ORDEM FUNDADA NA DESIGUALDADE E NA VIOLÊNCIA

Mestiçagem, redes sociais e a fabricação do “inimigo identitário”

Mas quem, afinal, é esse “identitário” que tanto assombra parte dos debates acadêmicos e políticos contemporâneos?  

Uma das mais importantes historiadoras brasileiras, Mary del Priore, acaba de organizar, com Gian Melo, o livro História das mestiçagens no Brasil (Editora Unesp, 2026). Durante a divulgação da obra nas redes sociais, a historiadora recebeu mensagens insultuosas e ameaças que a levaram a solicitar à editora o reforço da segurança durante o lançamento na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. O evento transcorreu sem incidentes, mas a gravidade das ameaças não deve ser minimizada. Nenhuma divergência intelectual, por mais contundente que seja, autoriza a intimidação, a violência verbal ou qualquer tentativa de constranger a livre circulação de ideias. 

A repercussão do episódio, entretanto, não se limitou à necessária condenação das ameaças. Em pouco tempo, elas passaram a alimentar uma outra narrativa, qual seja, a de que pesquisadores, estudantes e movimentos “identitários” teriam decidido interditar o tema da mestiçagem como objeto de investigação. Um acontecimento particular, ocorrido nas redes sociais, foi então apresentado como sintoma de um fenômeno muito mais amplo: a suposta existência de grupos organizados que, instalados nas universidades e vinculados aos movimentos negros, controlariam o que pode ou não ser pesquisado, escrito e/ou debatido. Desse modo, as ameaças dirigidas à historiadora foram rapidamente convertidas em evidência factual de uma patrulha ideológica cuja extensão, composição e formas de atuação permanecem pouco definidas. 

Mas quem, afinal, é esse “identitário” que tanto assombra parte dos debates acadêmicos e políticos contemporâneos? Quem enviou as mensagens a Mary del Priore? Seus autores falavam em nome de alguma organização? Que vínculos mantinham com universidades ou movimentos sociais? O que permite transformar perfis individuais nas redes sociais em “grupos de poder dentro das universidades”? Na ausência de respostas, o termo “identitário” funciona menos como uma categoria capaz de descrever sujeitos concretos do que como um personagem acusatório no qual se confundem pesquisadores universitários, estudantes, militantes de movimentos negros, defensores das ações afirmativas e usuários agressivos das redes sociais.  

Criticar a mestiçagem não é negar a realidade brasileira 

Um dos vetores que mais confundem o debate público sobre a mestiçagem é a alegação de que criticar os discursos ideológicos construídos em torno desse fenômeno histórico e social – que, vale lembrar, não é uma particularidade brasileira – equivaleria a negar a existência de pessoas, famílias e grupos sociais mestiços ou pardos. Essa confusão aparece condensada em uma fórmula muito difundida nas redes sociais, que é a afirmação de que “a mestiçagem brasileira é fruto do estupro”. Quando tomada ao pé da letra e deslocada de qualquer contexto histórico, a frase parece sugerir que todas as pessoas pardas ou mestiças seriam necessariamente descendentes de relações sexuais violentas. Não é difícil compreender por que, formulado nesses termos, o debate se torna tão inflamado.  

O equívoco, pois, está em confundir diferentes escalas de análise. No plano das experiências individuais e das relações cotidianas, a sociedade colonial certamente comportou trajetórias muito diversas: uniões reconhecidas ou informais, vínculos afetivos, arranjos familiares, negociações, estratégias de sobrevivência e projetos de ascensão social envolvendo indígenas, africanos, europeus e seus descendentes. Reconhecer essa diversidade, porém, não nos autoriza a tratar o espaço colonial como um terreno de relações igualitárias. Antes da constituição do Brasil como Estado nacional, a América portuguesa estava organizada por meio da conquista territorial e de hierarquias jurídicas, raciais e sociais profundamente desiguais. Nesse mundo, a possibilidade de consentir, recusar, escolher parceiros ou constituir uma família não estava distribuída igualmente entre homens e mulheres, pessoas livres e escravizadas, colonizadores, indígenas e africanos. 

