“Minha língua estrangeira é a velocidade, é a aceleração do real” - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA

“Minha língua estrangeira é a velocidade, é a aceleração do real”

por Guilherme Soares dos Santos
3 de junho de 2011
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Guilherme Soares dos Santos

Uma das maiores personalidades da França atualmente, o filósofo e urbanista Paul Virilio ocupa um lugar de destaque na cena intelectual. Escritor prolífico, no seu currículo sucedem-se livros, exposições e artigos tais como Velocidade e política, Guerra e cinema, O espaço crítico, Máquina de visão e, recentemente, O grande acelerador [sem tradução ainda para o português] em que ele desenvolve uma cultura crítica, alguns dizem “catastrofista”, sobre as técnicas modernas, bem como seus efeitos de aceleração sobre nossos comportamentos e nossa percepção do mundo, no momento em que a economia mundial depende cada vez mais do investimento na tecnologia.

Paul Virilio recebe o filósofo brasileiro Guilherme Soares dos Santos  em Paris, e fala com exclusividade ao Le Monde Diplomatique Brasil sobre suas teses, que tratam da corrida, da lógica da velocidade, ele que é  visto por muitos como um reacionário ou um visionário, fala ytambém de sua biografia.

VIRILIO: Há uma coisa fundamental que explicará, talvez, o aspecto “catastrofista” do qual me acusam. Eu sou uma criança da guerra, um war baby, e é um elemento que não foi suficientemente compreendido, porque tentou-se fazer esquecer a guerra. Há dois momentos importantes na Segunda Guerra Mundial (eu a vivi, eu tinha 10 anos, eu nasci em 1932). Houve primeiramente a Guerra Relâmpago, a Blitzkrieg. Censurou-se esse aspecto, e alguns historiadores negam a blitz, isto é, o fato de que a velocidade esteve na base da grande ruína, primeiro da Polônia, e em seguida da França. E então essa Blitzkrieg se esgotou nos países do leste e na União Soviética, porque lá havia a profundidade de campo que permitia amortecer. Eu sou, portanto, uma criança da Blitzkrieg, eu diria mesmo que eu sou talvez o único, o único que desde então jamais cessou de ser marcado pelo poder da velocidade. Não é somente o poder dos transportes, os carros de assalto contra a cavalaria polonesa que desembainhava o sabre contra os panzers… Há também a guerra das ondas da qual eu sou o filho: “Pom, pom, pom, pom”… a rádio de Londres que eu escutava no escuro com o meu pai. Há dois momentos capitais: a Blitzkrieg e a deportação que vai, aliás, junto com o mesmo movimento de invasão. Se a guerra de 1914 foi uma guerra de posição em que os exércitos se exterminaram no mesmo lugar durante anos, com a deportação, conduziu-se à Shoah no curso da Segunda Guerra Mundial.

DIPLOMATIQUE: O senhor é muito sensibilizado pelas tragédias que ocorrem em nossa época. O senhor quis inclusive que fosse criado um “Museu dos Acidentes”, após a exposição feita sobre esse tema na Fundação Cartier para a Arte Contemporânea. O senhor já avançou essa ideia, mas por enquanto sem sucesso junto às instituições, e agora o senhor propõe a criação de uma “Universidade do Desastre”. De que se trata exatamente? Não se poderia pensar que a guerra terá sido, para o senhor, uma universidade do desastre?

