Medo no fronte da pandemia em números - Le Monde Diplomatique

Rondônia

Medo no fronte da pandemia em números

por Pedro Santos Teixeira
2 de junho de 2020
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Cerca de 22% dos casos confirmados de Rondônia estão entre profissionais da saúde; 93% deles não são médicos

Se há uma certeza sobre a crise de coronavírus é que se trata de um fenômeno inédito. Outros familiares virais do Sars-CoV (Sars = Síndrome Respiratória Aguda Grave e Cov = Coronavírus e) são estudados faz tempo, mas ainda sim não temos muitas certezas em relação ao Sars-Cov-2. Estamos diante do temor do desconhecido.

E quem trabalha na linha de frente do combate ao novo coronavírus está mais exposto à se contaminar e lidar com situações limites que um vírus ainda sem tratamento eficaz comprovado pode causar. Segundo o Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN), 6% dos trabalhadores da área serão infectados.

Em Rondônia, segundo os microdados do DataSUS sobre a Covid-19, mais de um em cada cinco casos confirmados da doença são profissionais da saúde. E, apesar de ser o estado com mais homens do país (50,7%), a maior taxa de contaminação está entre as mulheres (57%). Excluindo os médicos, 77% dos servidores da saúde contaminados se declaram do sexo feminino.

O ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, acompanhado do governador do Amazonas, Wilson Lima, participam da inauguração da Ala Indígena no Hospital Nilton Lins
(Ascom/Ministério da Saúde)
Um cenário que assusta

O Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) vem levantando números sobre os efeitos da crise na atuação dos profissionais de saúde. Seu artigo mais recente, A Pandemia de Covid-19 e os profissionais da Saúde Pública no Brasil, avalia as condições de trabalho dos pesquisados e é assinado por Gabriela Lotta, Débora Dossiatti de Lima, Giordano Magri, Marcela Corrêa e Amanda Beck.

Entre os 1456 entrevistados*, a maior parte afirma ter medo de contrair a Covid-19. No escopo dos agentes comunitários de saúde (ACS) e agentes de combate à endemia (ADE), essa fração chega a mais de nove em cada dez trabalhadores.

Na forma de um questionário online, as perguntas foram disseminadas com apoio de redes profissionais, como sindicatos e associações. Além dos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogos, cirurgião-dentistas, ACSs e ADEs, que formam a rede de proteção à saúde ampliada, foi contatada toda a rede que dá suporte a esse serviço: motoristas de ambulância, recepcionistas, etc.
O estudo parte da tese que trabalhar sob influência do pavor traz uma série de prejuízos, também relacionados à carga emocional, sobretudo em uma situação emergencial prolongada como na pandemia. “É importante entender que esse medo não é infundado. Ele é baseado em um conjunto de situações muito concretas que esses profissionais têm vivenciado no fronte que é um pouco do que nossa pesquisa se propôs a captar”, explica Gabriela Lotta, pesquisadora da FVG.

De todos os respondentes, menos de 15% dizem se sentir preparados para enfrentar a pandemia. Essa preparação varia entre regiões e nas diversas carreiras que sustentam a saúde pública. Em geral, os profissionais que receberam equipamentos de proteção individual (EPI) e treinamento se dizem mais capazes. Essas condições são mais comuns ao serviço especializado e hospitalar, a exemplo dos médicos e equipes de enfermagem.

O acesso ao equipamento de proteção individual deveria fazer parte da normalidade e não da emergência, conforme expõe Gabriela. Estar paramentado de máscaras, luvas e uniformes são condições mínimas de trabalho. Entretanto, o poder executivo atrasou muito na aquisição de EPIs. O país chegou a ter pelo menos quatro semanas de vantagem para se preparar frente à pandemia, olhando para o que foram os quadros asiático e europeu de disseminação da Covid-19. “O Brasil não incentivou a indústria nacional antecipadamente a produzir equipamento. Quando a gente foi de fato comprar EPI, já faltavam no mundo inteiro e também foi o caso brasileiro”, pondera a pesquisadora.

A desproteção dos trabalhadores da saúde não têm consequências somente sobre eles. Por recomendação dos sindicatos e associações profissionais, quem não está equipado não deve trabalhar. Uma vez que esses profissionais estão sob alto risco de contágio, a decisão é acertada. Eles não só podem se infectar, mas também, como efeito, se transformarem em potenciais vetores de transmissão  — sobretudo se forem assintomáticos.

