Miscelânea
Confira a resenha do filme “Tarifa Zero: Cidade em Disputa”, de Katarine Flor, Caroline Oliveira e Marcelo Cruz, Fundação Rosa Luxemburgo e Brasil de Fato. E as resenhas dos livros “Pensar Fanon”, de Françoise Vergès e outros e “A Noite Atira Sóis ao Infinito”, de Paulo Emílio de Paiva
TARIFA ZERO: CIDADE EM DISPUTA
Katarine Flor, Caroline Oliveira e Marcelo Cruz, Fundação Rosa Luxemburgo e Brasil de Fato

Júlio e Sebastiana têm rotinas diferentes, mas carregam a mesma exaustão. Ele atravessa a cidade de trem e metrô para estudar, buscar lazer e acessar direitos que a cidade insiste em afastar. Ela acorda de madrugada, caminha por ruas pouco caminháveis, o transporte já vem cheio. Mesmo quando tenta sair mais cedo do trabalho, o rosto pesado mostra o que significa perder horas todos os dias só para se deslocar. Chegou a pedir para entrar e sair mais cedo, tentando escapar do pico. Não adiantou. O transporte segue precário, o cansaço segue o mesmo e a vida continua sendo consumida pelo trajeto.
O documentário mergulha nesse cotidiano. Mostra como o transporte precarizado rouba tempo, saúde e oportunidades. Mostra também como a forma de se deslocar decide quanto tempo sobra para estudar, descansar ou viver. As desigualdades estão no mapa. O metrô se concentra nas áreas ricas. As ciclovias, nos bairros centrais. Hospitais e parques ficam distantes de quem mais precisa. Para a periferia, sobram conexões lentas, viagens longas e jornadas de até cinco horas. Esse tempo roubado corrói a saúde, multiplica a ansiedade e esgota qualquer chance de lazer.
Esse peso tem gênero, raça e classe. Mulheres negras são as principais usuárias do transporte. Fazem as viagens do cuidado: levam filhos, acompanham idosos, buscam remédios. Quando o transporte falha, o cuidado falha junto. O filme desmonta falsas soluções. Carros elétricos não mudam a lógica. A uberização aprofunda desigualdades. O problema não é técnico, mas estrutural: uma cidade que precariza a maioria e privilegia poucos.
Tarifa zero é redistribuição de renda, tempo, saúde e dignidade. É Júlio estudando sem transformar cada viagem em peso. É Sebastiana chegando em casa antes de a noite terminar. Uma cidade feminista, antirracista, feita para as pessoas, onde o transporte serve à vida, e não ao lucro. E a pergunta que o filme deixa é inevitável: se o transporte fosse gratuito todos os dias, o que mudaria na vida de Júlio, de Sebastiana e de todas nós? A resposta é simples: mudaria tudo.
[Clareana Cunha] Socióloga e cientista política, atua como mobilizadora do Instituto Pólis. O filme será disponibilizado on-line no dia 23 de setembro em: https://rosalux.org.br/tarifa-zero-cidade-em-disputa/.
PENSAR FANON
Françoise Vergès e outros, Ubu

