“Me Too da Psicanálise”
O “Me Too da Psicanálise” no Brasil tem um potencial político genuíno, o de desestabilizar hierarquias de poder profundamente sedimentadas no campo psicanalítico e, por extensão, no campo cultural progressista
Quando propusemos um programa de divulgação científica pensado, entre outros objetivos, para o fortalecimento da psicanálise no Brasil – um programa que apostava na potência do debate público, usando palavras-chave que atraísse pessoas interessadas no fortalecimento e na circulação do conhecimento para além dos muros institucionais, além da visibilidade de vozes historicamente marginalizadas dentro desse campo –, a recepção que encontramos não foi a de quem reconhece uma problematização e uma proposta. Foi a de quem já decidiu o veredito antes de ouvir o argumento.
Algumas feministas, que deveriam ser interlocutoras naturais desse gesto, operaram a partir de uma desconfiança que, paradoxalmente, não se voltou para dentro – não produziu autoanálise, não interrogou seus próprios pontos cegos – mas se projetou para fora, repetindo, em registro progressista, a mesma lógica que os economistas brancos utilizaram para justificar a escravização nos séculos passados. Aqueles economistas perguntavam, com sinceridade aterrorizante: o que será da economia sem os escravos? Hoje, o mundo repete a pergunta com outra roupagem, igualmente aterrorizante em sua frieza instrumental: como o planeta irá envelhecer sem os corpos das mulheres? Em ambos os casos, o corpo não é sujeito, ele entra como um recurso, alguma função. É uma variável de ajuste de um sistema que nunca perguntou o que aquele corpo desejava – apenas o que ele poderia produzir, é a partir dessa constatação que este artigo se move.
O movimento que atravessa o atlântico com outra gramática
Sou das Letras, então minha conversa com as gramáticas marca meus textos, seja em eco com feministas, pessoas com deficiência, com as travestis ou com marginalizados – tudo que me enlaça. O movimento que, no Brasil, passou a ser identificado informalmente como “Me Too da Psicanálise” – termo que usei e que retomo de uma conversa com a psicanalista Lívia Vigil, figura que em toda a sua trajetória clínica e pública sustenta a aposta de que uma psicanálise possível para todos não é utopia, mas horizonte de trabalho – não é simplesmente uma transposição do movimento estadunidense para o contexto nacional. Ele é, antes de tudo, uma reconfiguração hegemônica – no sentido preciso que Chantal Mouffe confere ao termo – de um campo discursivo em disputa, que ao cruzar o Atlântico Sul ganha inflexões específicas e contraditórias.
O movimento #MeToo, surgido nos Estados Unidos em 2017, a partir da denúncia coletiva contra Harvey Weinstein, construiu uma cadeia de equivalências em torno da experiência compartilhada do assédio e da violência sexual perpetrados por figuras de poder masculino. No Brasil, essa cadeia de equivalências chegou atravessada por uma variável que o contexto estadunidense não precisou enfrentar com a mesma urgência: a interseccionalidade racial como fissura interna ao feminismo, capaz de fragmentar o próprio campo que o movimento pretendia unificar.
O caso Silvio Almeida versus Anielle Franco – e, mais precisamente, as reações públicas às denúncias contra o então ministro dos Direitos Humanos do governo Lula – oferece um analisador privilegiado dessas tensões. Não porque seja um caso singular, mas porque é um caso exemplar: ele condensa, em sua dramaticidade pública, as disputas hegemônicas que estruturam o campo progressista brasileiro.
Um sintagma, não um destino
Antes de avançar, uma precisão que organiza tudo o que segue. “Me Too da Psicanálise” nomeia um sintagma – uma formação discursiva em aberto, um significante que o campo disputa – e não um destino fechado, um veredito já dado sobre o que o movimento é ou sobre onde ele necessariamente desemboca. É essa a diferença entre pensar politicamente e pensar moralmente: o destino não se discute, ele se cumpre; o sintagma se articula, se desloca, permanece em obra.
Maria Cristina Poli, professora de Teoria Psicanalítica na UFRJ, tem insistido que a crítica cultural dentro da psicanálise corre sempre o risco de deslizar para uma posição moral, uma fetichização dos ideais que substitui o trabalho de leitura do laço social por uma defesa apressada de normas. É exatamente esse deslize – não o movimento em si, mas sua captura por uma gramática moral – que este texto quer nomear e recusar. O “Me Too da Psicanálise”, como sintagma, é o espaço onde essa disputa acontece; ele não determina de antemão se vencerá nele o agonismo ou o antagonismo.
