Maioria social, minoria política - Le Monde Diplomatique

DOSSIÊ ESPECIAL- ELEIÇÕES NA FRANÇA

Maioria social, minoria política

por Bruno Amable
abril 20, 2017
por Maurício Planel
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A radiografia dos blocos políticos: É estranha a democracia francesa: há trinta anos, os programas dos grandes partidos não correspondem às expectativas das classes populares, que, contudo, representam mais da metade do eleitorado. Diferentemente das ideias em voga sobre o esfacelamento das divisões ideológicas, as aspirações dos trabalhadores configuram um bloco social de esquerdaBruno Amable

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Entre as muitas expressões da crise política francesa, pode-se citar a propensão de certos candidatos ou partidos a se proclamarem “antissistema”. Por exemplo, Emmanuel Macron, ex-ministro da Economia de François Hollande, e François Fillon, primeiro-ministro de Nicolas Sarkozy, adotam postura de rebeldes para tentar escapar do descrédito que atinge a representação política. Eles recorrem a uma tática muito bem-sucedida em 1995, quando Jacques Chirac venceu o primeiro-ministro que deixava o cargo, Édouard Balladur, e em 2007, quando Nicolas Sarkozy encarnou a “ruptura” com um governo do qual ele, no entanto, fizera parte. Os dois candidatos da direita conseguiram vencer a maldição em voga desde 1981, segundo a qual um partido no poder sempre perdia as eleições.
Há uma manifestação dessa crise, porém, que é menos exuberante, mas mais significativa: a impossibilidade de encontrar um equilíbrio que combine um projeto de sociedade, principalmente um modelo econômico e social; uma coalizão política capaz de apoiar esse projeto; e uma base suficientemente grande para apoiar essa coalizão. Até 1981, a França da Quinta República era um exemplo desse tríptico: uma economia em forte crescimento apoiada em um Estado social (embora menos desenvolvido que nos países da Europa setentrional); promovida por uma aliança que unia uma ampla parte dos dirigentes e profissionais intermediários do setor privado e uma minoria de trabalhadores e funcionários públicos; sendo o todo representado por uma coalizão de gaullistas e liberais.1
A Itália, até a crise 1992, exibia outro quadro, com um modelo econômico baseado na modernização industrial; uma aliança da grande indústria, pequenas empresas do nordeste e do centro do país com seus funcionários e diversas frações de classes ligadas especialmente aos setores rentista e financeiro; o conjunto se traduzindo por uma representação política dominada Democracia Cristã. A busca infrutífera pelo referido tríptico caracteriza a situação da França há quase quatro décadas.

