Maternidade, academia e pandemia - Le Monde Diplomatique Brasil

Feminismos transnacionais

Maternidade, academia e pandemia

por Pricila Loretti e Taísa Sanches
22 de maio de 2020
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Este ensaio-manifesto em tom auto-etnobiográfico, no qual tentamos analisar  nossas subjetividades, relacionando-as ao fenômeno social, é uma tentativa de expor os efeitos da maternidade na vida acadêmica das mulheres e coloca em questão o futuro das nossas carreiras. Leia o artigo do especial Feminismos transnacionais.

Os relatos a seguir são de duas autoras mães e acadêmicas. Não nos conhecíamos até sermos convidadas a pensar a respeito da nossa realidade neste momento particular de crise epidêmica mundial para escrevermos este artigo para o Le Monde Diplomatique Brasil. Partimos da reflexão de como essa crise tem afetado as nossas rotinas, passando por momentos marcantes em nossas trajetórias de vida pessoal e profissional, durante os quais a maternidade se revela como um fator crítico em relação ao nosso desempenho acadêmico.

Este ensaio-manifesto em tom auto-etnobiográfico, no qual tentamos analisar nossas subjetividades, relacionando-as ao fenômeno social, é uma tentativa de expor os efeitos da maternidade na vida acadêmica das mulheres e coloca em questão o futuro das nossas carreiras. Nós, mães acadêmicas, neste momento, produzimos uma redação menos científica e referenciada e mais autoral. Isso porque temos dedicado nosso tempo a sentir e exercer a maternidade real.

Charles Deluvio/Unsplash
Basta um momento de crise para mudar tudo

Em 13 de março de 2020 recebemos a notícia que as escolas do Rio de Janeiro não funcionariam a partir do dia 16, segunda-feira. No Programa de Pós-Graduação onde curso o doutorado, a notícia foi a mesma. O isolamento, a princípio, duraria 15 dias, mas já se imaginava que seria estendido por período indeterminado, e assim aconteceu. Já se foram 60 dias de isolamento por conta da disseminação da covid-19.

Logo que soube da notícia do fechamento das escolas, enviei mensagem via WhatsApp para alguns colegas de doutorado. Um deles logo me respondeu: “maravilha, é agora ou nunca que termino a tese”. Pensei: “maravilha, só se for pra você”. Minha dedicação à tese diminuiria consideravelmente, uma vez que minha rotina de escrita depende da ida dos meus filhos à escola. Hoje eles têm 6 e 3 anos. O mais velho está em fase de alfabetização e tem aulas online durante o isolamento.

As crianças receberam felizes a notícia de que não iriam mais à escola e que nós ficaríamos na casa da avó paterna por período indeterminado. Decidimos sair do apartamento em que vivemos para ter mais espaço para as crianças. Daqui de onde escrevo, escuto as brincadeiras no quintal. Contar com o apoio da minha sogra tem sido fundamental nesse período. Logo que chegamos, dividimos os cuidados com as crianças entre os três adultos. Nos horários sem crianças, me dedico não só à pesquisa, mas procuro me exercitar e dar conta de alguns cuidados da casa.

O tempo de dedicação à tese, apesar de existir, é bem menor do que eu planejava nesse período final de escrita. Há dificuldade para me concentrar em meio a tantas notícias, há muito medo em relação ao futuro e questionamentos sobre as decisões que tomei no passado. Não por acaso, a academia se mostra pouco receptiva à gravidez e às crianças. Quando anunciei que estava grávida de minha segunda filha, no segundo ano do doutorado, um professor me aconselhou a desistir, enquanto outro me perguntou quando “fecharia a maquininha” referindo-se ao meu sistema reprodutivo. Continuei graças ao apoio de minha orientadora.

