NO CENTRO DO SURTO

Mpox em Serra Leoa, na África Ocidental

O que está em jogo não é apenas conter a transmissão, mas enfrentar as desigualdades históricas que moldam as vulnerabilidades e que, ciclicamente, reaparecem a cada novo surto

Em Serra Leoa, a estatística se tornou carne e ferida. Entre 23 e 30 de junho de 2025, o país registrou 29 novos casos diários de Mpox, doença viral antes chamada de “varíola dos macacos”. Uma enfermidade envolta por estigmas. A emergência foi declarada em janeiro, e todos os 16 distritos do país registraram casos, somando mais de 4 mil notificações. Mas o número frio não revela as histórias, os silêncios e os percursos de sofrimento que atravessam essa epidemia. 

As ruas de Freetown, capital de mais de 1 milhão de habitantes, são um mosaico de tráfego intenso e encontros efêmeros. Nas zonas mais densamente povoadas, a doença encontrou terreno. O contágio é alimentado por uma combinação conhecida: falta de informação, medo do isolamento e barreiras econômicas e culturais para acessar serviços de saúde. A Mpox, endêmica em parte da África Ocidental e Central, se transmite por contato próximo entre pessoas ou entre humanos e animais. Quando não tratada a tempo, pode levar a complicações graves e até à morte, sobretudo em pessoas vulnerabilizadas ou fragilizados por outras doenças. 

No Centro de Tratamento de Calaba Town, inaugurado com o apoio de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em junho, chegam pacientes em estágios avançados: corpos cobertos por bolhas dolorosas, órgãos genitais lesionados a ponto de impedir o sono, a marcha e até a posição sentada. “Me sinto péssima ao vê-los sofrendo”, confessa Agnes Dama, médica de MSF e coordenadora da resposta de emergência no país, que também trabalhou no combate ao Ebola em 2014. O tratamento, gratuito, é acompanhado de aconselhamento psicossocial, condição indispensável para que as pessoas aceitem o diagnóstico e retomem alguma perspectiva de futuro. 

Mas não basta abrir leitos hospitalares. A resistência em procurar atendimento é marcada pelo medo de ser visto entrando em uma ambulância, pela recusa em revelar o resultado do exame à família, pelo receio de ser associado à sexualidade estigmatizada. Fátima, mãe de um bebê de apenas um mês, esconde da comunidade que o filho está infectado. Isha, 20 anos, fugiu do hospital para evitar que a tia descobrisse que ela era sexualmente ativa. Michael recusou a ambulância e chegou por conta própria para não expor o endereço. São histórias que expressam como a doença é mediada não apenas por um vírus, mas por vergonha, estigma e preconceito. 

Crédito: NIAID/Flickr

A resposta estatal e humanitária envolve campanhas de vacinação direcionadas a grupos de maior risco, treinamento de equipes, fornecimento de suprimentos e reabilitação de alas de isolamento em hospitais-chave. MSF, junto ao Ministério da Saúde local, atua também no rastreamento de contatos, no fortalecimento de laboratórios e no trabalho comunitário. Ainda assim, o enfrentamento é dificultado por um paradoxo: as mesmas comunidades que precisam de acolhimento são, muitas vezes, aquelas em que a linguagem biomédica não alcança, onde prevalecem explicações tradicionais, tratamentos caseiros e um senso de autoproteção contra a intervenção externa. 

A epidemia de Mpox em Serra Leoa é um lembrete incômodo de que as emergências sanitárias não se esgotam na dimensão biológica. O que está em jogo não é apenas conter a transmissão, mas enfrentar as desigualdades históricas que moldam as vulnerabilidades e que, ciclicamente, reaparecem a cada novo surto. No país, como em tantas outras geografias do Sul global, o cuidado é atravessado por disputas de sentido: o que significa estar doente? Quem pode cuidar? Quem merece ser cuidado? 

A cada paciente que aceita o tratamento, abre-se uma brecha contra a lógica do abandono. E talvez seja nessa brecha, onde cabem a escuta, o reconhecimento e o respeito aos modos de vida locais, que resida a possibilidade de enfrentar não apenas a Mpox, mas o próprio ciclo de invisibilização que sustenta crises como essa. 

Em meio a tentativas de respostas ao surto, alguns pacientes compartilham suas histórias às equipes de MSF: 

Fátima, mãe do bebê Wilson, de 1 mês de vida 

“Acordei uma manhã e encontrei algumas partes inchadas na pele do meu bebê. Ele também teve febre, então o levei à unidade de saúde da minha comunidade onde dei à luz. Ele adoeceu em maio, e tinha apenas duas semanas de vida na época. No hospital, me disseram que era apenas uma erupção cutânea e deram uma pomada para aplicar na pele dele. Usei essa pomada durante alguns dias e depois retornei ao hospital para obter o cartão de vacinação para menores de cinco anos. Quando estava lá, uma enfermeira reparou que a erupção cutânea tinha se espalhado para o pé, por isso decidiram fazer um teste para detectar a Mpox. Colheram uma amostra e nos mandaram para casa. No dia seguinte, recebi um telefonema e me disseram que o meu bebê tinha testado positivo para a doença. Disseram que estavam trabalhando com o Ministério da Saúde e que queriam vir à minha casa para vacinar as pessoas com quem convivo. Moro com minha mãe e minhas irmãs num conjunto de apartamentos na zona oeste de Freetown. Fiquei feliz quando os profissionais de saúde vieram à minha casa para aplicar a vacina vestindo roupas normais. Eles não pareciam profissionais de saúde, então as pessoas na minha comunidade não sabem que meu bebê tem Mpox. Apenas meus vizinhos próximos que receberam a vacina sabem. Eu estava preocupada que eles ficassem com medo de mim e do meu filho. Eles nos levaram para o centro de tratamento de MSF na cidade de Calaba, e os profissionais de saúde estão cuidando dele. Não sei o que vai acontecer. Estou com medo. Ele é tão pequeno e é meu único filho. Já dei à luz dois filhos antes, mas ambos morreram quando eram bebês. Estou muito confusa. Ninguém em casa está doente, apenas o bebê.” 

Umu, 25 anos 

“Começou como uma erupção cutânea nos genitais, então pensei que fosse uma infecção comum, porque já tinha tido antes. Quando começou a coçar, fui à farmácia e me deram um remédio e uma injeção. Já tinha ouvido falar sobre a Mpox e sabia que, se você tiver, vai ter bolhas na pele e febre. Eu não tive febre, apenas uma erupção cutânea, então não achei que fosse a doença. Após cinco dias, a erupção cutânea se transformou em inchaços e comecei a pensar que poderia ser Mpox. Fui ao hospital em Jui e fiz o teste. Então, uma ambulância veio me buscar e me levou ao centro de tratamento em Calaba. Quando vi a ambulância, não precisaram me dizer nada. Eu sabia o que isso significava: eu tinha testado positivo. Estou no centro há uma semana e minha condição mudou. Não tinha protuberâncias por todo o corpo, apenas nos genitais, o que dificultava andar. Eu rastejava no chão quando precisava me mover, e urinar era muito doloroso. Toda vez que via as feridas, ficava muito desanimado. Ainda sinto dor, mas não é como antes. Agora, só sinto dor ao urinar. Na maioria das noites, não conseguia dormir por causa da dor. Se não fosse pelo aconselhamento neste centro, ainda estaria deprimido. Não estou feliz agora, mas acho que vou ficar bem. 

 

Este artigo foi produzido em colaboração com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras. 

 

Roger Flores Ceccon é professor da Universidade Federal de Santa Catarina. 

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