Mestre Liu Pai Lin
“Eu estava me preparando para ir para a China, mas a China veio a mim”
O milenar Império Chinês foi subjugado e desestruturado pela Inglaterra em meados do século XIX, durante as guerras do ópio. Nestes tempos em que a China desperta como uma potência internacional, cabe destacar a contribuição da longeva civilização chinesa e seu legado para a cultura universal. Para tanto, vou me ater à Medicina Chinesa e, particularmente, ao Mestre Liu Pai Lin.
A Medicina Chinesa
A milenar Medicina Chinesa, que tem suas raízes na filosofia e religião taoístas, atravessou diferentes dinastias, foi desenvolvida de forma diversificada e enriqueceu-se sob tensões e conflitos até o final da Dinastia Imperial Qing em 1912. O aprendizado era repassado artesanalmente a devotos discípulos que absorviam o conhecimento convivendo com os mestres. Após a instauração da República da China em 1912, o país atravessou um processo de modernização de acordo com o padrão ocidental e sua medicina passou a ser desacreditada, considerada antiquada e não-científica. Em 1927, Chiang Kai Shek proibiu a prática da Medicina Chinesa.
Com a República Popular da China de 1949, a Medicina Chinesa passou oficialmente por distintas fases. Mao Tse Tung conseguia ser ainda mais preconceituoso que Chiang Kai Shek, achava que era tudo bruxaria. Mas, em 1953, levando em conta que não dispunha da Medicina Ocidental, pragmático como todos os chineses, Mao passou a considerar a Medicina Chinesa um tesouro nacional. O governo recolheu o conhecimento dos bruxos, criou manuais, cursos populares e produziu terapeutas a toque de caixa. Mutirões de “médicos de pés descalços” foram designados a trabalhar em áreas remotas do país. Em 1958, a Medicina Chinesa começou a ser reestruturada, sistematizada, padronizada e unificada de acordo com o padrão científico ocidental.
Neste processo de sistematização, foi sendo desenvolvida a chamada Medicina Tradicional Chinesa, em contraposição à milenar Medicina Clássica Chinesa, altamente diversificada e espiritualizada. Em sua forma Clássica, a Medicina Chinesa era praticamente incompreensível para a mente ocidental e, portanto, muito dificilmente poderia ser introduzida no Ocidente. A Medicina Tradicional Chinesa, por outro lado, embora sistematizada para uso nacional, tornou factível o seu estudo, assimilação e difusão no Ocidente. Isso porque, além de ocupar-se essencialmente com as enfermidades, possui ênfase no Nível Terrestre, sem espiritualidade, em detrimento do Nível Celeste e do Nível Humano, o que contribuiu para a sua disseminação, na medida em que pode ser mais facilmente acolhida por médicos, terapeutas e pacientes ocidentais que não gostam de misturar Deus com ciência.
Em 1972, com a abertura da China ao Ocidente, a Medicina Tradicional Chinesa passou a ocupar espaços cada vez mais significativos no cenário internacional. Quem observa quão expressiva ela é hoje, dificilmente se dá conta de que este processo de disseminação tenha durado menos de quatro décadas.
No Ocidente, a Medicina Chinesa é confundida com acupuntura. Mas, na China, mais importante que a acupuntura é a fitoterapia, o uso de ervas e raízes medicinais disseminado entre a população (os principais fitoterápicos são vendidos nos supermercados). Além da fitoterapia e da acupuntura, a Medicina Chinesa faz uso do Tui Na (massagem nos pontos dos meridianos, origem milenar do Shiatsu, Do-In e reflexologia), moxabustão (queima de artemísia em bastão), ventosas etc.
