Maria Rita Kehl está fora de moda - Le Monde Diplomatique

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Maria Rita Kehl está fora de moda

por Fábio Salem Daie
1 de dezembro de 2010
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A demissão de Maria Rita Kehl de O Estado de S. Paulo sugere que o problema não está somente em apoiar a política social do governo Lula contra a orientação política do jornal. Uma questão suplementar – e talvez mais séria – está em um texto que ressuscite perigosamente uma concepção “classista” da sociedadeFábio Salem Daie

Não há coisa que um estudante de “humanidades” deseje mais, ao entrar na faculdade, do que se tornar “foucaultiano”. É um desejo irresistível. É um desejo, um destino, um chamamento.

Foucault, “ame-o ou deixe-o”, como os militares diziam do Brasil. As pessoas enchem a boca para dizer “sou foucaultiano”. Eu mesmo já ouvi diversas vezes. Dias atrás, rondando a internet, cheguei a encontrar um site cujo subtítulo era “Michel Foucault, liberte-me”, e o texto continuava com: “Você leu Michel Foucault, não? Então o que você está esperando? Ele é a chave da evolução dos humanos”. Por outro lado, em uma parede do primeiro andar da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), é possível ler, bem grande, algo como: “Foucault é a morte da filosofia”. Uma sensação, sem dúvida.

Recentemente, também tive a chance de ler um artigo1de um professor brasileiro, do departamento de Português e Espanhol da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, que acompanhou as palestras proferidas pelo recém-nobelizado” Mario Vargas Llosa, no início de outubro. Com o título “Mario Vargas Llosa, o antiFoucault”, o artigo relatava como o peruano – cuja preleção naquele dia se intitulava “Breve discurso sobre a cultura” – guardou saliva para atacar, diante dos estudantes e professores daquela instituição, a “‘sofística’ figura de Michel Foucault”, representante central das manifestações de 1968, que se propuseram a desafiar todo tipo de autoridade e valores importantes do conservadorismo francês.

Bom, é sabido que, se em matéria de Moral só se bate em quem está morto; em Cultura e Política, bate-se mesmo em quem está bem vivo. A influência de Foucault é enorme, de Pierre

Bourdieu até Giorgio Agamben, passando pelo seu contemporâneo e amigo Gilles Deleuze e chegando até os estudos organizacionais em administração chamados CMS (Critical Management Studies). Essa influência, bem como de outros contemporâneos pós-estruturalistas franceses (como Derrida e Deleuze), forneceu parte importante de nossa visão atual da sociedade e da cultura, do Estado e da questão do poder.

Creio não errar ao afirmar que parte desse sucesso – de Foucault e de outros – se deve ao fato de que tais teóricos forneceram, sobretudo, um instrumental analítico, coerente e substancial, que pretendeu negar/superar boa parte da economia política marxista e do materialismo dialético.

Breve esboço teórico da luta

De fato, há uma oposição no que concerne a duas tradições específicas de acepção do Poder.

Uma marxista, em que estão – a despeito de diferenças internas – Marcuse, Miliband, Althusser, Mészáros; e uma pós-estruturalista, na qual se encontram Foucault, Deleuze, Derrida, Butler e outros. Para a primeira, de uma forma geral, as principais tensões da sociedade são derivadas do antagonismo de classe; o Poder, embora não seja só econômico, é exercido preponderantemente pelas mãos de uma elite econômica, dona dos meios de produção; e o Estado é inevitavelmente aparelhado por essa. Para o segundo grupo, em termos analíticos, as disputas entre classes cedem lugar às disputas entre minorias unidas por interesses temporários; o Poder não possui uma fonte específica, mas se movimenta em rede entre seus agentes (ninguém possui o Poder, todos exercem algum poder); o Estado é uma instituição mediadora dos interesses dos vários grupos que compõem a sociedade e, embora possa servir a grupos dominantes, não é controlado hegemonicamente por nenhum deles.

Tal panorama – muito básico, para reiterar – não quer dizer que alguns marxistas não reelaborem conceitos de Ideologia e Poder (como Althusser) e que pós-estruturalistas não reconheçam a existência de classes sociais: mas somente quer apontar a ênfase do esforço filosófico e político no entendimento das sociedades.

