DESTRUIR, DIZ ELA

Marguerite Duras: uma revolucionária da destruição

Romancista, diretora de cinema e dramaturga, autora deixou um vasto legado para a literatura francófona.

Este ano, a editora Relicário publicou uma série de livros da escritora Marguerite Duras. Entre eles, está Destruir, diz ela (1969), obra conhecida por ser “a virada de chave” da literatura para o cinema na produção da autora. O romance é leve, de fácil leitura, e sua mensagem gira em torno da destruição: dos costumes, dos pressupostos e dos preconceitos. 

A trama acompanha quatro personagens que aproveitam sua estadia em um hotel isolado, perto de uma floresta: Max Thor e Alissa são casados e Stein é um judeu enigmático, amante de Alissa e amigo de Max Thor. Por fim, Élisabeth Alione entra nessa dinâmica enigmática – o grupo demonstra interesse por ela, e ela, curiosidade por eles. 

Assim como o leitor, Élisabeth mergulha naquele universo com um certo receio: nada parece fazer muito sentido. Ao longo do livro, nos acostumamos com a narrativa tranquila e amoral: os personagens são instigantes e o texto é fácil de ser lido. É só no final que percebemos estar tão loucos quanto os personagens: o marido de Élisabeth Alione aparece para uma visita no hotel. A introdução de um personagem de fora contrasta com o conteúdo do livro e coloca em xeque o conceito de normalidade. 

Entender o contexto para entender a obra 

O ano de 1968 foi marcado por uma insurgência de movimentos sociais: nos Estados Unidos, os protestos contra a Guerra do Vietnã e a favor dos Direitos Civis; na Tchecoslováquia, a Primavera de Praga e no Brasil, a Passeata dos Cem Mil. Porém, um dos eventos com maior força e apoio intelectual foi o Movimento de Maio de 1968, em Paris. 

Destruir, diz ela é lançado em 1969 – com forte influência dos ideais do Movimento. Na década de 1960, Duras participa das manifestações e forma um grupo de intelectuais que se reúnem em sua casa, no bairro Saint-Germain-des-Prés – conhecido por sua história intelectual, artística e literária.  

Duras foi uma das principais vozes femininas na literatura do século XX. 
Crédito: Divulgação/Relicário

O grupo formado por Marguerite Duras, Edgar Morin, Maurice Blanchot, Dionys Mascolo e outros 117 intelectuais, assina, em 1960, o Manifesto do 121 – contra a Guerra da Argélia e a favor do direito à insubmissão militar. Era um momento em que parte da sociedade francesa começava a questionar as suas próprias estruturas e instituições: o colonialismo, a moral ocidental e o Estado autoritário. 

A destruição como caminho 

Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, o pesquisador e membro da Societé Internationale Marguerite Duras, Maurício Ayer comenta como os ideais da autora permeiam a narrativa do livro. “[Na década de 1960] Ela está no olho do furacão e vê nesses movimentos um caminho para a libertação – e a destruição – de tudo aquilo que era antigo e repressor”, diz Ayer.  

Destruir, diz ela não traz essa destruição apenas no nome, mas também na forma e nas dinâmicas apresentadas. Tudo é uma destruição! Na leitura, as dinâmicas amorosas – nos moldes da sociedade do século XX – devem ser destruídas, para assim desfrutarmos da narrativa. Alissa e Thor, casados, convivem normalmente com Stein – que é amante de Alissa. Ao contrário do que é de se esperar em livros que abordam os “triângulos amorosos”, esse fato não comove nenhum plot twist ou drama.  

A forma – no próprio sentido de formalidade – também deve ser destruída! Na obra, a linguagem não é utilizada para outros fins, além de satisfazer os desejos básicos dos personagens. As descrições são minimalistas e os diálogos não contam com grandes explicações. 

 

– Venha para perto de mim Alissa, diz Stein 

– Sim. O que vamos nos tornar? 

– Não sei. 

– Não sabemos – diz Max Thor 

 

Essa ausência de vaidade estilística no desenrolar da narrativa é associada com a necessidade de criar um ambiente próprio, em que as experiências, valores e moral do leitor não possam ser transpostos para aquela realidade. O ar de nonsense que paira sob aquele hotel isolado lembra muito a atmosfera do País das Maravilhas – cenário do escritor inglês Lewis Carroll. Não é à toa que a obra de Duras faz diversas referências ao clássico de Alice, Chapeleiro Maluco e Coelho Branco. 

Por outro lado, uma diferença fundamental entre os dois é que, em Destruir, diz ela não há sequer um elemento fantástico. “Em Duras, nem tudo é 100% óbvio, mas também não é escondido […] Ela não é uma escritora do místico e do enigma. Tudo está para ser entendido, se o leitor se permitir desfazer de seus pressupostos”, explica Ayer. 

Mauricio Ayer
Crédito: Reprodução/ YouTube/Studio PANaroma

A fantasia presente na obra é o respeito à própria natureza humana: o desejo dos personagens sem julgamento, a convivência pacífica e a sexualidade não hétero. Sem dúvidas, é um cenário diferente do que a realidade dos leitores em 1960, mas ao evitar conotações místicas, Duras deixa uma provocação: se enxergamos as relações a partir de ideais construídos, podemos muito bem destruí-los e construir outros.  

 

Beatriz La Corte é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil. 

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