Tania Rivera, da Universidade Federal Fluminense, que há décadas investiga as articulações entre psicanálise, gênero e feminismo e vem propondo lógicas não fálicas de leitura do sujeito, oferece o mesmo horizonte por outra via, uma psicanálise que se abre à diferença sexual e de gênero sem fixá-la em identidade última é, estruturalmente, uma psicanálise incapaz de tratar denúncia como sentença antecipada. O sintagma “Me Too da Psicanálise”, lido a partir desse gesto, é convite ao trabalho – não sinônimo de caça às bruxas, nem confirmação automática de culpa. É a abertura de um litígio legítimo, que só se torna destino quando alguém, de fora ou de dentro, insiste em fechá-lo antes da hora.

- Natureza discursiva do social e campo psicanalítico como arena política
Toda ordem social é uma configuração hegemônica porque é, ela mesma, o resultado provisório e contingente de práticas discursivas e de poder, e não a expressão de uma essência natural ou de leis históricas deterministas. O que parece neutro ou natural é, na verdade, a sedimentação de uma vitória política anterior, sempre passível de contestação, feita de acordos e pactos quase sempre invisíveis.
O campo psicanalítico brasileiro não escapa a essa lógica. Pelo contrário, ele é um terreno especialmente fértil para compreendê-la. A psicanálise, em seu avatar institucional – sociedades, institutos, jornais, congressos –, construiu ao longo de décadas uma ordem simbólica própria, hierarquizada e fortemente masculinizada, na qual a autoridade do analista-homem-branco-cis-hetero funciona como ponto nodal que organiza os demais elementos do campo. A denúncia de assédio dentro desse campo não é apenas uma acusação individual, é um gesto que desestabiliza a sedimentação hegemônica que sustenta aquela ordem.
O “Me Too da Psicanálise”, portanto, opera como um movimento de contra-hegemonia – não necessariamente consciente ou programático, mas estruturalmente orientado a deslocar o ponto nodal que ancora a legitimidade institucional da psicanálise brasileira. É por isso que as resistências a esse movimento não são apenas defensivas; elas são constitutivas da própria ordem que está sendo questionada.
- Agonismo, antagonismo e a captura do sintagma
Mouffe propõe uma distinção fundamental entre antagonismo e agonismo. No antagonismo, as partes se relacionam como inimigos a serem destruídos, sem qualquer reconhecimento mútuo de legitimidade. No agonismo, as partes se reconhecem como adversárias legítimas – disputam projetos de hegemonia distintos, mas compartilham os princípios ético-políticos que tornam a disputa possível.
O risco que o “Me Too da Psicanálise” enfrenta, em sua versão brasileira, é o de ter seu sintagma capturado e empurrado para o antagonismo – não porque o movimento o produza espontaneamente, mas porque campos ameaçados por perda de posição tendem a responder à contestação legítima convertendo-a em guerra. E essa captura tem consequências devastadoras, especialmente para as mulheres.
O caso que nomeio aqui como autocolisão feminista (York, 2026) emerge precisamente quando essa captura ocorre, quando a gramática do debate desliza do agonismo para o antagonismo. No caso Silvio Almeida, assistimos a uma ruptura dolorosa: de um lado, mulheres que viram em Anielle Franco – e nas demais denunciantes – uma força potente do feminismo diante da masculinidade tóxica, um gesto de coragem que o campo progressista deveria acolher sem ambiguidade. De outro, mulheres que leram o mesmo gesto como um ataque ao homem negro – um homem que havia percorrido uma trajetória de distinção, credibilidade e legitimidade nos processos políticos brasileiros, especialmente nas políticas públicas –, e que, portanto, servia aos interesses da direita ao desestabilizar uma figura central do governo Lula 3.0.
Nenhuma dessas leituras é falsa, e ambas são parcialmente verdadeiras. E é exatamente por isso que o antagonismo é tão devastador: ele obriga a uma escolha binária – com as mulheres ou com o homem negro – como se essas posições fossem mutuamente exclusivas, como se a interseccionalidade fosse um vocabulário acadêmico sem consequências políticas reais.
- A moralização da política e o colapso do agonismo
Aqui reside o nó mais difícil do problema, um nó górdio, e é onde a crítica de Mouffe ao pós-político – desenvolvida com mais vagar em O Paradoxo Democrático e em Sobre o Político – se torna mais aguda.
Quando a política perde seu caráter agônico, ela se desloca para o terreno da moral. O debate entre esquerda e direita se transforma em debate entre o bem e o mal, entre o correto e o ignorante, entre os puros e os contaminados. E quando isso acontece, o adversário se converte em inimigo – não alguém cuja posição deve ser combatida, mas alguém cuja existência no campo político representa uma ameaça a ser erradicada.