Há também, obviamente, aqueles que traçam um caminho de interstícios, utilizando conceitos do marxismo e do pós-estruturalismo (um dos exemplos poderia ser a obra da marxista feminista indiana Gayatri Spivak, entre outros).

Ao substituir Marx, Foucault e outros abandonavam a possibilidade de uma teoria que desse conta do funcionamento geral da sociedade capitalista, partindo assim para uma visão cada vez mais fragmentada, incompleta, descentrada, como são, por exemplo, os estudos de Foucault sobre as instituições disciplinares – o presídio, o hospício, a família.

Neste mesmo contexto, a análise da economia política passa para segundo plano, emergindo em seu lugar ideias como as de “normatividade”, “disciplinamento” e “subjetivação”. São as contribuições teóricas, sobretudo, do feminismo e da teoria pós-colonial que, trabalhando sobre esses novos paradigmas (e outros vindos da desconstrução, de Derrida), colaborarão para a elaboração de políticas públicas efetivas em muitos países. Eagleton explica que algumas correntes do pós-estruturalismo, no entanto, tiveram de retornar – com a virada da década de 1980 a 1990 – a questões de “justiça e liberdade humanas, verdade e autonomia”: “Era difícil ignorar essas questões num mundo em que (…) o capitalismo estendia sua esfera de influência a novos setores do globo, as desigualdades entre ricos e pobres aumentavam drasticamente e as sociedades periféricas eram submetidas a uma exploração cada vez mais intensa”.

Ainda sobre a questão do Poder, Ralph Miliband (1924-1994), professor de Ciência Política na London School of Economics, escreveu O Estado na Sociedade Capitalista, livro de 1969 em que diagnosticava: “Uma teoria do Estado é também uma teoria da sociedade e da distribuição do poder naquela sociedade. Todavia, numerosos ‘estudiosos de política’ do Ocidente começam a julgar, por seus trabalhos, a premissa de que o poder nas sociedades ocidentais é competitivo, fragmentado e difuso: todos, diretamente ou através de grupos organizados, têm algum poder e ninguém tem ou pode ter poder demasiado (…). O primeiro resultado disso é que fica excluída, por definição, a noção de que o Estado poderia ser uma instituição de tipo especial, cujo principal objetivo é defender o predomínio na sociedade de uma determinada classe”.

Miliband se preocupa em demonstrar como tal visão – um poder difuso, uma sociedade de minorias, um Estado pluralista – vigora acentuadamente nos dias atuais e como deturpa a realidade das disputas pelo Poder dentro das sociedades ocidentais de industrialização avançada.

Ultrapassada?

Apesar de suspeito, o intuito deste artigo não é negar as contribuições vindas dos trabalhos de Foucault e de outros pós-estruturalistas, mas, sim, tentar desvendar como o aparato teórico desenvolvido por eles se articula, juntamente a forças diversas, para a definição de quais palavras nos dias atuais podem ser usadas e quais devem ser evitadas a qualquer custo. Ao que parece, Maria Rita Kehl, em seu texto “Dois pesos…”, utilizou as palavras “erradas”; diríamos melhor, palavras já “datadas”, “desusadas”, “antiquadas”, e por esse motivo, teria sido demitida.

É compreensível que, hoje, seja difícil encontrar as palavras que a psicanalista utilizou. Anda tudo, aparentemente, meio torto: 1) O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) se lança à política em 2010 pelo Partido Socialista Brasileiro; 2) Foi-se a época em que os mineiros do Chile, organizados em sindicatos e partidos de esquerda, ajudaram a levar ao poder Salvador Allende em prol de reformas drásticas no sistema de produção nacional; agora tudo é festa, entre iPods de Steve Jobs e abraços do presidente conservador; 3) Professores da USP aceitaram em 2010 um aumento de salário desvinculado dos ganhos do resto dos trabalhadores da mesma universidade. A decisão do corpo docente reflete bem a sua autovisão como “intelectuais”, antes de trabalhadores de qualquer espécie (esse salto político, no entanto, foi dado por grupos de teatro paulistanos ligados ao Movimento 27 de Março, que de “artistas” passaram a denominar-se “trabalhadores da cultura”).

