Micheliny Verunschk: ‘escrever é parte indissociável de quem sou’
Autora de livros como O som do rugido da onça e Caminhando com os mortos é a sexta entrevistada do especial do Le Monde Diplomatique Brasil
Em 2023, tive o privilégio de fazer a mediação de uma mesa com a escritora Micheliny Verunschk, uma das autoras mais importantes e premiadas da literatura brasileira contemporânea. Assim como todas as outras pessoas que estavam na Sabiá Livros, em Uberlândia (MG), acompanhei hipnotizado cada resposta dada pela autora naquela noite.
Os temas foram tratados com sensibilidade, delicadeza, inteligência, senso crítico e humor. Agora, dois anos depois, volto a me encantar com as respostas de Micheliny Verunschk, dessa vez como a sexta entrevistada do especial do Le Monde Diplomatique Brasil em comemoração ao Dia Nacional do Escritor (25 de julho).
“Creio que vivemos um bom momento da literatura contemporânea nacional, no que diz respeito à produção e surgimento de novas vozes e autorias. Creio mesmo que é um momento ímpar, com muita gente talentosa despontando ou sendo descoberta. No entanto, são alarmantes os dados compartilhados pelo ‘Retratos da leitura no Brasil’, em 2024: o Brasil perdeu 7 milhões de leitores em quatro anos e 53% dos entrevistados não leu sequer um trecho de um livro em três meses”, disse a autora.
Ao longo da entrevista, Micheliny Verunschk ainda abordou a sua preocupação com a linguagem no momento de construir uma narrativa, destacou três livros que relê com frequência e elegeu o conselho que recebeu do escritor Raimundo Carrero como o melhor que já lhe deram no meio literário.

Crédito: Renato Parada
Confira na íntegra:
Qual tema é a sua grande obsessão como ficcionista? De que forma esse tema se relaciona com a sua vida fora da literatura?
Acho que a minha grande obsessão é pensar o Brasil, fabular sua história, seu povo. Parodiando James Joyce, se eu conseguir chegar ao coração do Brasil, posso chegar ao coração do mundo inteiro. E esse tema não é exatamente um tema, é a minha própria vida. Atravesso o Brasil, sou atravessada por esse território.
Para escrever um bom livro, o enredo e a linguagem têm a mesma importância?
Para mim, a linguagem tem um peso maior do que o enredo. Veja só, não desmereço o enredo, ele é importante, mas qualquer pessoa pode contar ou escrever uma história. Como se conta ou como se escreve essa história é que é o pulo do gato (ou da onça). De modo que qualquer dos meus livros será o resultado de um trabalho às vezes exaustivo de linguagem, o que não passa nem de longe por diletantismo, pelo contrário, é parte de ofício que exige uma relação encantatória com o leitor. A linguagem é, penso, essa ferramenta.
Qual livro você mais gosta de reler? Por quê?
Há três livros que releio sempre e que sempre me dão prazer na releitura. Em prosa, Dom Casmurro, de Machado de Assis. Em poesia, Uma faca só lâmina, de João Cabral de Melo Neto. Em ensaio, Seis propostas para o próximo milênio, de Italo Calvino. Há, nesses livros, além de lições inestimáveis para mim, um frescor, a certeza de que a cada reencontro aprenderei algo novo.
Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse uma leitora? E uma escritora?
Foram muitos, mas creio que A noite das bruxas, de Agatha Christie, fez com que eu me visse, no futuro (eu era adolescente quando o li) como uma mulher que escreve, uma escritora.
Em 25 de julho é comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar?
Creio que vivemos um bom momento da literatura contemporânea nacional, no que diz respeito à produção e surgimento de novas vozes e autorias. Creio mesmo que é um momento ímpar, com muita gente talentosa despontando ou sendo descoberta. No entanto, são alarmantes os dados compartilhados pelo “Retratos da leitura no Brasil”, em 2024: o Brasil perdeu 7 milhões de leitores em quatro anos e 53% dos entrevistados não leu sequer um trecho de um livro em três meses. Além disso, embora tenhamos esse cenário rico e cada vez mais plural no que diz respeito à autoria, isso não se traduz em números: nenhum desses autores ou seus livros são citados entre os preferidos dos leitores. Arrisco a dizer que, nesse quesito, a resposta que inclui desde a Bíblia, passando por livros de autoajuda e livros literários (excelentes, aliás) que foram publicados ainda na segunda metade do século passado, o leitor pesquisado respondeu animado pela memória longínqua dessas leituras. Ou seja, suas respostas não traduzem uma leitura presente ou do momento presente. Assim, penso que é preciso fomentar a leitura na escola, nas bibliotecas, e fora também desses espaços. O livro lido precisa estar na moda. Em uma moda que seja perene, porque é o livro que constrói o caráter de um povo.
Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil?
Citarei dois, sabendo que há uma lista enorme que me salta à memória: Alexandre Porto Vidal e Maria Fernanda Elias Maglio.
Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior?
O melhor conselho recebi de Raimundo Carrero quando eu estava escrevendo meu primeiro romance, Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida: eu havia travado no quarto capítulo e o romance não saía daquilo. O conselho de Carrero foi simples e eficaz: “Escreva. Escreva sem se importar com o certo e o errado. Quando você terminar, retorna e aí se preocupa com a perfumaria”. O pior conselho foi de um parecerista dessa mesma obra que, incomodado com o que chamou de escrita difusa, pediu que eu modificasse aquilo que estruturava o romance. Não segui o conselho e, não sei se foi um bom indicativo, mas tempos depois o livro ganhou um importante prêmio. Assim, creio que no que diz respeito a conselhos literários, cada escritora ou escritor deve ter um bom filtro para saber o que cabe ou não seguir.
O que move sua escrita?
O que me move na vida, a anima. Escrever é parte indissociável de quem sou.
Sobre a escritora
Micheliny Verunschk é autora de livros de contos, poesia e romances, incluindo Nossa Teresa: Vida e morte de uma santa suicida (Patuá, 2014), vencedor do prêmio São Paulo de Literatura; O som do rugido da onça (Companhia das Letras, 2021), que conquistou o Jabuti de melhor romance literário e o terceiro lugar do prêmio Oceanos, e Caminhando com os mortos (Companhia das Letras, 2023), vencedor do Prêmio Oceanos 2024. Seu livro de contos Desmoronamentos (Martelo Casa Editorial, 2022) venceu o Prêmio Biblioteca Nacional. Em 2025 publicou Depois do Trovão (Companhia das Letras).
Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, Jornal Rascunho e São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

