três a quatro mil euros. Como trabalham ilegalmente, os preços de aluguel e outras despesas do dia a dia são mais altas. Um exemplo é o custo médio do aluguel de um apartamento de um quarto em Pisa. Normalmente o valor mensal está em torno de 600 a 700 euros. Roberta, paga 200 euros por semana por um quarto em uma casa com outros trans. “Nós (trans) temos duas opções, ficar rico e doente ou pobre e saudável. Clientes pagam mais para as relações e jogos sexuais sem preservativos como também quando usamos drogas juntos” explica Roberta e continua “Quando um cliente fala, te dou 100 euros, por um trabalho que em média você cobra 50, ele com certeza tem AIDS, senão porque pagaria mais para correr o risco de ser infectado?”.

Valentina saiu de casa ainda bem jovem, mas não mudou de cidade. A família da italiana não aceitava a sua transexualidade. Eles mantêm um pacto de convivência. Agora é a atividade profissional de Valentina que é o obstáculo maior, nem mesmo sua mãe consegue superá-lo. “As pessoas discutem sobre trans, dizem o que deveríamos fazer ou mesmo que somos errados, pois somos transexuais, mas ninguém discute que não existe opções de trabalho para o homem transexual” declara. Valentina muitas vezes convidada em shows de TV e rádio, concedeu diversas entrevistas e conta que em nenhum deles empregabilidade dos trans foi o tema da transmissão. “Somos todas problemáticas, trabalhamos nas mais precárias condições como prostitutas o que gera piedade. As pessoas podem até nos perdoar pelo que somos, mas que não existe nenhuma oferta de trabalho para nós, isso nunca se discute” reclama.

*Os nomes foram trocados para preservar o anonimato dos entrevistados.

 

Fabiana Ghiringhello é jornalista formada pela Universidade Metodista de Piracicaba, especialista em documentário social pela città del teatro, Itália e mestre em Cinema Europeo pela University of Bath, Inglaterra.



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