A esquerda trocou de base
Assim, a crise política pode ser definida como ausência de bloco social dominante – entendido como um agregado de grupos cujas principais expectativas em matéria de política pública e ambiente institucional são suficientemente contempladas pela coalizão no poder. A constituição de tal bloco resulta de uma estratégia que consiste em selecionar as expectativas a serem cumpridas, mas também, numa perspectiva de mais longo prazo, em influenciar a formação dessas expectativas, procurando definir o que será apresentado como “realista”.
Remontando ao período 1975-1983, observam-se na França duas estratégias políticas opostas, baseadas em dois projetos de modelo econômico e social. Após a crise do início dos anos 1970, a coalizão de direita no poder desde o início da Quinta República (1958-…) deu início a uma guinada neoliberal encarnada por Raymond Barre e sua escolha por uma política de austeridade, em ruptura com a gestão tradicional que prevalecera até a tentativa infrutífera do plano de estímulo de Jacques Chirac em 1975. A direita buscava o apoio de um bloco social centrado em torno de categorias fluidas, grande parte dos dirigentes do setor privado, autônomos, artesãos e comerciantes e até agricultores. Ela também podia contar com o apoio de uma minoria das classes populares, trabalhadores braçais e principalmente empregados do setor terciário, situados à direita por convicção religiosa ou adesão aos valores da ordem e da segurança.
Em oposição a ela, a coalizão de esquerda, que combinou o Partido Comunista Francês (PCF), o Partido Socialista (PS) e os radicais de esquerda, propunha – em conjunto a partir de 1972 e separadamente após a ruptura da União da Esquerda em 1977 – uma mudança de modelo econômico. Os eleitores podiam, com otimismo, interpretá-la como uma transição rumo ao socialismo ou, mais modestamente, como o estabelecimento de um capitalismo social-democrata fundado num elevado nível de Estado social combinado com a preponderância de um setor nacionalizado concebido como a ponta de lança do crescimento e do progresso. Com base em dados da pesquisa de 1978 do Centro de Pesquisa Política do Sciences Po (Cevipof), pode-se estimar que esse projeto tinha o apoio da maioria das classes populares (60% dos trabalhadores braçais das funções mais inferiores, 56% daqueles nas funções mais superiores) e do funcionalismo público. No segundo turno da eleição presidencial de 1981, 72% dos trabalhadores braçais e 62% dos assalariados votou a favor de François Miterrand. A convicção de poder apoiar-se em uma base social sólida levou Mitterand a declarar que “a maioria política dos franceses, democraticamente expressa, identifica-se com sua maioria social”.2
Trinta e um anos depois, em 2012, vimos a que ponto a “esquerda de governo” tinha se separado de sua base tradicional, virando as costas para as ambições transformadoras de que se fizera portadora. A opção pelo rigor feita em 1982-1983 negligenciou as expectativas mais básicas dos grupos constituintes do bloco sociológico que a apoiava. Essa contradição entre as políticas econômicas que a “esquerda de governo” – ou seja, principalmente o PS – queria colocar em prática e as expectativas de sua base culminou em uma crise que os socialistas tentaram prevenir, com diferentes graus de convicção, buscando “renovar” o bloco social no qual se apoiava seu partido.
Os dados da pesquisa eleitoral francesa, do Centro de Estudos Europeus (CEE-Sciences Po), mostram que, em 2012, uma minoria dos trabalhadores braçais (45%) aprovava os partidos de esquerda (do PS à extrema esquerda), ao passo que em 1978 o apoio era de 60%. Os trabalhadores dos serviços, que em 1978 davam 46% de seus votos para a esquerda, em 2012 concediam apenas 35%. Em compensação, o apoio das classes diplomadas (quadros tanto do setor privado como do público) aumentou significativamente: os proprietários e dirigentes, que davam 18% de seu apoio a partidos de esquerda em 1978, passaram a 43% em 2012. Do mesmo modo, se 29% dos quadros do setor privado votavam na esquerda em 1978, essa proporção subiu para 45% em 2012. Além disso, o desligamento das classes populares em relação à “esquerda de governo” alimentou mais os níveis de abstenção do que as pontuações da direita e da extrema direita. Assim, de acordo com a pesquisa Ipsos sobre as eleições regionais de 2015, o forte voto trabalhador para a Frente Nacional (43%) deve ser relativizado diante da abstenção maciça desse grupo (61%).
Análises estatísticas3 mais sistemáticas revelaram um elemento crucial e paradoxalmente negligenciado no debate público: o bloco social de esquerda ainda existia em 2012. Em outros termos, grupos identificáveis por meio de categorias socioprofissionais do Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (Insee) exprimiam expectativas bastante representativas de uma política de esquerda. Um tema aparentemente ultrapassado, como o das nacionalizações, tinha em 2012 uma maioria de opiniões positivas,4 com apoio mais marcado entre funcionários públicos e uma oposição sensível por parte das categorias com rendimentos elevados. Quase o mesmo tipo de antagonismo podia ser observado em questões como a reforma da previdência de Sarkozy, o aumento do imposto sobre o valor agregado (IVA) ou as políticas de redução da desigualdade. Assim, ao contrário das ideias em voga sobre o apagamento das “velhas” clivagens, as preferências em termos econômicos desenhavam na população francesa uma oposição direita-esquerda que podia ser conectada à estratificação socioprofissional.