VIRILIO: Com efeito. Quando eu falo de “Universidade do Desastre” não é de modo algum o desastre da universidade, é o contrário: eu quero dizer que “o pior provoca o melhor”. A universidade europeia apareceu em Bolonha e alhures aproximadamente em 1100, 1200, após o “grande medo” do ano 1000, em oposição à grande barbárie. E ela foi, essa universidade, um coletivo judeo-cristão, greco-latino e árabe. Alguns negam o grande medo do primeiro milênio, como alguns negam, hoje, a blitz. Há aí alguma coisa que, no meu entendimento, faz parte do segredo da velocidade. Se “o tempo é dinheiro”, a velocidade é poder. Eu lembro que para os banqueiros, para que haja mais-valia, é preciso que haja a velocidade de troca. A questão da velocidade é uma questão mascarada; não mascarada por um complô, mas mascarada por sua simplicidade. Riqueza e velocidade estão vinculadas. É conhecido o vínculo da riqueza e do poder como da lei do mais forte. Mas a lei do mais forte é a lei do mais rápido. A questão da “dromologia” é a questão da velocidade que, hoje, mudou de natureza. Na origem, a velocidade é o tesouro dos faraós; é a tesaurização, quer dizer, a acumulação e, então, muito rapidamente, tornar-se-á especulação. E aí o movimento de acumulação vai passar na aceleração. Os dois estão vinculados. Acumulação do tesouro que tornar-se-á tesouro público, em seguida especulação, e hoje financeirização com os sistemas de cotação automática em alta frequência que fazem explodir a bolsa de valores. Veja, estamos diante de algo extraordinário, é que nós não sabemos o que é a velocidade em nossos dias. As pessoas me dizem que é preciso uma economia política da velocidade, e, de fato, é preciso uma, mas é preciso primeiro uma dromologia, ou seja, revelar na vida política, no sentido amplo do poder, a natureza da velocidade em nosso tempo. Essa velocidade mudou de natureza. Essencialmente ela foi a revolução dos transportes. Até o século XX, até a blitz, vimos que a revolução das riquezas é uma revolução dos transportes: o cavalo, o navio, o trem, o avião, os sinais mecânicos.

DIPLOMATIQUE: No final do século XX, passa-se não mais à revolução dos transportes, mas à das transmissões instantâneas.

VIRILIO: Durante a guerra, ainda garotinho, eu participei da Resistência com os meus pais graças à guerra das ondas que já era uma guerra eletromagnética. Uma guerra da velocidade das ondas. Marconi e sua invenção era, também, uma revolução da velocidade. Começava-se a pôr em obra a velocidade das ondas eletromagnéticas, isto é, das ondas da velocidade da luz. E, claro, com a televisão, os computadores e a Internet, nós entramos numa fase que hoje atinge o seu limite; a velocidade da luz em que o tempo humano, o tempo da negociação, da especulação, em que a inteligência do homem, do especulador, dos cotadores é ultrapassada pelos automatismos. Aliás, quando a bolsa quebrou em 6 de maio do ano passado em Wall Street, em alguns milésimos de segundos houve 23.000 operações, o sistema entrou em pane e bilhões foram perdidos em dez minutos.

DIPLOMATIQUE: O que preocupa o senhor são os limites do tempo humano?

VIRILIO: Sim, é preciso trabalhar sobre a natureza do poder da velocidade atualmente, porque a velocidade da luz é um absoluto e é o limite do tempo humano. Nós estamos no “tempo-máquina”; o tempo humano é sacrificado como os escravos eram sacrificados no culto solar de antigamente. Eu o digo, nós estamos num novo Iluminismo em que a velocidade da luz é um culto. É um poder absoluto que se esconde atrás do progresso, e é por isso que eu afirmo que a velocidade é a propaganda do progresso. Eu não tenho nada contra o progresso. Quando eu digo que é preciso “ir mais devagar”, alguns zombam de mim. Pensam que eu condeno a revolução dos transportes, dos trens, dos carros, dos aviões, que eu sou contra os computadores e contra a Internet. Não é nesse nível que as coisas estão em jogo…

DIPLOMATIQUE: O que o senhor combate é a aceleração do real que põe em questão a percepção das aparências sensíveis e daquilo que a fenomenologia chama de “ser-no-mundo”?

VIRILLIO: Sim, o que a revolução dos transportes era para a aceleração da história e os movimentos migratórios, a revolução das transmissões instantâneas o é para a aceleração da realidade percebida. É um acontecimento alucinante, estupeficante. A velocidade é uma ebriedade. Uma embriaguez que pode ser “scópica” ou sonora – daí, aliás, a passagem do muro do som. Com as telecomunicações, utiliza-se a força de impacto da aceleração para fazer passar coisas que não estão na realidade pública, ou seja, no espaço real público, mas na realidade privada, ou antes transmitidas em tempo real por sociedades privadas. A tal ponto que a questão da imaginação, e aquela, filosófica, do “ser-no-mundo”, do aqui e do agora, tornam-se centrais. Nós estamos, assim, em plena crise da ciência, do que eu chamo de “acidente dos conhecimentos”, “acidente das substâncias” e “acidente das distâncias”. Essa questão da velocidade, desde Einstein, está no cerne da relatividade outrora especial, e hoje generalizada, que está em vias de se chocar contra um muro, o que eu chamo de “muro do tempo”. O que se passou em Wall Street me interessa muito porque as pessoas de Wall Street se chocaram contra o muro do tempo e o muro do dinheiro. É um fenômeno político maior no momento em que os algoritmos e os programas de computador dominam a vida econômica, e eu pretendo que a “relatividade especial” deveria ser um problema encarado pelo Estado. Se o século XX foi o século da conquista do ar e do espaço, eu penso que o século XXI deveria se questionar não somente sobre as nanotecnologias, mas, também, sobre as nanocronologias, isto é, sobre o tempo infinitesimal, sobre a conquista do “infinitamente pequeno do tempo”.