As horas que se gastam a mais com o trabalho relativo aos filhos significam uma perda considerável de pesquisa. Não consigo atingir o mesmo grau de produtividade que meus colegas e temo pelo meu futuro profissional. Como as contratações em universidades são feitas com base em produtividade, é de se supor que isso dificulte ainda mais meu caminho a uma carreira estabelecida. Os privilégios que tenho, no entanto, não devem ser deixados de lado: meu marido é professor universitário – o que nos insere na classe média do país – e vivemos num bairro próximo à universidade em que curso o doutorado. Esses fatores me ajudam a ter mais tempo de dedicação à pesquisa, mas não devem ser entendidos como equalizadores. Ser mãe na academia tem como efeito a diminuição das chances de uma mulher conseguir uma vaga, quando concorre com outras pessoas sem filho ou homens com filhos.

Simone de Beauvoir já dizia: “Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados” (Beauvoir, Simone. O Segundo sexo. 2. ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009, p.29). A pandemia e o isolamento estão aí para mostrar isso. Enquanto alguns conseguem usar o tempo em casa para aumentar a produtividade acadêmica, muitas se veem às voltas com os cuidados domésticos, relativos às crianças e também aos idosos da família. Os resultados das pesquisas que estão sendo realizadas nesse período de confinamento certamente irão expor as desigualdades de gênero a que somos submetidas, entre elas aquela relativa à maternidade e produtividade acadêmica. Uma matéria publicada na Revista Dados em 14 de maio de 2020, por exemplo, já aponta uma queda drástica de submissões de artigos científicos por mulheres.

Maternidade, os trabalhos acadêmicos e o cotidiano na pandemia

Abril de 2020, João tem dois anos e meio, é uma criança carinhosa e alegre. É brasileiro e também argentino. Como não pode ir à creche devido ao isolamento, passa o dia em casa com a família. Ele já não usa mais fraldas faz 6 meses, mas, às vezes, se atrapalha com o tempo de ir ao banheiro e molha as calças. Acorda e pede para mamar ou apela para o leite da vaca com chocolate.

É absolutamente incansável e vai de um querer a outro em menos de dois segundos. Tem uma vaga noção sobre porque sua escola está fechada, porque não pode ir visitar a sua vovó e bisavó, ou ainda ir à praia, ao shopping e ao parquinho, tampouco desconfia do motivo de seu pai passar agora todos os dias em casa com a gente e não sair para trabalhar.

Como moro em uma vila de casas, João consegue ter contato diário com outras crianças. Essas amizades o mantém entretido a maior parte do dia, desde o momento em que abrimos a porta de casa pela manhã, quando sai correndo pelo quintal em busca das brincadeiras compartilhadas. Em quase todos os momentos sigo na interação com ele e seus amigos, em uma espécie de observação participante da infância que se desenrola diante do meu olhar atento. Às vezes me distraio do papel de mãe e o misturo com o de antropóloga. Quando me lembro da maternidade ao perceber os desejos ilimitados de João Inácio, lembro que, por vezes, é preciso intervir, interromper, censurar algum comportamento não apropriado, construir algumas regras, quebrar outras e educar.

Devido ao isolamento social, a família agora toma o café da manhã, almoça e janta junto. No geral, a convivência é tranquila e alegre. Porém, hora ou outra, o cansaço e a repetição das tarefas domésticas e maternais me aborrece. Aí, é hora de fazer uma pausa. Pausa para o afeto. Para o abraço, o colo e os beijos estalados nas bochechas rosadas dele.

Com a quarentena meu marido foi demitido e passamos a oferecer o serviço de entregas de quentinhas no almoço e sanduíches artesanais noturnos, transformando em clientes os vizinhos para poder pagar as nossas contas e seguir comendo bem. Além disso, por minha condição de mãe desempregada no meio da pandemia, me tornei beneficiária do auxílio emergencial do governo federal e de uma cesta básica da creche municipal, os quais sigo, como milhares de brasileiros, esperando a liberação. Meu marido se levanta às 8h, vai às compras e começa a preparar o almoço. Eu me levanto um pouco mais tarde dependendo da hora em que fui dormir, e desperto João para tomarmos todos juntos o café da manhã. Depois do almoço, saio para entregar as quentinhas. Enquanto brinco com João no quintal, meu marido limpa à casa, ou vice-versa.

