Manu militari - Le Monde Diplomatique

Editorial

Manu militari

Edição - 31 | México
por Silvio Caccia Bava
3 de fevereiro de 2010
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A guerra declarada contra o narcotráfico e o terrorismo chega às fronteiras estadunidenses com o México, onde os volumosos recursos do Plano Mérida, destinados a prover o exército mexicano de equipamentos, treinamento e assistência, não estão sendo capazes de controlar o crescente nível de violência na região.

O primeiro ano do governo Obama trouxe várias novidades na política dos Estados Unidos para a América Latina, nenhuma delas boa. Pode-se dizer mesmo que os EUA endureceram sua política para a região, numa linha de continuidade usada anteriormente pelo governo Bush. Assumindo uma posição de força, Obama recusa uma relação mais horizontal com os países da região, passa ao largo das novas articulações regionais, como a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) e o seu Conselho de Defesa, criado em março do ano passado.

Os sinais são preocupantes. Há evidências de que o governo Bush, em 2002, colaborou com o fracassado golpe de Estado contra o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, constitucionalmente eleito. Da base militar de Manta, no Equador, apoiou também o ataque das forças militares colombianas, em 2008, a um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), em território equatoriano, violando a soberania deste país. O recente golpe de Estado em Honduras contra o presidente constitucionalmente eleito, Manuel Zelaya, em junho de 2009, contou também com o apoio estadunidense, na base militar de Soto Cano, em Honduras, utilizada nos anos 1980 para abastecer os “contras” durante a guerra indireta dos Estados Unidos com os sandinistas da Nicarágua e para ações de contrainsurgência em El Salvador. Todas essas intervenções têm a marca ideológica de combater/desestabilizar os governos que se opõem à política imperial dos EUA.

Agora, os militares estadunidenses se fazem presentes no Haiti para socorrer a população do terremoto. São cerca de 16 mil soldados, mais que o dobro dos 6,7 mil soldados que compunham os efetivos da força das Nações Unidas lideradas pelo Brasil. Ocuparam o que restou do palácio presidencial, controlam o aeroporto e se propõem a dar segurança aos comboios de mantimentos. A falta de entrosamento com as forças da ONU já gerou reclamações do comando brasileiro da Minustah.

No futuro próximo é a vez do México. A guerra declarada contra o narcotráfico e o terrorismo chega às fronteiras estadunidenses com o México, onde os volumosos recursos do Plano Mérida (US$ 1,4 bilhão em 3 anos), destinados a prover o exército mexicano de equipamentos, treinamento e assistência, não estão sendo capazes de controlar o crescente nível de violência na região. Em março do ano passado, o Almirante Michael Mullen, chefe do Estado Maior Conjunto, declarou ao presidente Obama que o Pentágono está preparado para ampliar sua presença militar nesses conflitos e auxiliar o exército mexicano, empregando as mesmas táticas de contrainsurgência utilizadas no Iraque e no Afeganistão. Atualmente as forças militares estadunidenses já patrulham os ares mexicanos com seus aviões de reconhecimento. Segundo o General Barry McCaffrey, diretor do escritório nacional de controle de drogas na administração Clinton, a luta é para sobreviver ao narcoterrorismo, e reforça: “não podemos aceitar ter um narcoestado como vizinho”1.

O aparato bélico estadunidense, mobilizado nesstes dois últimos anos, para atender aos interesses estratégicos dos EUA na América Latina é impressionante. Depois que o Equador, a Argentina, o Paraguai e Honduras decidiram por não aceitar mais bases militares estadunidenses em seus territórios, os EUA agiram rapidamente. Renegociaram com a Colômbia, seu principal aliado na região, e asseguraram aí sua presença em sete bases militares: duas bases navais, duas bases do exército e três bases da força aérea, localizadas em Palanquero, Apiay e Malambo, dando continuidade a uma situação de fato que em alguns casos é até anterior ao Plano Colômbia, que já conta com dez anos de existência. Negociaram com o governo holandês e passaram a utilizar bases militares em Aruba e Curaçao. Em outubro passado fecharam também um acordo com o governo do Panamá, que cedeu o uso de quatro novas bases militares. Ao todo hoje são 13 bases militares distribuídas pela Colômbia, Aruba, Curaçao e Panamá, além da IV Frota que conta com um poderio de fogo que nenhum país da região pode fazer frente2.

O relato desses acontecimentos parece indicar que a política dos EUA para a América Latina segue a mesma, considerando essa última uma região sob seu controle. E uma nova doutrina, enunciada pela secretária de Estado Hillary Clinton recentemente, anuncia que “democracia não é só eleições, é preciso privilegiar a avaliação da noção ‘governo’ e dar-lhe prioridade em relação ao processo eleitoral”3. Para quem quiser entender, os EUA passam à ofensiva na região e vão buscar desestabilizar os governos antiamericanos, se preciso for via manu militari.

 

*Silvio Caccia Bava é diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil.

1     Bill Van Auken; “Obama and US commander discuss military intervention in México”; 10/03/2009; www.globalresearch.ca.

2     Ignácio Ramonet; “EUA já tem 13 bases militares em torno da Venezuela”; www.cartamaior.com.br; 11/01/2010.
3     José Vicente Rangel, vice-presidente da Venezuela; “A doutrina Hillary: a gestação do argumento golpista”; www.cartamaior.com.br; 21/01/2010.



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