DIPLOMATIQUE: Parece-me que, nos textos do senhor, o estilo quer sempre ecoar o assunto estudado, e quando senhor pensa a velocidade, é a própria escrita que deve ir rápido.

VIRILIO: Absolutamente. E nesse sentido, como o mostra Proust, todo verdadeiro escritor escreve “numa espécie de língua estrangeira”. Minha língua estrangeira é a velocidade, é a aceleração do real. No que respeita à velocidade da minha escrita, trata-se da herança dos futuristas, e eu sinto a dromologia como uma musicologia. O problema não é nem de acelerar nem de desacelerar, mas de seguir uma linha melódica.

DIPLOMATIQUE: Há quem diga que o senhor pratica uma “escrita rapsódica”.

VIRILIO: Trata-se do ritmo. As sociedades antigas eram sociedades ritmológicas. Havia o calendário, a liturgia, as festas que estruturavam a linha melódica de tal ou qual sociedade. Os ritmos são muito importantes, você sabe, pois trata-se do sopro. Quando Bergson e Einstein se encontraram, eles não se compreenderam a esse respeito. O primeiro falava de “duração”, do vivo; o segundo, do vazio e do veloz. Saiba, no entanto, que será necessário conciliá-los, caso contrário o futuro do século XXI será um caos global pior que o nazismo ou o comunismo, que não tem nada a ver com a anarquia. Não, um caos global pior que tudo!

DIPLOMATIQUE: É por isso que o pensamento do senhor torna-se mais e mais dramático e religioso nos últimos tempos?

VIRILIO: Eu sou um católico que se converteu já adulto, isso é importante. Meu pai era comunista, e minha mãe, católica. Acontece que eu conheci o abade Pierre e padres operários. Mas eu permaneço sozinho sobre a minha senda.

DIPLOMATIQUE: Alguns criticam o senhor por descrever situações que seriam exagerações fantasistas, quando o senhor descreve este temor da solidão gerado pelas telecomunicações, notadamente pela Internet ou o celular. Não estaria o senhor realizando, talvez, uma especulação sobre “mundos possíveis”, seguindo uma espécie de método “transcendental” de investigação?

VIRILIO: Eu quero reunir o que foi separado, quero dizer, a filosofia e a física. Trata-se fundamentalmente de uma reinvenção filosófica para fazer frente a esta matematização do mundo, esta rapidez que ultrapassa a consciência. Eu me sinto no limiar de uma filosofia sem igual. Tal como Heráclito ou Parmênides, estamos aqui na origem – daí a Universidade do Desastre. Todo o trabalho desta seria um questionamento sobre o “desastre do êxito”. O que se acaba de descrever é o sucesso da tecnociência. Ora, é imperativo reconciliar e lançar a “filociência”. O que está aí em jogo é a vida ou a morte da humanidade. Se o homem não pode mais falar e se ele transfere o poder de enunciação a aparelhos, encontramo-nos, pois, diante de uma tirania sem igual. Físicos que são meus amigos estão conscientes disso, do que se perfila, um “acidente dos conhecimentos”. Isso nos conduz à árvore da vida que só tem referência na origem do Gênese, ou seja, o mito da vida… E aí eu o digo enquanto cristão e enquanto escritor: o acidente dos conhecimentos é o pecado original.

DIPLOMATIQUE: O que significa em nossa época “ser sábio”, quando nós somos forçados a uma especialização crescente e incessante, assim como à busca de uma “resposta automatizada” nos motores de pesquisa e nos bancos de dados que ultrapassam de longe o que a memória individual pode abarcar em uma vida? Como nós podemos cultivar nossa lucidez nesta maré enlouquecedora de informações?