Esse cenário – cujos exemplos poderiam se multiplicar à vontade – parece provar, à primeira vista, o quanto estavam corretos Foucault e outros em substituir o marxismo por qualquer outra linha teórica não baseada na ideia, por exemplo, de “luta de classes”. Também parece mostrar muito bem porque um neoliberal conservador como Mario Vargas Llosa se preocuparia em trazer à tona as perversões de Michel Foucault, deixando em paz as transgressões “moribundas” de Marx e Engels.

Ou mesmo explicaria como, no jornal O Estado de S.Paulo2, o empresário Emílio Odebrecht possa convocar seus pares a “pensar com grandeza”, fazendo-o em termos tais como: “(…) o empresário tem que ganhar, mas ao ganhar deve ter a grandeza de saber dividir (…); continuar legando (…) princípios superiores e nobres, consciente de que é inerente à grandeza humana a vontade de compartilhar riqueza e conhecimentos”. Ora, o que é a “luta de classes” diante da grandeza de compartilhar as riquezas? A velha luta entre capital e trabalho, entre patrão e trabalhador estará desacreditada?

Parece que sim. Multiculturalismo, minorias (todo tipo delas: étnicas, de gênero, raciais, culturais), direitos humanos, políticas de inclusão social, sustentabilidade, economia criativa, responsabilidade social etc. Não é difícil encontrar tal vocabulário e discussões variadas acerca de tais temas nos grandes veículos de comunicação do país. Que o mesmo vocabulário tenha sido erigido nas últimas décadas principalmente pelo avanço do neoliberalismo, tampouco é mera coincidência: a linguagem visa permitir o pensar sobre/na realidade e os termos e conceitos realizados viabilizam a expressão de determinados mundos enquanto obstruem a de outros (tal efeito é tratado brilhantemente por Norbert Elias em A Solidão dos Moribundos, sobre a escassez da língua para o luto numa sociedade de assepsia da morte). Não é de se duvidar, portanto, que muitos outros, antes de Maria Rita Kehl, tenham também, nas páginas do jornal O Estado de S.Paulo, apoiado ou discordado das políticas sociais do governo Lula durante os oito anos de seu mandato… desde que, entretanto, tenha se mantido o bom-senso. Desde que se saiba, muito bem, quais palavras podem ser usadas. Desde que tais palavras (e aqui vou me permitir essa analogia) sigam fetichizadas.

Em um texto sobre o fetichismo, de 1999, Maria Rita Kehl escreve sobre a concepção marxista e freudiana do objeto de fetiche, explicando que esse “funciona para ocultar algo, algo de que o sujeito já sabe, mas não quer saber. E que é justamente o poder de produzir esse ocultamento, de guardar esse segredo (…) o que lhe confere um brilho especial”. Com efeito, ocultar algo já sabido, mas que ninguém quer saber, é exatamente do que se trata a linguagem do multiculturalismo, da responsabilidade social, da sustentabilidade: que o multiculturalismo esconde um processo de intolerância religiosa, xenofobia e protecionismo crescentes; que a responsabilidade social propugna ações de âmbito puramente pessoal (voluntariado, caridade etc.) que transferem responsabilidades do Estado à iniciativa privada e pouco/nada fazem pela transformação real das estruturas sociais (pouco se diz que a responsabilidade social, como parceira íntima do neoliberalismo, entrega para este um de seus produtos mais procurados nos dias atuais: a sempre deteriorável paz de consciência); que a sustentabilidade elide o fato de ser insustentável uma sociedade centrada na exploração máxima, no lucro máximo, no consumo máximo, na ostentação máxima (sobre isso, vale ler o artigo de Michael Löwy, publicado neste mesmo veículo em dezembro de 2009, intitulado Os piores cenários possíveis).

Ora, me parece possível afirmar que o texto de Kehl trabalha no sentido de trazer para o primeiro plano o que, de fato, está em jogo quando se discorre sobre esses temas. Em “Dois pesos…”, a psicanalista explora subversivamente a imagem distorcida da miséria social oculta nas histórias “de terror” tucanas – passadas pelas correntes de e-mail – sobre o programa Bolsa Família, trazendo à claridade (e ao Estadão, que apoiou o candidato Serra) não apenas o conservadorismo de oligarquia arraigada (“não se fazem mais pés de chinelo como antigamente”, diz Kehl); não só a alienação desta oligarquia frente a essa miséria (“Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre para sair dessa faixa [de pobreza extrema] por uma diferença de R$ 200?”, afirma a autora), mas sobretudo a própria distorção dessa miséria como parte da estratégia política da direita nacional (estratégia em que se pode incluir, também, a questão do aborto).

