EFEITOS DAS ELEIÇÕES NA CLASSE MÉDIA PROGRESSISTA

Meio intelectual, meio janonista

Ao fim, a classe média intelectualizada do campo progressista agradeceu ser feita de militante de base

A enorme repercussão, nacional e internacional, dos feitos de André Janones no pleito deste ano é mais do que merecida. Ao organizar o canal do Exército de Lula no Whatsapp, Janones ofereceu ao campo progressista uma estratégia eleitoral eficaz em redes sociais para o combate da extrema direita, isto é, instruiu milhões de pessoas a agir num terreno de batalha hostil definido pelo modelo de negócios das big techs. Devidamente articulado às ruas, esse movimento de massa, coeso e militante, tornou possível o que, semanas antes, parecia improvável.

Crédito: Ricardo Stuckert/Lula Oficial/Flickr

Há outra lição, porém, pouco comentada, captada em matéria sobre Janones no New York Times: “ele não é apenas crítico da direita, mas também do que os brasileiros chamam de ‘esquerda caviar’, a quem acusa de ‘elitismo e arrogância intelectual’ e de afastar a classe trabalhadora”.

 

O problema é mais complicado do que parece à primeira vista e exige uma discussão menos presa ao registro comum, e frágil, das disputas em torno das “guerras culturais”.

 

Primeiro: de fato, uma das estratégias principais das novas direitas, especialmente em suas origens nos Estados Unidos, foi denunciar o que viam como a hipocrisia moral de indivíduos associados ao campo progressista, ou seja, quem reivindicava princípios igualitaristas em abstrato, mas, na prática (principalmente nas disputas culturais), se comportava de modo anti-igualitário. Não foram poucos os que, mesmo críticos dessas novas direitas, enveredaram pela mesma via. Não faltou espaço no debate público aos que sentiam o prazer, e os dividendos, em apontar o dedo para o descompasso entre ideias e práticas.

 

Esse argumento das novas direitas, aí inclusa a extrema direita, nunca foi capaz de, sozinho, dar conta do embate moral de fundo. Dizer que um progressista não age de acordo com o que declara não diminui em nada, a rigor, a força normativa de princípios igualitaristas. Pior ainda quando a crítica vem de uma direita radical religiosa, dado que ela mesma promete justiça e igualdade, mas só depois da morte.

 

A retórica da reação não se reduziu à tese da hipocrisia, mas ela cumpriu, seja como for, seu papel com êxito inegável, especialmente na medida em que estendeu transversalmente a retórica reacionária do topo e à base da sociedade. Ou seja, uniu moralmente (e culturalmente) tanto uma minoria que se beneficia da manutenção da desigualdade, quanto uma massa que teria uma vida melhor se ela fosse atenuada.

 

Por que a tese reacionária da hipocrisia contra o campo progressista funcionou? A resposta exige uma explicação sociológica: a adesão a pautas igualitaristas por classes médias intelectualizadas não tem como dissolver, por mais fiel que o agente tente ser em relação a suas ideias, a força da distinção que todo agente precisa “jogar” para manter-se em sua posição privilegiada de classe. Há um lastro material, enfim, na tese da hipocrisia moral dos progressistas de classe média, ou seja, o fato de sua posição objetiva na estrutura social tender necessariamente a contrastar com suas inclinações políticas. No limite, é o mundo social, e não a incoerência pessoal, que produz os sintomas de esquerda caviar – embora, é claro, algumas pessoas sequer pensam em fazer algo para diminuir o problema.

 

E Janones, o que ele tem a ver com isso? É claro que seu exército de milhões é heterogêneo e engloba diversas classes, mas, no que se refere à classe média progressista, dado o pânico ante o desastre, Janones ofereceu uma solução potente, ainda que contextual, às contradições entre as disposições objetivas e inclinações subjetivas desse grupo.

 

Primeiro, mostrou que eram ignorantes no que se refere à ação política nas redes e, como um professor, ensinou aos leigos o que fazer. Segundo, por meio de retórica militar, exigiu de todos abdicar daquilo que lhes é mais caro, a sensação de serem indivíduos únicos e especiais que, com suas ideias próprias e autonomia, não se deixam levar por ações de massa. Não foram poucos os que seguiram suas ordens, mas, para os pares (no privado), lamentavam o caráter raso do “janonismo cultural”. Terceiro, impôs a pauta do dia que todos deveriam seguir. Deu conta, enfim, de impor a unidade no interior da diversidade do campo progressista. Quarto, a escolha das pautas era orientada pelos problemas que afetam diretamente a maioria da classe trabalhadora brasileira.

 

Ao fim, a classe média intelectualizada do campo progressista agradeceu ser feita de militante de base. Consagrou Janones, que chegou a ganhar um jantar especial com artistas famosos na casa de Caetano Veloso, um sonho inalcançável para 99% dos seus pares.

 

Resta saber que lição os progressistas da classe média intelectualizada irão levar para o restante da guerra que se estende no novo mandato de Lula, isto é, se irão manter sua militância, nas ruas e nas redes, em favor de reformas estruturais de combate à desigualdade (o que significa vencer o “terceiro turno” contra a “Faria Lima”) e se descobrirão como retomar da extrema direita, em favor do igualitarismo, a hegemonia moral na sociedade. O que significa, nos limites do que é possível socialmente, uma profunda autorreflexão sobre suas práticas de distinção cultural em relação à esmagadora maioria do povo.

 

 

 

Sávio Cavalcante é professor de Sociologia (IFCH/Unicamp).

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