Vista pela psicanálise, essa conversão do adversário em inimigo tem um nome preciso: captura imaginária. É a rivalidade especular descrita por Lacan, o eu e o outro colados um ao outro sem a mediação de um terceiro simbólico capaz de sustentar o dissenso sem exigir a aniquilação de uma das partes. Quando o debate se moraliza, o terceiro – a lei, a palavra, o espaço simbólico onde a diferença pode circular sem se resolver em extermínio – desaparece, e resta apenas o duelo especular entre quem acusa e quem é acusado, cada um reconhecendo no outro só uma imagem invertida de si.
Não é o “Me Too da Psicanálise” que produz esse mecanismo. É a manobra de quem, ameaçado pela contestação, sabe transformar toda denúncia em caça às bruxas para desviar de si mesmo o foco da pergunta. Essa manobra reproduz exatamente o mecanismo que Mouffe identifica como produtor de extremismos, e que a psicanálise reconheceria como regressão ao registro imaginário – mas a autoria da regressão é de quem captura o sintagma, não de quem o articula com legitimidade.
No caso Silvio Almeida, essa moralização produziu um efeito paradoxal: transformou mulheres negras e feministas em antagonistas umas das outras, não porque suas posições fossem irreconciliáveis, mas porque o quadro moral disponível – denunciar ou proteger, acreditar na vítima ou defender o acusado – não oferecia nenhum espaço para a articulação de uma posição que sustentasse simultaneamente a legitimidade das denúncias e a gravidade política do que estava em jogo na derrubada de uma figura como Silvio Almeida.
- Paralaxe trans e a política do ponto de vista
Introduzo aqui um conceito próprio, desenvolvido em minha obra Programa de travesti: educação & mídia (York, 2026): a paralaxe trans. A paralaxe trans designa o fenômeno pelo qual o mesmo corpo, o mesmo gesto, a mesma ação são percebidos de maneira radicalmente distinta por grupos sociais que ocupam posições diferentes no tecido das relações de poder.
A paralaxe trans não é um conceito exclusivo da experiência travesti, embora tenha surgido a partir dela. Ela é uma categoria epistemológica que descreve a impossibilidade de um ponto de vista único, neutro e universal sobre qualquer objeto político. Aplicada ao caso em análise, a denúncia contra Silvio Almeida não é o mesmo objeto para uma mulher branca de classe média, para uma mulher negra periférica, para uma travesti nordestina, para um militante do MST. São objetos distintos, produzidos pela posição diferencial de quem os observa.
O erro político – e é também um erro epistêmico – consiste em tomar a própria perspectiva como universal e ler as perspectivas divergentes como traição, cumplicidade com o opressor, ou falsa consciência. Esse erro reproduz, no interior do campo progressista, a mesma lógica hegemônica que o campo progressista afirma combater.
- Trans-epistemicídio e o backlash
O conceito de trans-epistemicídio – também desenvolvido em minha obra (York, 2026) a partir de Sueli Carneiro, Jaqueline Gomes de Jesus e Boaventura de Souza Santos – designa a destruição sistemática da produção epistemológica de corpos dissidentes, aquela que emerge das margens e dos lugares de subalternidade. O trans-epistemicídio não é apenas o apagamento físico dos sujeitos, é o apagamento de sua capacidade de produzir conhecimento legítimo sobre sua própria experiência. O “Me Too da Psicanálise”, quando capturado pela lógica que este texto vem descrevendo, pode ser instrumentalizado como vetor de trans-epistemicídio – quando silencia as vozes de mulheres negras, travestis e transexuais que não se reconhecem no sujeito universal do feminismo branco, aquele sujeito que diz nós sem precisar especificar de qual “nós” estamos falando. Quando mulheres negras que questionam o caso Silvio Almeida são acusadas de trair o feminismo, o que está em curso é um processo de trans-epistemicídio: a destruição da legitimidade epistêmica de um saber situado, em nome de um saber que se pretende universal, mas é, de fato, particular.