Kehl fala de “patronato cordial”, evocando uma classe social detentora de privilégios econômicos e políticos; cita um ex-trabalhador metalúrgico sindicalizado, Paul Singer, fundador do Partido dos Trabalhadores, teórico socialista e hoje professor alinhado com a Economia Solidária; parafraseia Marx ao apontar a posição estratégica e política do Bolsa Família como um instrumento de “acumulação primitiva de democracia” (o trocadilho é com a “acumulação primitiva de capital”), dando espaço para o entendimento de que, assim como em Marx a “acumulação primitiva de capital” permitiu à oligarquia – através de um processo de expropriação e exploração da população – levar a cabo sua Revolução Industrial (que fortaleceu e confirmou o status desta mesma oligarquia), assim também a “acumulação primitiva de democracia” representa possivelmente o primeiro passo em direção a uma nova revolução, de nivelamento social e econômico, de redistribuição de privilégios para que se tornem direitos.

Maria Rita Kehl também historiciza e, assim, coloca em xeque uma afirmação de Hélio Jaguaribe (sobre a consciência política do povo brasileiro), remetendo-se a processos de exploração de longa data deste povo. Por fim, sugere algo “datado”, “antiquado”, “fora de moda”: “Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim”. E, numa afirmação que deve soar inevitavelmente como uma ameaça às elites, ainda conclui: “O voto da turma da ‘esmolinha’ é político e revela consciência de classe recém-adquirida”.

Luta de classes? Consciência de classe? O que aconteceu com o “Poder difuso”?, com os conflitos entre “minorias temporárias?”, com um “Estado mediador e neutro”? O problema contido no texto “Dois pesos…”, portanto, não está somente em apoiar a política social do governo Lula contra a orientação política do jornal O Estado de S. Paulo. Uma questão suplementar – e talvez mais séria – está em um texto que ressuscite perigosamente uma concepção “classista” da sociedade. Uma concepção que desafia a falsa candura e a verdadeira tranquilidade com que um empresário escreve a “grandeza de compartilhar as riquezas” e que privilegia – contra todas as expectativas foucaultianas e pós-estruturalistas – uma visão materialista histórica de todo processo social, em que a ideia das liberdades (social, cultural, econômica, política) foge à máxima popular contratualista (“minha liberdade vai até onde começa a liberdade do outro”) e assume a postura de que tais liberdades são, na verdade, resultado de tensão, luta, confronto entre os que a possuem em demasia e os que a possuem em carestia – surgem do antagonismo de classe.

É com esse vocabulário – pouco “atualizado” e pouco neoliberal – que o jornal O Estado de S. Paulo certamente não está habituado a lidar. Fica claro, quando de sua utilização em “Dois pesos…”, que o genuíno tabu não está tanto nos temas colocados, mas nos termos em que são colocados e na linguagem escolhida para a abordagem – a ideologia é mais genuína na forma, já diria o filósofo húngaro Georg Lukács. Nada é mais perigoso, numa pós-modernidade que destruiu tudo e que assumiu sua amorfia “líquida”, do que a reconstrução de uma estrutura social, ou a assertiva de que essa estrutura jamais desapareceu.

A demissão de Maria Rita Kehl evoca Marcuse, outro “moribundo antiquado” que no início de A Ideologia da Sociedade Industrial escreveu: “Uma falta de liberdade confortável, suave, razoável e democrática prevalece na civilização industrial desenvolvida”.

“Dois pesos” é valor que acompanha todas as questões centrais de nossa época: como é possível que, num mundo onde se produz alimentos suficientes para todos os seres humanos, haja quem tenha de passar fome? Como é possível que, após a crise de 2009, o número de milionários no mundo tenha subido 17% (no Brasil, foram 12%), segundo a Merrill Lynch-Capgemini? Se desejamos escolher outro mundo, há que começar por escolher também outra linguagem e, com ela, as perguntas corretas.

Fábio Salem Daie é jornalista e pesquisador no programa de pós-graduação da Universidade de São Paulo e um dos autores de “Thomas Piketty e o Segredo dos Ricos”, ed Venetta.



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