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Miscelânea

2 de março de 2020
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REVOLUÇÃO AFRICANA – UMA ANTOLOGIA DO PENSAMENTO MARXISTA

Jones Manoel e Gabriel Landi Fazzio (orgs.), Autonomia Literária

 

Arsenal crítico indispensável para aqueles que apostam no aprendizado com as lutas passadas e não se deixam convencer pelo apagamento da história, Revolução africana, reunindo pensamentos de Fanon, Nkrumah, Amílcar Cabral, Mondlane, Machel, entre outros, traduz um anseio de transformação que, aliado à teoria marxiana, produziu grandes transformações históricas no século XX.

Nas linhas do livro, vemos um pensamento vivo e uma história em construção em que é possível descer o olhar sobre o segredo de como se fabricam ideais e como se concretizam sonhos: o olho acostuma-se à verdade do vazio dilacerante e da transformação das escolhas dos sujeitos políticos. Nos processos revolucionários fica claro: o método é um caminho, e não uma finalidade.

Da contradição histórica, da falta de evidências de concretizar uma transformação na ordem do possível, da opção pelo impossível, que guiaram mulheres e homens no sentido de uma sociedade justa e livre, dos desmandos colonialistas cuja casa de máquinas foi a escravidão moderna, segue-se a crítica avassaladora daqueles que estiveram no centro dos grandes acontecimentos.

A história viva nesse livro, presente nos discursos, ensaios e entrevistas, aparece como uma mudança do passado por meio de sua contemplação do presente e certifica que o conjunto de razões (passadas dadas) nunca é completo o suficiente. Sempre se pede um esforço a mais dos sujeitos implicados, uma aposta não evidenciada pela lógica geral. São as lições revolucionárias omitidas por uma esquerda que outrora simplesmente negava sua história nas colônias e que agora, apegada à gramática neoliberal e à falsificação da história pelo Império, esqueceu-se de seus antepassados.

Dessa maneira, em Revolução africana os dois valores outrora contrapostos, teoria e prática, travam uma harmonia contraditória; e, embora o segundo valor tente predominar, não faltam lugares, pontos e declives na vida desses revolucionários negros, em seu momento histórico, em que a luta foi decidida. Inclusive podemos dizer, ao pensar com Fanon ou com Amílcar Cabral. que desde então ela foi levada incessantemente para além de sua época, com isso se aprofundando e chegando até nós como vozes fantasmagóricas que querem abafar.

 

[Douglas Rodrigues Barros] Escritor e doutorando em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo.

 

 

O BRASIL NÃO CABE NO QUINTAL DE NINGUÉM: BASTIDORES DA VIDA DE UM ECONOMISTA BRASILEIRO NO FMI E NOS BRICS E OUTROS TEXTOS SOBRE NACIONALISMO E NOSSO COMPLEXO DE VIRA-LATA

Paulo Nogueira Batista Jr., LeYa

Em seu novo livro, Paulo Nogueira Batista Jr. combina as memórias de sua rica experiência no FMI e no NBD (o “Banco dos Brics”) com uma inédita reflexão sobre macroeconomia, além de uma coletânea de textos já publicados, mas reorganizados (e às vezes retrabalhados) em torno de temas selecionados. O formato é incomum, mas o resultado é extremamente interessante, conferindo ao leitor o prazer e a fluidez de quem lê um livro de memórias e, ao mesmo tempo, os aprendizados de quem lê um livro acadêmico.

Baseado em sua vivência pessoal, o autor desnuda os meandros das instituições em tela, oferecendo aos estudiosos de economia internacional ensinamentos importantes e que jamais constarão de documentos técnicos ou estritamente acadêmicos. Ao fazê-lo, porém, não se perde no mero relato de episódios, mas articula-os com a história das instituições, o contexto econômico global e os debates teóricos subjacentes. Nessa exposição, mostra-nos que, com vontade política e um trabalho de qualidade, há, sim, espaço para disputas e mudanças, mas que esses embates são extremamente árduos e a tendência geral é de uma “tremenda inércia”.

Não por acaso, o livro passa das discussões sobre essas instituições para um instigante debate sobre o nacionalismo. Denunciando o comportamento subserviente e entreguista de muitos governos no Brasil, o autor reafirma sua crença no potencial do país e de seu povo, mesmo em um momento tão obscuro quanto o atual. Segundo Batista Jr.: “A luta é agora. E não poderá ser delegada a ninguém”. Na sequência, apresenta interessantes reflexões no campo da economia política e da política econômica, incluindo a transcrição de uma audiência pública na qual, de maneira perspicaz, manifestou sua radical oposição a um projeto de independência do Banco Central. Por fim, o livro traz textos curtos, tratando de alguns importantes personagens brasileiros e estrangeiros, para, em seguida, enveredar-se por crônicas calcadas no humor, também necessário para a vida e para as lutas.

 

[Bruno De Conti] Professor do Instituto de Economia da Unicamp.

 

O Guilhotina, podcast do Le Monde Diplomatique Brasil, recebeu o professor Paulo Nogueira Batista Jr. para uma conversa sobre essa obra em seu episódio #46. Confira em https://diplomatique.org.br/guilhotina/.

 

 

 

<INTERNET>

 

Novas narrativas da web

Sites e projetos que merecem seu tempo

 

Me Too Rising

O Movimento #MeToo, que denuncia assédio e agressão sexual contra mulheres, explodiu em 2017 como uma hashtag nas redes sociais. O até então celebrado produtor de Hollywood Harvey Weinstein, atores, diretores e figuras públicas de todos os matizes foram acusados de diversos crimes sexuais por suas vítimas. O Google fez uma ferramenta que mostra a publicação, em cada país, em tempo real, de notícias que envolvem o assunto. Uma visualização mundial, por meio do Google Trends – a ferramenta do buscador que mapeia as tendências no mundo.

https://metoorising.withgoogle.com/

 

Mentir com gráficos

Alberto Cairo é um dos maiores especialistas em infográficos do mundo, vencedor de inúmeros prêmios e estudioso do assunto. Um de seus livros mais famosos é How Charts Lie (“Como os gráficos mentem”, em tradução livre, porque não foi lançado no Brasil), em que analisa várias infografias e como elas podem distorcer a realidade sem realmente trazer informação inverídica – mas causando tanta desinformação quanto uma mentira. Ele deixou livre para download todos os gráficos do livro. Corre lá.

http://bit.ly/mentirasgraficas

 

Bloomberg, o rico

Michael Bloomberg, pré-candidato à corrida presidencial dos Estados Unidos, é dono de uma fortuna de US$ 62,8 bilhões, segundo a revista norte-americana Mother Jones. Não é simples entender o que isso significa, especialmente para nós que pagamos boletos. Pelo Twitter, a revista publicou uma animação que faz comparações de fortunas e apresenta em menos de 2 minutos o que essa quantia quer dizer, comparativamente. Vingadores: Ultimato faturou US$ 400 milhões. Todos os presidentes dos Estados Unidos, juntos, teriam no banco US$ 5 bilhões (Trump, sozinho, tem US$ 3 bi). Alguém que recebesse um salário mensal de US$ 15 mil desde que a humanidade surgiu – e não gastasse nada – teria juntado US$ 36 bilhões. Bloomberg tem mais.

http://bit.ly/michaelrich

 

[Andre Deak] Sócio do Liquid Media Lab, professor de Jornalismo e Cinema da ESPM, mestre em Teoria da Comunicação pela ECA-USP e doutorando em Design na FAU-USP.



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