Monitorando as disputas para os governos estaduais

Observatório Político Eleitoral

Monitorando as disputas para os governos estaduais

por Josué Medeiros
22 de agosto de 2022
compartilhar
visualização

Leia o artigo do Observatório Político e Eleitoral sobre as disputas de governos estaduais para as eleições de outubro de 2022.

As eleições de 2022 começaram oficialmente em 16 de agosto com enorme tensão e atenção para a disputa nacional. O quadro dos primeiros dias de campanha é de estabilidade na polarização entre Lula e Bolsonaro, conforme demonstram três pesquisas feitas entre os dias 15 e 18 de agosto: IPEC, Quaest e Datafolha. O quadro 1 sistematiza os levantamentos:

 

Quadro 1: Pesquisas Eleitorais – 15 a 18 de Agosto de 2022

  IPEC QUAEST DataFolha
Lula 44% 45% 47%
Bolsonaro 32% 33% 32%
Ciro 6% 6% 7%
Tebet 2% 3% 2%

Fonte: elaboração própria

Analisamos a estabilidade no cenário nacional em 31 de julho. Naquela data, Lula tinha os mesmos 47% de intenções de voto no Datafolha e havia crescido 6% entre maio de 2021 e julho de 2022; Bolsonaro apresentava 29% e aumentou nesse período os mesmos 6% em intenções de voto. Além disso, a soma dos candidatos da terceira via chegou a 11% nesta pesquisa, contra 22% em maio de 2022, o que demonstra a tendência de migração dos votos para a polarização.

Nessa rodada de agosto, Bolsonaro apresentou um crescimento, provavelmente fruto dos impactos da “PEC do Desespero” ou “PEC da Compra de Votos” – aumento do Auxílio Brasil e do subsídio de gás e combustível – mas que ainda é insuficiente para alterar a conjuntura eleitoral.

Tendo em vista tal regularidade da disputa eleitoral, nosso monitoramento se voltou para as disputas de governos estaduais, que são de extrema importância para a democracia brasileira e que estão em segundo plano diante da dramaticidade da disputa presidencial de 2022. Nosso objetivo, nesse primeiro monitoramento da corrida eleitoral nos Estados, é apresentar o quadro das principais candidaturas a partir dos partidos e da divisão ideológica em quatro campos que, no geral, correspondem às coligações presidenciais. Embora a seleção se baseie nas pesquisas eleitorais, não faremos nenhuma análise sobre chances de vitória de qualquer candidato. Esse mapa dos possíveis vencedores será apresentado no próximo texto. O quadro 2 apresenta a divisão partidária e ideológica:

7 Eleitores votam no segundo turno das eleições para prefeito na Escola Municipal de Ensino Fundamental Celso Leite Ribeiro Filho, na Bela Vista, em SP. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Quadro 2 – Divisão Partidária e Ideológica

Campo ideológico Partidos
Direita bolsonarista PL, PP, Rep, PTB, PSC, Novo
Direita tradicional MDB, PSDB, Cid, Pod, PSD, UB, Pat
Esquerda lulista PT, PC do B, PV, PSOL, Rede, PSB, Agir, Av, SD, Pros
Esquerda não lulista PDT

Fonte: Elaboração própria

 

O primeiro campo é a direita bolsonarista, com o Partido Liberal (PL), o Partido Progressista (PP) e o Republicanos (Rep), que sustentam a candidatura de Bolsonaro e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que lançou Roberto Jefferson, notório apoiador do presidente e o Partido Social Cristão (PSC), uma das agremiações cogitadas por Bolsonaro quando estava sem filiação partidária, e o Partido Novo.

O segundo campo é a direita tradicional, que tem o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), o Cidadania (Cid) e o Podemos (Pod), que apoiam Simone Tebet. Esse campo conta ainda com o Partido Social Democrata (PSD), o União Brasil (UB) e o Patriotas (Pat).

O terceiro campo é a esquerda lulista, com o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Comunista do Brasil (PC do B), o Partido Verde (PV), o Partido do Socialismo e da Liberdade (PSOL), a Rede Sustentabilidade (Rede), o Partido Socialista Brasileiro (PSB), o Solidariedade (SD), o Partido Republicano da Ordem Social (Pros), o Agir e o Avante (Av). Sabemos que alguns desses partidos não se enquadram à esquerda do espectro ideológico, mas como todos apoiam Lula formalmente, optamos por manter essa classificação.

Por fim, há a esquerda não lulista, composta pelo Partido Democrático Brasileiro (PDT), que tem Ciro Gomes como candidato a presidente.

 

A emergência do PL como principal partido da direita brasileira

Como é sabido, em 30 de novembro de 2021 o presidente Jair Bolsonaro se filiou ao PL, uma das principais agremiações do chamado “Centrão” e partido do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, que protegeu o mandatário contra todos os pedidos de impeachment.