Por causa do risco de contágio por covi-19, temos redobrado os cuidados com a limpeza dos itens e sacolas de supermercado, e também a frequência com que lavamos nossas roupas, principalmente quando é inevitável ir à rua. Depois de vários dias, abri uma exceção e saímos à rua de bicicleta, usando máscaras de tecido confeccionadas por uma vizinha, para comprar um pirulito na padaria.

Em vários momentos do dia, tento ler e me concentrar, mas é praticamente impossível. Têm dias que não consigo terminar um raciocínio, pois sou frequentemente interrompida. Encontro paz apenas na madrugada, quando todos estão dormindo, e eu consigo resistir ao cansaço do dia a dia e aproveito para estudar para os concursos públicos, acadêmicos ou não. Enfrento muitas interrupções na produção do trabalho acadêmico, mas elas são necessárias para que se desenrole a cumplicidade da relação entre o casal e também entre pais e filhos. Ao priorizar o trabalho, a situação se inverte. A pausa é na relação familiar. A dedicação ao trabalho acadêmico demanda muito tempo, concentração e esforço intelectual, tarefa das mais complexas. Do ano passado para cá tive uma perda considerável de 8 horas de estudo diário. Em uma realidade como a minha, ela acontece nos intervalos da vida familiar, quando todos dormem.

Seria necessário pensar ainda nos efeitos das nossas ausências, ao privilegiarmos a produtividade acadêmica, em nossas crianças. Ao entrarmos em quarentena, isoladas, os cuidados com a prole redobraram, tornando-se prioridade. O tempo dedicado a eles aumentou significativamente. O convívio restrito, em geral, à relação entre pais e filhos.

Os efeitos da pandemia às mães

A maternidade na vida acadêmica é uma experiência capaz de unir realidades tão diferentes como as nossas. Enquanto uma de nós terminou seu doutorado e procura se estabelecer profissionalmente, pois a chegada da maternidade significou um obstáculo no desempenho. A outra, com dois filhos, teve sua carreira principalmente impactada com a chegada da segunda, uma vez que isso se deu em meio ao doutorado, período que exige maior produtividade acadêmica. De modo que, momentos de crise são especialmente críticos a nós, como mencionado. A quarentena nos obriga a estar em casa com as crianças em tempo integral, e, portanto nos impede de manter nossas rotinas, enquanto que para os pesquisadores sem filhos os efeitos da pandemia são inversamente proporcionais.

No Brasil, o número de famílias brasileiras chefiadas por mulheres cresceu 105% entre 2001 e 2015. No entanto, dados mostram que o rendimento mensal das mulheres é equivalente a 76% do ganho masculino (ou seja, eles ganham 24% a mais), e que elas gastam quase o dobro de horas semanais com afazeres domésticos – 10,5 horas é a média masculina, enquanto 18,1 é a feminina (IBGE). Colocados em conjunto, esses dados apontam à desigualdade de gênero no país.

Na ausência de serviços públicos e privados, de atenção social, devido à pandemia, a exemplo das creches, a carga de trabalho repousa quase exclusivamente sobre as mulheres, uma vez que somos encaradas como responsáveis pelos cuidados em relação ao lar e à família. As horas dedicadas ao trabalho doméstico aumentam e o trabalho intelectual ou remunerado fica em segundo plano.

A partir de resultados de pesquisa feita no estado do Rio de Janeiro e divulgada em 2016, a professora Moema Guedes mostrou que a divisão sexual do trabalho tradicional, sendo mulher cuidadora e homem provedor, ainda é percebida como melhor modelo, ou seja, homens e mulheres acreditam que tal organização é a que melhor funciona, e o trabalho doméstico ainda recai mais sobre as mulheres, especialmente aquelas pobres e negras.

A escolarização das mulheres, no entanto, se mostrou como importante fator de transformação dessa realidade. Entre as mulheres mais escolarizadas, a percepção acerca da divisão do trabalho doméstico se mostra menos desigual, o que aponta a “diversificação não apenas de práticas, mas também de valores e percepções que norteiam as relações de gênero”.

O otimismo em relação à escolarização como vetor de transformação entra em crise em momentos como o atual. Especificamente na academia, dados já mostram que o número de submissões de artigo a revistas científicas entre as mulheres despencou durante a pandemia, enquanto o dos homens aumentou em quase 50%. Esse fato coloca em xeque as transformações em relação às práticas de divisão sexual do trabalho.