Uma das maneiras mais sutis de enterrar um pensamento é prestando-lhe supostas homenagens que, em vez de fazerem jus à sua expressão, revelam o que nele faltou. Existem certas comemorações nesse sentido que merecem atenção, e, quanto maior a influência de um ou de uma pensadora, maior o número de “filhos” que desejam enterrá-los sob a tumba dos sortilégios e das condenações. Portanto, é sempre bom refletirmos com atenção sobre as efemérides que movimentam o mercado editorial.
Com ensaios e artigos que vão desde Achille Mbembe, passando por Françoise Vergès e Sylvia Wynter, até Deivison Faustino, entretanto, o livro Pensar Fanon – lançado pela editora Ubu em comemoração aos cem anos de Frantz Fanon – escapa do lugar-comum organizado por esse tom celebratório. Nele, encontramos um mergulho que nos oferece um mapa bastante interessante do percurso das ideias fanonianas nos últimos cinquenta anos.
Com um sobrevoo pelas diferentes recepções em várias línguas, Pensar Fanon é uma obra indispensável para quem deseja compreender a multiplicidade de temas que o legado fanoniano nos deixou. Desde o pós-estruturalismo – que reduziu o racismo à representação – até a recuperação dialética do pensamento de Fanon, a obra tece um panorama instigante que nos permite entender o renascimento do interesse não só por Pele negra, máscaras brancas, mas também por Os condenados da terra.
Se há algum traço em comum nos diversos ensaios presentes em Pensar Fanon, é o fato de eles se apoiarem na ideia de que o colonialismo é algo inscrito além da objetividade social. A estrutura colonial que organizou e regulou a noção de raça, mais do que um fenômeno histórico, é uma forma de produção e reprodução da vida social que impacta de maneira direta o imaginário coletivo.
Reside aqui um traço distintivo de Pensar Fanon: por meio dele, podemos compreender a permanência das estruturas do ideário colonial, que reproduzem relações assimétricas responsáveis pela desigualdade sociorracial tão denunciadas por Fanon. Aliás, o renascimento do pensamento fanoniano no século XXI talvez revele a falência de um projeto social moderno, que, entre outros aspectos, legislava sob a ideia de uma possibilidade de harmonia multirracial.
[Douglas Barros] Filósofo e psicanalista.
A NOITE ATIRA SÓIS AO INFINITO
Paulo Emílio de Paiva, Patuá

Com versos cujo conteúdo se abre pelo prisma da alteridade – ser, tornar, virar matéria por meio da linguagem –, o livro de Paulo Emílio de Paiva recorre não somente a esses elementos da introspeção do eu lírico, mas também ao diálogo com o leitor de forma direta. Com temas que envolvem a vida e a morte, memória, infância e existencialismo, o autor trabalha o que poderia chamar de modernidade e sua crise, indo além de meros posicionamentos panfletários que podem ser verificados atualmente na literatura. Há um destinatário e um remetente no melhor de sua conotação: a elaboração do ato intimista. E de cartas.
Dividido em quatro partes, o livro poderia ser percebido como um rebotalho de pensamentos que a princípio aparenta ser difuso, mas que ganha força por meio do vínculo da memória: nela, o autor traça os caminhos que aqui entendo como parte de uma escrita de si, mas também com possibilidades de traços ficcionais, em especial na terceira parte, em comunicação sobre a causa palestina.
A técnica também é bem trabalhada, em especial no que se refere a evocar a densidade de componentes do cotidiano – a casa, o piano, a mochila, a escola, os hospitais –, mas penso que o mais difícil em um poema é sua condução. Em termos de narrativa há uma base sólida no livro, que é a potência da voz autoral do escritor, atento ao que está ao redor, mas, ainda assim, com fabulação, tornando-se motor para o leitor saber onde está pisando. Acima disso tudo há um bom uso por parte de Emílio em não cansar quem lê no sentido de instigar, sabendo como cada parte pode evocar determinado sentimento e sensação, e nisso reside seu mérito, pois cada seção é bem manobrada com o intuito de suas temáticas. Na primeira parte temos esse abrir e fechar sobre si mesmo, em tom contemplativo; na segunda, o cotidiano, diferenciando-se por seu otimismo e alegria de vida; na terceira, a catástrofe, como se fosse uma música em estrofes e versos. A última seção do livro estabelece um diálogo explícito com a causa palestina ao rememorar acontecimentos do conflito israelo-palestino.
Que fiquemos nós, leitoras e leitores, tentando manobrar as intempéries da vida sem sucumbir a elas, mesmo que em tempos de grandes crises.
[Lorraine Ramos Assis] Socióloga e crítica literária.

