Mentiras contra a energia verde - Le Monde Diplomatique

RETÓRICA REACIONÁRIA

Mentiras contra a energia verde

por Phillipe Bovet
6 de janeiro de 2014
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Placas solares não reembolsariam a energia gasta na sua fabricação, as baterias para estocar seus watts seriam nocivas e a generalização de lâmpadas de baixo consumo anunciaria um desastre ecológico? Assim vejamos…Phillipe Bovet

Em seu estudo sobre “dois séculos de retórica reacionária”, o economista norte-americano Albert Hirschman ressalta que, ao longo dos debates sobre a Declaração dos Direitos do Homem, a proibição do trabalho infantil, a jornada de oito horas ou ainda a previdência social, as forças conservadoras se uniram em torno de três tipos de argumento: a inutilidade (a mudança proposta não vai resolver o problema), o risco (ela aniquilará os benefícios ligados aos sistemas precedentes) e o efeito perverso (“a ação pretendida terá consequências desastrosas” e até mesmo inversas ao resultado desejado).1 Ao reverter a intenção progressista em seu contrário, esta última figura se revela particularmente destrutiva e desmobilizadora: se agir leva a regredir, melhor não fazer nada.

Essa tese do efeito perverso está tendo um retorno inesperado no que diz respeito à economia de energia e às energias renováveis. Assim, as placas de energia solar fotovoltaicas não reembolsariam a energia necessária para sua fabricação e não seriam recicláveis; as baterias que deveriam estocar seus watts “verdes” seriam muito nocivas; a generalização das lâmpadas fluorescentes compactas (LFCs), de baixo consumo, anunciaria um desastre ecológico. Em suma, a ecologia polui. “Quando se faz referência a esses efeitos perversos”, ressalta Hirschman, “é frequentemente por razões que não têm muito a ver com a realidade dos fatos.” Mas em geral um rumor impregna-se a uma verdade até que ela se torne mentira.

Em seu blog, o astrofísico e político francês Jacques Boulesteix publicou um artigo intitulado: “Lâmpadas fluorescentes compactas: entre o roubo, o perigo e a aberração tecnológica”.2 Essas lâmpadas de baixo consumo contêm, de fato, de 1 a 2 miligramas de mercúrio sob a forma gasosa, assim como os bons e velhos tubos de neon. Ninguém contesta o alto nível tóxico desse metal. Mas, “em matéria de economia de energia, uma LFC consome de quatro a cinco vezes menos eletricidade do que uma lâmpada incandescente”, explica Édouard Toulouse, consultor independente especializado no ecoconceito dos produtos. “Essa economia se traduz por uma diminuição das emissões nefastas do setor de eletricidade, sejam dejetos nucleares, gases de efeito estufa ou outros tipos de poluição atmosférica, como a das chaminés das centrais térmicas, principalmente as alimentadas por carvão. Este último contém uma pequena quantidade de matérias tóxicas e principalmente mercúrio”.

Nos Estados Unidos, um cálculo mostrou que o balanço de mercúrio de uma LFC era positivo: a economia de eletricidade gerada provocava uma redução das emissões atmosféricas do metal mais importante do que a quantidade desse elemento que está contida na lâmpada.3

A eletricidade de origem fotovoltaica recebe muitas críticas: diz-se que uma placa solar consome em sua fabricação mais energia do que jamais produzirá. Em abril de 2011, no programa Complément d’enquête, do canal France 2, Nathalie Kosciusko-Morizet, então ministra da Ecologia, do Desenvolvimento Sustentável, dos Transportes e da Habitação, acumulou inverdades e retomou esse argumento errôneo. No entanto, um estudo de 2006 da Agência Internacional da Energia mostrou claramente que “o tempo de retorno energético dos sistemas fotovoltaicos é muito bom, já que varia entre 1,36 e 4,7 anos segundo o país em que a instalação fotovoltaica está situada e o tipo de integração utilizada (no telhado/terraço ou na fachada)”.4 Sabendo que as placas solares têm garantia de ao menos vinte ou 25 anos de seus fabricantes e uma duração bem superior, o estudo conclui que “o tempo de retorno energético médio para a França é de três anos: o sistema vai, então, reembolsar dez vezes sua dívida energética”.5

Outro mito sobre as placas solares – argumento retomado por Nathalie: não seriam recicláveis. Dessa vez, o argumento é descabido. Um produto se torna reciclável quando se investe em um segmento de reciclagem. Levando em conta as durações de utilização mencionadas, a questão trata principalmente das placas quebradas. Na França, a primeira instalação fotovoltaica foi ligada à rede em junho de 1992. Daqui até 2015, data em que devem começar as primeiras substituições maciças de placas, o programa europeu de coleta batizado de PV Cycle,6 criado em 2007, terá concluído a construção de uma central de reciclagem eficiente e automatizada.

Poderíamos, por outro lado, discutir sobre a placa chamada “camada fina”, fabricada com telureto de cádmio (CdTe), um subproduto tóxico da indústria do zinco, do qual existem estoques consideráveis com os quais ninguém sabe o que fazer. A empresa norte-americana First Solar o utiliza para fabricar módulos, vendo nisso um procedimento interessante para estocar esse dejeto, que se encontra então escondido na placa. Em 2011, as placas de telureto de cádmio representariam 5,3% da produção mundial.7 Descartar um dejeto perigoso por meio de sua utilização e venda em vez de estocá-lo ou neutralizá-lo: isso é aceitável? A crítica, que teria encontrado aqui um bom assunto, ignora esse problema.

Fontes intermitentes

Uma evidência vem se acrescentar a um caso claramente montado por encomenda: o sistema fotovoltaico só produz durante o dia e a produção eólica só é possível quando o vento sopra. Em outros termos, as exigências de nossa modernidade seriam incompatíveis com essas energias intermitentes. As renováveis são com certeza variáveis, mas nunca imprevisíveis.8 A previsão de sua produção faz, inclusive, parte do cotidiano dos mercados a curto prazo da energia, como o Powernext, com sede em Paris, e o EEX, de Leipzig. Conhecem-se diversos dias antes, depois de modo cada vez mais detalhado, os megawatts engendrados pelas fontes limpas.9 Esse planejamento otimiza a utilização das renováveis ao combiná-las com energias flexíveis como a hidráulica, o gás ou o biogás.

No dia 3 de outubro de 2013, os sistemas fotovoltaico e eólico forneceram juntos, antes do meio dia, 59,1% da produção elétrica alemã, e 36,4% nas 24 horas.10 Números semelhantes foram obtidos em junho. Os rumores não falam muito a respeito desses desempenhos cada vez mais frequentes. “Mais condenada do que as outras renováveis, a energia fotovoltaica suscita uma resistência do sistema, pois essa tecnologia é a que mais questiona os esquemas monopolísticos clássicos: ela é descentralizada e apropriável por todos”, analisa Marc Jedliczka, diretor da associação Hespul, especializada em energias renováveis. “Na origem desses rumores, encontramos frequentemente pessoas ligadas aos eletricistas históricos, eles mesmos ligados às energias fósseis e nucleares.” Contra essa energia vinda ao mesmo tempo do sol e da alta tecnologia, que produz eletricidade sem movimentar uma única peça, as forças conservadoras só poderiam retomar seu velho reflexo: o efeito perverso! Para que nada mude, não mudemos nada…

Phillipe Bovet é jornalista e coordenador do Atlas do meio ambiente de Le Monde Diplomatique.



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