Medo e superstição no Brasil contemporâneo

BASE PARA O AUTORITARISMO

Medo e superstição no Brasil contemporâneo

por Kelen Vanzin
18 de agosto de 2022
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A depender da campanha de Bolsonaro, os discursos religiosos serão cada vez mais fervorosos em nome de “Deus” e o maniqueísmo tomará conta das eleições presidenciais

O discurso religioso toma conta do cenário político e dá o tom neste início de campanha presidencial de 2022 no Brasil. Durante convenção do PL, em 24 de julho, que lançou Jair Bolsonaro à reeleição, chamou a atenção o enunciado: “liberdade, verdade e fé pelo bem do Brasil”. Na ocasião, Bolsonaro iniciou seu discurso afirmando: “obrigado meu Deus pela minha 2ª vida e pela missão de ser presidente dessa nação”. Na sequência, a primeira-dama Michelle Bolsonaro anunciou: “ele é um escolhido de Deus, ele é um escolhido de Deus”, enquanto resgatava em seu discurso a saga do atentado sofrido por Bolsonaro em Juiz de Fora (MG), em 2018, a rotina do casal no Palácio do Planalto e suas orações no gabinete da Presidência.

A depender da campanha de Bolsonaro, os discursos religiosos serão cada vez mais fervorosos em nome de “Deus” e o maniqueísmo tomará conta das eleições presidenciais. O vazio argumentativo piora ainda mais o cenário já precário e polarizado. A política do Brasil do século XXI parece regressar à época do poder sagrado dos reis medievais e sua unção. Em seu Tratado Teológico-político, o filósofo Spinoza relaciona o medo à superstição diante da incerteza dos acontecimentos, o que faz os homens oscilarem. Ele é a causa que origina, conserva e sustenta a superstição, argumenta o filósofo:

“Todos eles, designadamente quando correm perigo e não conseguem por si próprios salvar-se, imploram o auxílio divino com promessas e lágrimas de mulher, chamam cega à razão (porque não pode indicar-lhes um caminho certo para as coisas vãs que eles desejam) e vã à sabedoria humana; em contrapartida, os delírios da imaginação, os sonhos e as extravagâncias infantis, parecem-lhes respostas divinas.” (SPINOZA, 2004, p. 126)

Crédito: Isac Nóbrega/PR

O medo é uma grande base para o autoritarismo. Em “Origens do totalitarismo”, Hannah Arendt (2013) aprofunda o entendimento da relação entre ideologia e terror como uma nova forma de governo, um sistema totalitário, em que há o domínio total do poder por um único superpartido e pela figura de um ditador, o Líder, que exerce um monopólio de poder, cujas ordens devem ser sempre obedecidas tanto no partido (espécie de organização de propaganda de governo) quanto no Estado como ocorrido nos governos de Hitler e Mussolini.

No Brasil, passados mais de trinta anos desde a redemocratização, a ideologia autoritária de extrema-direita regressou ao poder trazendo medo e superstição como estratégia. Já, no primeiro dia de campanha, 16 de agosto, em Juiz de Fora, Bolsonaro espalhou a volta do socialismo/comunismo no Brasil e Michelle apelou para o “milagre” que ocorreu com o marido. Medo, superstição, desinformação ganham, cada vez mais, espaço na esfera pública.

O enunciado de campanha “liberdade, verdade e fé pelo bem do Brasil” leva a muitos questionamentos. De acordo com a Análise de Discurso materialista de Pêcheux, as palavras assumem diferentes sentidos e direções conforme as condições de produção e os interesses em jogo. Assim, terá o item lexical “liberdade” o mesmo efeito de sentido para Bolsonaro e para o PL? Partido este que lhe acolhe no momento e que destaca em seu programa a realização de uma sociedade livre, pluralista e participativa. Desde seu discurso de posse em 2019, Bolsonaro se propõe a exterminar seus adversários, vistos como inimigos, cujas ideologias devem ser “varridas”.

O autoritarismo pesa sobre a “verdade” que é imposta aos “irmãos” eleitores: “é só você obedecer, obedecer aos mandamentos do Senhor, orai pelas autoridades instituídas, e tudo vai dar certo”, garante a primeira-dama. Basta ter fé em Bolsonaro, pois ele é o “escolhido de Deus”. A imposição da cegueira e da fuga da razão ao povo brasileiro por meio do discurso autoritário-religioso busca o seu enraizamento no poder de Estado, por ora com o projeto de reeleição.

 

Kelen Vanzin, jornalista, é doutoranda em Linguística (PPGLETRAS-UFPR).

 

Referências

SPINOZA, B. Tratado Teológico-político. Trad: Diogo Pires Aurélio. 3ª edição. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2004.

Discurso de Bolsonaro – convenção do PL, 24/07/2022. Disponível em: https://www.poder360.com.br/eleicoes/leia-a-integra-do-discurso-de-bolsonaro-no-maracanazinho/.

Discurso de Michelle Bolsonaro – convenção do PL, 24/07/2022. Disponível em: https://www.poder360.com.br/eleicoes/leia-e-assista-ao-discurso-de-michelle-na-convencao-do-pl/.



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