VIRILIO: No que me toca mais diretamente, eu sou um urbanista, quer dizer que eu trabalho sobre o habitat. E o próprio de um urbanista é trabalhar sobre o habitar, o “ser-aqui”. O “ser-aqui-junto”. É isso o habitat: é o lugar de nossos hábitos. Os dois mantêm um vínculo muito estreito, isto é, a possibilidade de durar; o hábito é o que se reproduz. É o “ser-junto”. Não simplesmente o “ser-junto” do socius, mas o “ser-junto” da natureza no habitat comum com a nossa irmã, a chuva, e o nosso irmão, o sol, como diriam os franciscanos… É isso a arquitetura! É abrigar o vivente.

DIPLOMATIQUE: Perante o excesso contemporâneo de informações, e à velocidade sempre acelerada do desenrolar dos acontecimentos se desdobrando mundialmente nas imagens de nossas telas, não estamos testemunhando uma verdadeira desconstrução da cultura geral?

VIRILIO: Você utilizou na sua pergunta a palavra “desconstrução”. Eu creio que Derrida tinha razão para o fim do século XX. O início do século XX é a destruição pura e simplesmente através da ruína das cidades, através da ruína dos corpos. É a destruição; não se pode dizer que Auschiwtz ou Hiroshima sejam “desconstruções”… São puras destruições. Ora, eu creio – e eu o digo e o escrevo – que o século XXI será a desorientação, quer dizer, a perda de todas as referências – se a humanidade continuar desse jeito, e ela não continuará. Portanto, eu não creio de maneira alguma no fim do mundo. Mas o que eu quero dizer é a desorientação: não sabemos mais onde estamos nem no espaço nem no tempo. E aí, o geômetra que eu sou, o arquiteto que eu sou, sabe o que é a orientação. A arquitetura é primeira; ela é composição; ela é habitat comum entre os seres e as coisas. Pois ser é “ser-no-mundo”, e é o que eu digo: o problema não é de ser, mas de ser-no-mundo, em outras palavras, de ser-no-corpo-territorial. Isso não tem nada a ver com nacionalismo. Simplesmente não se pode ser sem “ser-no-mundo”. Em nossa época, todavia, o essencial se passa no vazio. Se você olhar hoje em dia, o poder não é mais geopolítico, religado ao solo, ele é aeropolítico: as ondas, os aviões e os foguetes traçam o porvir. A história se transferiu da terra ao céu, com toda a dimensão mística de adoração do cosmos, do grande vazio sideral, das ondas que se propagam etc. que isso supõe. As sociedades históricas eram sociedades geopolíticas, ou seja, inscritas nos lugares. O acontecimento, conforme com que eu digo, o acontecimento “tem lugar”; logo existe uma natureza do lugar que tange ao acontecimento. E essa relação com o “ter lugar” foi ocultada. É uma noção tão banal… Significa, portanto, que eu não posso ser sem ter lugar. Não é um problema de identidade –  não, situado, orientado, in situ, hic et nunc, aqui e agora.

DIPLOMATIQUE: Uma última pergunta. O senhor pensa que o sistema econômico já está sendo transtornado pela ecologia?

VIRILIO: Doravante a economia e a ecologia devem fundir-se porque o mundo é finito, porque o mundo é demasiado pequeno para o progresso. Nós esgotamos a matéria do mundo, nós poluímos sua substância e nós poluímos suas distâncias. E nós estamos perante à fusão próxima da ecologia e da economia. Vê-se bem as dificuldades com o encontro do Grupo de Informação sobre o Clima em Copenhague. Vê-se bem a dificuldade que há em plena crise econômica, nos Estados Unidos e no mundo, a tomar medidas ecológicas. Portanto, inevitavelmente, o fato de que a Terra é muito pequena para a velocidade, para a velocidade do progresso, exige a fusão dos dois. Daí a importância de uma Universidade do Desastre e a reinvenção de um pensamento, de um intelectual coletivo, como o foi a universidade das origens. É indispensável. Até o momento ela não existe; nós estamos na origem de um novo mundo. E eu gostaria de ser mais jovem para poder viver esse Novo Mundo que vai nascer na dor do confronto. Mas que é indispensável. Nenhum homem, seja qual for a sua cor política, não está à altura desse acontecimento que se assemelha à Renascença italiana… E ao mesmo tempo é tão excitante! É maravilhoso! Como já dizia Karl Krauss: “que grande época”!

*Guilherme Soares dos Santos é filósofo,  mestre em filosofia política e ética pela Universidade Paris Sorbonne e, atualmente, é doutorando em filosofia contemporânea pela Universidade Paris 8, onde estuda o pensamento de Gilles Deleuze.



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