Lotta alerta que não receber EPIs não significa não tê-los. Muitos desses funcionários acabam comprando ou fabricando suas próprias máscaras e luvas, o que também acarreta problemas. O primeiro deles é a falta de um padrão de qualidade. O segundo é a disparidade de poder aquisitivo.

De acordo com o site especializado salario.com.br, o piso salarial médio de um médico no setor público é de R$ 6735,44. O de um agente comunitário de saúde, R$ 1.330,74, segundo a mesma fonte. “Sem máscara, sem álcool em gel, sem um pouco mais de sabão nem um uniforme, os agentes comunitários estão se negando a ir às casas das pessoas. Corretamente, por sinal. Então, tem que dar equipamento de proteção individual. Um segundo ou terceiro uniforme. Tem que dar sabão para eles lavarem a roupa, porque o dinheiro que eles ganham como agentes comunitários não dá para ficar lavando a roupa todo dia que chega em casa”, opina o professor da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, Gonzalo Vecina Vecina. Ele afirma que o sistema de atenção primária do Brasil está em colapso por falta dessas medidas. “Os agentes comunitários são uma fortaleza no nosso sistema. Só que estamos com esse problema neste momento”, conta.

Parceiro de Lotta no Núcleo de Estudos da Burocracia, Giordano Magri ressalta que os ACS e ADE são muitas vezes as únicas fontes de informação em territórios vulneráveis. Ironicamente, as regiões que receberam menos EPIs (norte e nordeste) são mais frágeis socioeconomicamente. “Esses agentes não apenas levam informação para lugares onde não necessariamente chegaria, como também ajudam a acompanhar e prevenir outras enfermidades. É um trabalho estratégico. Neste momento, fazem falta não só no enfrentamento à pandemia do coronavírus, mas também na continuidade de acompanhamentos em relação a outras doenças e comorbidades”, avalia o gestor público.

Exemplo rondoniense

A região norte é aquela que recebeu menos EPIs. Somente 13,8% de seus trabalhadores da saúde alegam ter participado de algum treinamento para lidar com a pandemia. Assim, os nortistas têm a menor proporção de profissionais que se dizem preparados no país.
Parte da região, Rondônia se complica mais com a crise que seu vizinho do centro-oeste Mato Grosso. Na hora desta redação, são 3268 casos confirmados e 121 mortes registrados.

A Secretaria Estadual de Saúde (Sesau) entrega microdados bem similares àqueles do open DataSUS. Por isso, a UF foi escolhida para análise. Os registros são de 26 de maio.

Apesar de ser o estado com a maior proporção de habitantes homens do Brasil (50,7% de masculino, enquanto a maior parte da população brasileira se declara do gênero feminino), Rondônia tem a maior taxa relativa de mulheres infectadas por Covid-19 do país (57%), segundo a Secretaria de Saúde de Rondônia.

Dentre os casos confirmados no estado, aproximadamente 22% se dão entre profissionais da saúde, dos quais 93% não são médicos.
Uma servidora denunciou ao G1 a contaminação de pacientes dentro de hospital de referência em tratamento do novo coronavírus, por causa da falta de EPIs. Justificando-se, a Sesau diz que fornece o equipamento, mas que parte dos funcionários se recusam a utilizá-los. “Isso acontece na construção civil, vira e mexe a gente vai ver um pedreiro ali, um servente sem capacete, sem a corda amarrada, e isso acontece em todas as áreas. Infelizmente tem gente que apesar das recomendações, das orientações e da disponibilização dos equipamentos, [não usa os equipamentos]”, exemplificou o secretário estadual de Saúde, Fernando Máximo, ao site.


*Dos 1.456 respondentes, 79% são mulheres, 19,6% homens e menos de 1% preferiu não declarar. Quanto ao tempo de atuação, 64,84% dos profissionais exercem seu trabalho na respectiva área há mais de 10 anos e 65% têm vínculos prévios com o território ou nasceram na região onde trabalham. Quanto a amostra selecionada por conveniência, e portanto não generalizável, 60,44% são ACS e ACE, 14,01% profissionais de enfermagem, 8,31% médicos e 17,24% correspondem às demais profissões relacionadas às equipes ampliadas ou à gestão do serviço. O survey circulou entre os dias 15 de abril e 1º de maio de 2020.



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