Em 2018, um documentário acerca da realidade das mulheres pesquisadoras com filhos, denominado “Fator F” (F de filhos), mostrou os resultados de uma pesquisa realizada no âmbito do projeto “Parent in Science”, que contou com a participação de 1.182 cientistas. A partir dos dados apresentados no documentário, discute-se as assimetrias de gênero encontradas na academia: as mulheres são maioria nos programas de mestrado e doutorado, mas levam mais tempo para atingir o topo da carreira, conquistando o nível de maior produtividade acadêmica depois dos homens, quando atingem – apenas 1/3 das bolsas de produtividade são destinadas às mulheres.

Uma das razões apontadas para tal fato é justamente a maternidade. As mulheres que têm filhos se tornam menos competitivas ao deixarem de se dedicar exclusivamente à pesquisa, dividindo seu tempo com filhos. A pesquisa aponta ainda que em 54% dos casos, quem cuida dos filhos é exclusivamente a mãe; e em 34% os cuidados são igualmente divididos entre pais e mães. Contando que as mulheres dividem os cuidados mesmo nesses 34%, pode-se imaginar a carga maior que se impõe sobre elas. Isso faz com que exista uma queda significativa na produtividade das mães, não identificada na carreira daqueles que não têm filhos.

Algumas iniciativas têm sido feitas como tentativa de minimizar os efeitos da maternidade à vida acadêmica, a partir do estabelecimento de um patamar em comum. Uma delas sugere que mulheres mães informem que têm filhos em sua página do Currículo Lattes. A iniciativa é controversa: para pesquisadoras estabelecidas, pode representar uma forma de justificar o declínio na produtividade; para mães que ainda não se estabeleceram, a iniciativa poderia significar mais um impedimento a alcançar cargos nas universidades. Não existe espaço para inserir tal informação no currículo. Quando ocorre é feito no texto de perfil, o que por sua vez oferece um alto grau de subjetividade aos possíveis caminhos oferecidos a partir de tal informação. O fato de existirem mães na academia já é de conhecimento geral, como definir os próximos passos?

Tão longe, tão perto

Sentimos a necessidade de expor momentos críticos e marcantes de nossas vidas, pois os entendemos como parte de um problema público. Nesse sentido, nosso intuito é mais político que acadêmico. Esperamos que outras mulheres, acadêmicas ou não, possam se identificar e criar tempo e coragem para se unir às demandas expostas. Assim como, homens que também sintam empatia por nossa causa e se unam a nós para que a igualdade de gêneros se torne real.

Quando tratamos das desigualdades relativas à maternidade é muito comum haver uma certa disputa por qual opressão pesa mais – como por exemplo, se a maternidade pesa mais para as mulheres casadas ou às solteiras. A saída para o fim das desigualdades, no entanto, começa com o estabelecimento de um patamar capaz de minimizar tais diferenças. Um deles é o reconhecimento da maternidade como fator crítico em si mesmo, e de impacto à carreira acadêmica, principalmente nos primeiros anos da infância. A pandemia acaba por ressaltá-lo ainda mais.

A diversidade de opressões que mulheres e mães acadêmicas sentem em seu cotidiano é imensa. Depende de nós o exercício de não deixarmos que uma opressão se sobreponha a outras. Como dizia Audre Lorde (em Sister Outsider: Essays and Speeches): “Não sou livre enquanto qualquer mulher estiver presa, mesmo quando suas algemas são muito diferentes das minhas”.

Pricila Loretti, mãe e doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Taísa Sanches, mãe e doutoranda em Ciências Sociais pela PUC-RJ.

1 Fonte: Guedes, Moema. Percepções sobre o papel do Estado, trabalho produtivo e trabalho reprodutivo: uma análise do Rio de Janeiro. Aceso: https://www.scielo.br/pdf/cpa/n47/1809-4449-cpa-18094449201600470020.pdf

Leia os artigos do especial Feminismo Transnacionais, acesse aqui.



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