Algumas considerações – por uma política agônica das denúncias
Quando propusemos um programa de divulgação científica pensado, entre outros objetivos, para o fortalecimento da psicanálise no Brasil, o veredito já havia sido feito antes de ouvir o argumento. E foi esse mesmo mecanismo que vivi por dentro, não mais como analista de um caso alheio, mas como parte interessada, a geometria particular no modo como certos homens se protegem mutuamente dentro das instituições psi. A ameaça de um processo que busca a pena é ainda a forma de alguns desses sujeitos se colocarem na cena com algum poder. O mesmo sujeito que se apresenta como especialista em pessoas trans – e que, a partir dessa credencial emprestada, nos perseguiu – é o mesmo que, quando a hora chegou, pediu a exclusão do nosso coletivo do campo que ele afirma defender. Como entender essa performatividade cognitiva desagregada? O agressor e o censor habitam o mesmo corpo institucional, e isso não é coincidência, é a parte pulsante da estrutura. É o sujeito da economia diante do escravizado nos séculos passados que insiste em ser presente. A mulher diz, fui violentada na minha posição, o sujeito recorre a polícia! Que psicanálise é essa que não reflete sobre si?
O “Me Too da Psicanálise” no Brasil tem um potencial político genuíno, o de desestabilizar hierarquias de poder profundamente sedimentadas no campo psicanalítico e, por extensão, no campo cultural progressista. Não é um homem, mas sempre homens. Esse potencial só se perde se alguém – de fora, defendendo posição ameaçada, ou de dentro, cedendo à urgência moral – insistir em transformar o sintagma em destino, em fechar antecipadamente aquilo que só pode ser trabalhado em aberto, no registro do agonismo.
A democracia precisa de canais legítimos para a expressão do dissenso; sem essa possibilidade, o conflito retorna em formas violentas, moralistas e autodestrutivas, e pelas mãos de quem afirma defendê-lo. Isso significa reconhecer que as disputas sobre quem denuncia, quem é denunciado, quem acredita e quem questiona não são disputas entre o bem e o mal, mas entre projetos políticos legítimos que precisam se confrontar – não se destruir. Não se trata, portanto, de defender agressores ou de questionar a legitimidade das denúncias, não é política do cancelamento, como alguns usam para descredibilizar sem escutar, sem ler, sem fazer o mínimo esforço daquilo que Jean Oury e seus escritos sobre coletivo como operador das singularidades. Trata-se de defender uma gramática política capaz de sustentar a complexidade do real sem sacrificá-la no altar da pureza moral – e de recusar que a exclusão de um coletivo inteiro sirva de moeda de troca para o recalque mal dirigido de quem, ao apontar para fora, jamais ousou apontar para si mesmo.
Há, por fim, uma dimensão que qualquer análise honesta deste campo precisa nomear, que é o fato do “Me Too da Psicanálise” emergir em um contexto de corpos exaustos. Não é acidente que o movimento ganhe força precisamente no momento em que o capitalismo contemporâneo – aquele que destruiu as bases materiais e emocionais da vida coletiva, precarizou o trabalho e ainda discute o fim da escala 6×1, corroeu o tecido social e transformou a intimidade em performance – produziu também uma crise profunda de legitimidade nas instituições de cuidado.
A psicanálise é uma dessas instituições, e quando uma instituição de cuidado reproduz internamente as mesmas hierarquias de poder, as mesmas assimetrias de gênero, do corpo útil e da raça, os mesmos mecanismos de silenciamento que o sistema maior produz e naturaliza, a denúncia não é apenas ética, é estrutural. O problema não é que as mulheres estejam denunciando demais, o problema é que o sistema que produziu os agressores é o mesmo que produziu as condições de silenciamento, e é o mesmo que agora oferece um repertório moral insuficiente para lidar com a complexidade do que emerge quando esse silêncio se rompe. Talvez o maior obstáculo ao “Me Too da Psicanálise” no Brasil não seja a resistência dos acusados, seja, mais do que nunca, o próprio capitalismo, aquele que esgotou as energias, fragmentou as solidariedades e deixou mulheres sozinhas diante de escolhas que jamais deveriam ser individuais. O sintagma segue aberto e que continue sendo trabalho, e não sentença.
Sara York é uma pesquisadora, professora, jornalista e colunista brasileira. É mestre e doutoranda em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com ênfase em Estudos de Gênero, Sexualidade e Educação. É da Escola Psicanalítica da Escuta Periphérica (EPEP).
Referências
MOUFFE, C. Agonistics: thinking the world politically. London: Verso, 2013.
MOUFFE, C. The Democratic Paradox. London: Verso, 2000.
MOUFFE, C. On the Political. London: Routledge, 2005.
POLI, M. C. Clínica da exclusão: a construção do fantasma e o sujeito adolescente. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.
RIVERA, T. Psicanálise antropofágica (identidade, gênero, arte).
RIVERA, T. O Avesso do Imaginário: Arte Contemporânea e Psicanálise. São Paulo: CosacNaify, 2013.
YORK, S. W. Programa de travesti: educação & mídia. Veranópolis: Diálogo Freiriano, 2026. ISBN 978-6-55203-501-1. 314p.