Bolsonaro ganhou um partido com capacidade de montar uma estratégia eleitoral interna ao sistema político, algo que vai no caminho oposto ao que levou o capitão à vitória em 2018. Naquela ocasião, o atual presidente era filiado a um partido nanico, o PSL e se apresentava como candidato antissistema. Agora, com 4 anos de governo, Bolsonaro não pode repetir a estratégia outsider e, por isso e por ter sido incapaz de fazer seu próprio partido, aderiu a um partido tradicional.

Em troca, o PL ganhou um poder de atração inédito, algo que o partido não tinha nem quando ocupou a vice-presidência de Lula com José Alencar, entre 2003 e 2010. Em um primeiro momento, isso se verificou no crescimento da bancada na Câmara, que saltou de 42 para 77 deputados, se tornando a maior da casa.

Nos meses seguintes, a estratégia de crescimento do PL se voltou para a montagem de palanques estaduais fortes e o resultado é que o partido tem o maior número de candidatos posicionados nas primeiras posições, somando todos os Estados, com 15 candidaturas. O objetivo do partido é se aproveitar da polarização nacional entre Lula e Bolsonaro para ocupar o lugar que cabe ao campo da direita nas disputas estaduais. Em muitos casos, não se tratam de candidaturas para vencer, mas sim para ocupar um campo político e, com isso, ajudar tanto na campanha de Bolsonaro quanto na eleição de parlamentares federais e estaduais. É o que ocorre, por exemplo, no Espírito Santo.

Atrás do PL em número de candidaturas está o UB, fruto de uma fusão entre o Democratas e o PSL. Ou seja, nem dois partidos juntos chegam ao patamar do partido do presidente em número de candidaturas. Destaca-se ainda o baixo número de candidaturas competitivas do PP e do Rep (5 somando os dois) que, embora tenham crescido na Câmara Federal com a adesão de parlamentares bolsonaristas, não repetiram o mesmo feito na disputa dos Estados.

 

Quadro 3 – Mapa das Candidaturas competitivas por partidos de direita

Partido Número de Candidatos bem posicionados
PL 15
UB 10
PSD, MDB 7
PSDB 6
PP, Pod 3
Rep 2
Novo, Pat, PTB, PSC 1

Fonte: Elaboração própria

 

Outro elemento que chama atenção é a distribuição regional. Somente o PL e o PSD têm candidaturas em todas as regiões do Brasil. O MDB, maior partido do Brasil em número de filiados e que várias vezes teve o maior número de governadores eleitos, não tem nenhuma candidatura competitiva nas regiões sul e sudeste. O UB também está ausente da região sudeste e só tem uma candidatura importante na região sul. Por último, vale destacar o caso do PSDB, que já governou ao mesmo tempo São Paulo, Minas e Rio de Janeiro e que hoje só possui uma candidatura importante no Sudeste.

Se entre os partidos a predominância do PL, uma agremiação bolsonarista salta aos olhos, quando somamos todos os partidos pertencentes a cada um dos dois campos a direita tradicional toma a dianteira: são 34 candidatos viáveis na direita tradicional contra 23 da direita bolsonarista.

Isso nos permite projetar um resultado melhor para os partidos da direita tradicional do que para a direita bolsonarista com relação às vitórias eleitorais. Se, como falamos mais acima, o PL lançou candidaturas em muitos estados sem perspectiva de vitória, mas para ocupar o pólo à direita da polarização, os partidos da direita tradicional agem de outro modo, preferindo concentrar esforços onde podem vencer e trabalhando de modo mais cooperativo entre si, priorizando as alianças e coligações em vez de lançar candidatos apenas para ocupar espaço ou marcar posição. Veremos se isso realmente se traduz nas pesquisas no texto do próximo mês.

 

O menor peso do PT como principal partido da esquerda brasileira

A afirmação de que o PT é o principal partido político do Brasil é um consenso acadêmico na ciência política brasileira. Desde o golpe parlamentar de 2016, contra a então presidenta Dilma Rousseff, e a injusta prisão do ex-presidente Lula, em 2018, que muito se falou na crise do petismo. Nesse contexto, surgiram tanto prognósticos de fim definitivo do PT quanto vaticínios de que o partido teria que abrir mão do seu protagonismo na esquerda a partir de uma suposta inviabilidade petista nas eleições majoritárias diante da força do antipetismo. Nada disso aconteceu e o fato é que depois que Lula recuperou seus direitos políticos, em 08 de março de 2021, o PT vem retomando sua força e consolidou mais uma vez  a liderança do pólo à esquerda da polarização.

Desde então, Lula lidera as pesquisas de intenção de voto para presidente e colocou em marcha uma estratégia frentista que passou por duas etapas. Primeiro, constituir uma frente de esquerda, isolando Ciro Gomes e o PDT. Esse objetivo foi cumprido com as alianças com PC do B, PV, PSOL e REDE, além do PSB.