De modo mais geral, as oposições entre grupos sociais relativas a essas preferências não pareciam, em 2012, profundamente diferentes do que eram em 1978: as categorias com os rendimentos mais baixos aprovavam a ideia de uma redistribuição, a qual suscitava, desprezando-se outros critérios, a hostilidade das categorias com rendimentos elevados. Estes, assim como os profissionais liberais, artesãos e comerciantes, eram favoráveis à reforma da previdência de Sarkozy e muito desfavoráveis à ampliação do setor público. O projeto de substituir os contratos de trabalho existentes por um único contrato flexível, com um nível de proteção que aumentava pouco em função do tempo de serviço, despertava a adesão dos grupos compostos por indivíduos diplomados, mais velhos e com rendimentos mais elevados (60% dos dirigentes declaravam-se favoráveis), mas não a das categorias populares (52% dos trabalhadores braçais e assalariados eram contrários).
Embora em 2012 ainda existisse potencialmente um bloco que exprimia expectativas de esquerda e um bloco de direita com aspirações opostas, a simetria terminava aí. Isso porque as relações que mantinham as coalizões políticas de direita e de esquerda com suas respectivas bases sociais mudaram significativamente. A direita precisa encontrar um equilíbrio entre as aspirações às reformas neoliberais radicais que são reivindicadas por uma fração de seu eleitorado (profissionais liberais, quadros superiores), mas que apavoram outra parte dele (assalariados intermediários do setor privado). Assim, o problema recorrente das coalizões de direita é encontrar uma mediação entre aspirações divergentes. Nesse sentido, a escolha de François Fillon, que deseja colocar em prática um programa mais radicalmente neoliberal do que qualquer partido de direita jamais propôs, parece agravar o problema mais do que resolvê-lo.
A “esquerda de governo” recusa-se, desde 1982-1983, a aplicar uma política correspondente às expectativas do bloco social que a levou ao poder. Essa coalizão política, dominada pelo PS, está, portanto, condenada a procurar um eleitorado alternativo que apoie as opções fundamentais em torno das quais se articula sua política econômica: a integração europeia e as “reformas estruturais” neoliberais, eventualmente suavizadas por uma política social “ativa” e/ou uma política macroeconômica refratária à austeridade. Os grupos que podem apoiar essa orientação caracterizam-se por níveis de rendimento e educação relativamente elevados – é por esse motivo que se pode qualificar como “bloco burguês” a frente que eles constituíram. Seu núcleo seria formado por quadros superiores da função pública, tradicionalmente ligados ao bloco de esquerda, e quadros do setor privado, que costumam fazer parte do bloco de direita.
A estratégia política correspondente não é nova e tem sido explorada com sucesso limitado pelos diversos representantes da direita do PS: Jacques Delors, que em 1985 chamava “os sábios de todos os lados”5 a entrarem em acordo sobre uma política econômica que pouco variasse segundo as alternâncias políticas; e Michel Rocard, que, tendo assumido a liderança do PS após a derrota nas eleições legislativas de 1993, procurava um “big bang”, uma solução alternativa à tradicional aliança do PS com o PCF.
Quem encarna atualmente tal estratégia de forma mais flagrante é Emmanuel Macron, que, apesar de suas pretensões de ser visto como novidade, reivindica um “nem direita nem esquerda” já desgastado. Pode-se facilmente adivinhar o programa econômico que ele carrega lendo suas obras de juventude, o relatório Attali,6 ou observando sua trajetória como ministro, com a Lei Macron. Suas orientações de política econômica – pró-integração europeia, favoráveis às privatizações e à “liberalização” do mercado de trabalho – correspondem à tentativa de constituir um “bloco burguês” dominante.
No entanto, há um obstáculo a esse projeto. Esse eleitorado é composto por grupos sociais diplomados e abastados, mas social e politicamente minoritários. Uma estratégia realista implicaria, portanto, buscar uma mediação capaz de arregimentar outras tropas. Como o projeto econômico se assenta em reformas neoliberais rejeitadas pela maioria do antigo bloco de esquerda, o reforço viria provavelmente de frações pertencentes ao bloco de direita (profissionais liberais, intermediários). Essa seria uma solução para as contradições internas da direita: rejeitar na minoria política as categorias mais hostis às “reformas estruturais”, aliando-se aos grupos do antigo bloco de esquerda que, nele, são mais favoráveis. Essa maioria política provavelmente continuaria sendo sociologicamente minoritária.

*Bruno Amable é economista e autor, com Stefano Palombarini, de L’Illusion du bloc bourgeois [A ilusão do bloco burguês], Raisons d’Agir, Paris, a ser publicado em maio de 2017.

{Le Monde Diplomatique Brasil – edição 116  – março de 2017}



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