Crédito: MNBA/Banco Santos catalogue

Dizer que a violência foi constitutiva da colonização, portanto, não significa afirmar que toda relação inter-racial foi um estupro, nem que cada pessoa mestiça descenda diretamente de uma relação sexual coercitiva. Significa reconhecer que mesmo os afetos, os casamentos e os arranjos familiares se desenvolveram dentro de uma ordem fundada na desigualdade e na violência. O risco da interpretação oposta está em transformar a existência comprovada de relações consensuais em uma clara demonstração de uma suposta harmonia racial. Nesse caso, experiências particulares deixam de servir à compreensão da complexidade histórica e passam a sustentar uma velha narrativa nacional: a de que a proximidade, o parentesco e a mistura entre diferentes grupos teriam suavizado ou superado as relações de dominação. Entre dizer que “toda mestiçagem foi estupro” e afirmar que “a mestiçagem prova nossa democracia racial” existe um vasto campo de investigação. A violência não explica sozinha todas as relações constituídas no espaço colonial, mas nenhuma interpretação dessas relações pode tratá-la como um elemento secundário ou acidental. 

Universidade, movimento negro e redes sociais não são um único sujeito 

Quando uma pessoa afirma, nas redes sociais, que outra pessoa é ou não é negra, ela não está necessariamente representando uma organização, nem sequer pertence, obrigatoriamente, a algum movimento negro. Essa mesma pessoa pode estar matriculada em uma universidade, ter passado por ela ou jamais ter frequentado uma instituição de ensino superior. A fórmula que permitiu fabricar o “inimigo identitário” depende justamente do apagamento dessas distinções. Na lógica das plataformas digitais, marcada pela busca de alcance, engajamento e viralização, pouco importa determinar de onde alguém fala ou quem efetivamente representa. O usuário das redes sociais, o militante do movimento negro e o pesquisador universitário passam a ser apresentados como manifestações de um mesmo sujeito. Ainda assim, é por meio dessa sobreposição que se fabrica o “identitário”: uma personagem suficientemente genérica para estar em todos os lugares e suficientemente abstrata para nunca precisar ser identificada com precisão. 

No debate contemporâneo sobre a mestiçagem, o discurso difundido por Beatriz Bueno contribuiu para lhe conferir uma fisionomia mais definida. Em suas intervenções públicas, a negação da identidade mestiça é frequentemente associada aos movimentos progressistas, a pesquisadores universitários, às bancas de heteroidentificação e, sobretudo, aos movimentos negros. Seus críticos, por sua vez, são muitas vezes reunidos sob o rótulo dos “identitários”: pessoas supostamente presas a uma cartilha racial, incapazes de aceitar opiniões divergentes e empenhadas em enquadrar todos os pardos como negros. Com isso, divergências teóricas e políticas sobre classificação racial e identidade parda deixam de aparecer como conflitos legítimos dentro do campo antirracista e passam a ser explicadas como manifestações de profunda intolerância. 

Há, nessa narrativa, uma assimetria que merece ser examinada. Embora o discurso da parditude também reconheça a existência do racismo praticado por pessoas brancas e critique movimentos mestiços de direita que negam as desigualdades raciais, a branquitude aparece com frequência como uma presença histórica, familiar e até afetiva. O movimento negro, em contrapartida, aparece como um agente político atual que imporia classificações, negaria a identidade das pessoas pardas e excluiria corpos considerados ambíguos. Em outras palavras, enquanto a ascendência branca é incorporada à intimidade da família mestiça, o movimento negro ocupa mais facilmente o lugar do adversário que precisa ser confrontado. 

Essa distribuição desigual das responsabilidades ajuda a compreender por que universidade, movimento negro e redes sociais são tão facilmente fundidos na figura do “identitário”. Foi esse personagem previamente fabricado que tornou plausível atribuir as ameaças sofridas por Mary del Priore aos “identitários”, ainda que não tenham sido publicamente demonstrados os vínculos dos responsáveis com universidades, organizações políticas ou movimentos negros. A categoria já estava disponível, faltando apenas encaixar nela os autores desconhecidos das mensagens. 

Nada disso significa que pesquisadores, militantes ou organizações do movimento negro estejam imunes à crítica, nem que inexistam comportamentos autoritários e agressivos em espaços acadêmicos ou ativistas. Significa apenas que tais críticas precisam ser dirigidas a sujeitos, práticas e instituições identificáveis. Defender a liberdade de pesquisar a mestiçagem exige condenar ameaças e tentativas de intimidação, mas também recusar que episódios dessa natureza sejam empregados para responsabilizar coletivamente aqueles que questionam seus usos políticos. A mestiçagem não precisa ser interditada nem protegida da crítica. Talvez o primeiro passo para isso seja abandonar o inimigo imaginário e voltar a discutir argumentos reais. 

 

Maycon Dougllas é Doutorando e Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Bolsista FAPESP. Membro do grupo de pesquisa Dimensões do Regime Vargas e seus desdobramentos (UERJ/CNPq).  

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