A segunda etapa foi a construção de uma frente ampla democrática que ultrapassasse a esquerda. O mais interessante deste movimento é que Lula primeiro usou um partido do campo progressista para simbolizar essa ampliação, com a filiação ao PSB do ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, quadro histórico do PSDB e duas vezes candidato a presidente contra o PT. Essa parte da estratégia foi fechada com a adesão do SD, Pros, Agir e Avante.

Em paralelo, Lula agiu para montar palanques estaduais competitivos em todos os Estados, de modo a capilarizar ou a frente de esquerda ou a frente ampla, a depender de cada contexto. E, nesta parte da estratégia, ficou nítido o movimento do ex-presidente de diminuir o protagonismo do PT de modo a atrair e consolidar as alianças nacionais a partir de posições de destaque nos palanques estaduais.

No total, o PT lançou 11 candidaturas competitivas aos governos estaduais contra 8 do PSB, partido do campo que vem logo em seguida e que tem tradição de priorizar a conquista do poder executivo nos Estados. O quadro 5 apresenta a distribuição de candidaturas no campo da esquerda:

 

 

Quadro 4 – Total das candidaturas competitivas por partidos de esquerda

Partido Número de Candidatos bem posicionados
PT 11
PSB 8
PDT 4
SD 3
PSOL, PV 1

Fonte: Elaboração própria

O primeiro dado que chama atenção na esquerda é o menor número de candidaturas competitivas, 24 no total, contra 57 da direita tradicional e bolsonarista somadas. Isso, em parte, reflete o predomínio dos partidos de direita no sistema político brasileiro e é o que justifica a estratégia de Lula de buscar ao máximo as alianças. Por outro lado, expressa também a máxima prioridade que a esquerda confere neste pleito à disputa presidencial, em detrimento da conquista dos executivos estaduais. Isso é verdade tanto para a esquerda lulista quanto para a não lulista. O PDT, ao manter Ciro Gomes, se isolou, perdendo a capacidade de liderar o pólo à esquerda em vários estados em que, caso houvesse aliança com o PT, seu protagonismo poderia se impor. Assim, o campo lulista predominou sobre o não lulista com 20 candidaturas viáveis, contra apenas 4 – todas dos trabalhistas – do campo não lulista.

Já com relação ao PT, isso se manifesta no apoio formal a partidos da direita tradicional que estão melhor posicionados nas pesquisas em alguns Estados e que concordam em abrir o palanque para Lula. O caso mais emblemático dessa estratégia é Minas Gerais, onde o PT apoia o PSD para o governo com Alexandre Kalil. Mas essa situação se repete no Pará e em Alagoas, com os petistas apoiando candidatos do MDB. O Estado em que essa estratégia foi mais radicalizada é Mato Grosso, onde o PT apoia um candidato do PP, enquanto o PSB se coligou com um candidato da UB.

Por fim, destacamos a distribuição regional. O PT optou por apresentar somente um candidato competitivo no sudeste, justamente no Estado mais importante do Brasil e berço do partido, São Paulo. E não tem nenhuma candidatura competitiva na região Norte, enquanto o PSB ficou sem ocupar nenhum espaço importante na região sul.

No próximo boletim analisaremos as chances de vitória em cada estado para mapear quais campos possuem mais condições de se saírem vitoriosos das disputas nos Estados.

 

Josué Medeiros é cientista político e professor da UFRJ e PPGCS – UFRRJ.

 

Este artigo faz parte da quinta edição do boletim do Monitoramento Eleitoral 2022 do Observatório Político e Eleitoral. Leia todos os artigos clicando aqui


Artigos Relacionados

O AGRO NÃO PRODUZ COMIDA, PRODUZ FOME

Por que podemos dizer que agro é fome?

por Yamila Goldfarb
O agro não produz comida, produz fome

As doenças do capitalismo e a luta contra o agronegócio

por Allan Rodrigo de Campos Silva
OPINIÃO

Por que Lula? Nem caserna, nem casa-grande

Online | Brasil
por Berenice Bento
AMAZÔNIA OCUPADA #3

Madeira da Amazônia: normas avançam, mas só 10% da extração é regular

Online | Brasil
por Felipe Betim
CHILE – LIÇÕES DE UMA DERROTA

Jogar o jogo: nove parágrafos para uma nova força transformadora

por Jorge Arrate
O RETUMBANTE TRIUNFO DO REJEITO NO PROJETO CONSTITUCIONAL

No Chile, o futuro que nos escapou

por Álvaro Ramis
QUAL É O PLANO?

Programa de Bolsonaro quase assume a responsabilidade pela tragédia na educação

por Antonio Carlos Souza de Carvalho
GUILHOTINA

Guilhotina #184 - Jorge Chaloub