Mestre Liu Pai Lin
Mestre Liu Pai Lin nasceu na China, em 8 de dezembro de 1907. Apesar de profundo conhecedor do Taoísmo e praticante de Tai Chi Chuan, Pai Lin era General do Exército do incrédulo Chiang Kai Shek e teve que se refugiar em Taiwan, quando Mao Tse Tung assumiu o poder na China Continental. Em 1975, veio visitar uma de suas filhas, casada com um pastor da igreja presbiteriana em missão em São Paulo… e aqui ficou.

No Brasil, Pai Lin difundiu a filosofia taoísta de Lao Tse, o Tai Chi e a Medicina Chinesa, particularmente o Tui Na e a fitoterapia. O Tai Chi Pai Lin foi introduzido pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo e é oferecido em unidades de saúde em todas as regiões da cidade a milhares de usuários. O Tai Chi Pai Lin também é praticado em Belo Horizonte, Brasília, Buenos Aires, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, Salvador, Santos, entre outras cidades.
Jerusha Chang, paulista de origem chinesa, estava se preparando para ir para a China, em 1977, quando conheceu Liu Pai Lin, o que a levou a abandonar seu projeto e tornar-se intérprete e discípula do Mestre, dizendo, “a China veio a mim”. Jerusha, em 1991, criou a Associação Tai Chi Pai Lin, onde são atendidos pacientes e ministrados cursos de Tai Chi, Tui Na e Tao In (meditação taoísta).
Em 1979, o filho caçula do Mestre, Liu Chih Ming, nascido na China Continental em 1948 e levado para Taiwan aos 40 dias de vida, imigrou com sua família para São Paulo, onde criou o Centro de Estudos de Medicina Tradicional e Cultura Chinesa – Cemetrac, acolhendo pacientes e formando milhares de alunos em acupuntura e medicina chinesa, que inclui cursos de fitoterapia, Tui Na, Tai Chi e Tao In.
Nana Liu, fisioterapeuta que aprendeu Tui Na com seu avô Pai Lin e é professora da Associação Tai Chi Pai Lin, conta que o Mestre costumava dar aos pacientes sem recursos o dinheiro necessário para eles poderem pagar a consulta à sua esposa, que administrava o consultório.
A Medicina Ocidental se baseia no princípio da causalidade (causa); e a Medicina Chinesa baseia-se no princípio da casualidade (casual). Os ocidentais não sossegam enquanto não acham uma boa explicação para as doenças e, quando não encontram uma que seja factível, vão logo empregando termos como síndrome, precoce, múltipla etc. Os orientais, por sua vez, contentam-se com a observação, dobram-se até mesmo ao menor, mais insignificante e absurdo detalhe, como se o organismo humano fosse um mosaico misterioso a ser mapeado.
Na Medicina Chinesa, assim como na Medicina Ocidental, a subjetividade do terapeuta é largamente utilizada tanto no diagnóstico como na terapia. Mas o terapeuta chinês orgulha-se de ser chamado de artista, enquanto que o médico alopata é um artista enrustido que quer se fazer passar por cientista, o que o leva a não ser uma coisa, nem outra (consulte dois médicos formados na mesma universidade e compare os seus diagnósticos e tratamentos indicados – muitas vezes chegam a ser antagônicos). Para meus pacientes, eu digo que não acredito em medicina chinesa, mas que ela funciona, funciona. Os avanços e benefícios da Medicina Ocidental são muitos, e a Medicina Chinesa se aproveita deles sem escrúpulo algum.
Quem teve o privilégio de conhecer o Mestre, refere-se a ele como “um santo”. Em 1999, aos 93 anos de idade, em perfeita forma e saúde, avisou a seus discípulos que não sobreviveria o ano. No réveillon de 2000, seus alunos ficaram muito apreensivos, mas, para a alegria de todos, ele não partiu. Contudo, a sua referência não era o calendário gregoriano, mas o calendário chinês, e o Mestre Liu Pai Lin partiu em 2 de fevereiro de 2000, três dias antes da passagem do ano do coelho para o ano do dragão.
Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre livros e artigos, de Céu, homem e terra na medicina chinesa.

