Mulheres, ancestralidade e práticas de resistência
Escrever sobre os territórios amazônicos significa também reconhecer que muitas histórias permanecem vivas na oralidade

Introdução
Nos territórios tradicionais amazônicos as comunidades quilombolas, extrativistas e ribeirinhas constroem formas próprias de organização da vida sustentadas pela coletividade, pela ancestralidade e pela relação de cuidado com a natureza. Nesse contexto, o Bem Viver não é apenas um conceito político, mas uma prática cotidiana de reexistência construída através das relações comunitárias, da solidariedade e do cuidado com a Natureza. Conforme afirma Ibáñez (2016, p. 2), o Bem Viver ultrapassa uma simples posição política e propõe uma reflexão profunda sobre o sentido da vida e da convivência humana: “quando falamos do Bem Viver, não fazemos só um debate sobre a minha posição política frente a uma situação; mas sobre qual é o meu lugar no entendimento da própria vida, das relações, da convivência. É um debate desde outro lugar de fala, que coloca em questionamento o todo”. A valorização da diversidade é um dos fundamentos do Bem Viver. Nesse sentido, Ibáñez (2016, p. 6) afirma que “um elemento-chave do Bem Viver é que ele não é possível sem diversidade e pluralidade; não existe um modelo único de Bem Viver”. Tal compreensão reconhece a legitimidade das múltiplas formas de viver, produzir conhecimento e organizar a vida coletiva existentes nos territórios amazônicos. Neste aspecto dialoga com as práticas desenvolvidas pelas Associações Comunitárias acompanhadas pela REPAM-Brasil nos territórios amazônicos.
A REPAM-Brasil tem se destacado como uma rede que olha para as mulheres e as coloca na roda da construção do conhecimento para ouvi-las e traduzir as histórias dos corpos em movimento pela justiça climática e pelo Bem Viver. Nesse caminho, as Associações Comunitárias se configuram como espaços educativos que formam através das histórias que atravessam os corpos das mulheres e da própria Mãe Natureza.
As experiências comunitárias revelam que os processos educativos nos territórios acontecem para além das estruturas formais de ensino. A aprendizagem nasce da convivência, da oralidade, das práticas coletivas, da espiritualidade e das escrevivências construídas no cotidiano das comunidades. Conforme aponta Conceição Evaristo, “a escrevivência não pode ser lida como histórias para ‘ninar os da casa-grande’ e sim para incomodá-los em seus sonos injustos” (2020, p. 30). A escrita nasce, portanto, como denúncia, memória e resistência coletiva.
Ao refletir sobre os processos de memória e oralidade, Martins afirma que “a oralitura não é apenas um repertório de fala, mas um modo de inscrição do conhecimento no corpo e na experiência coletiva” (2003, p. 78). Nos territórios amazônicos, os corpos carregam histórias, rezas, cantos, modos de plantar, pescar, cuidar e resistir. O conhecimento circula nas rodas de conversa, nas assembleias comunitárias, nas celebrações e nos mutirões realizados coletivamente.

Nesse sentido, escrever sobre os territórios amazônicos significa também reconhecer que muitas histórias permanecem vivas na oralidade. Como destaca Martins (2003, p. 80), “o corpo em performance torna-se lugar de memória”. Assim, as práticas comunitárias desenvolvidas pelas Associações representam formas vivas de transmissão de saberes ancestrais e fortalecimento da identidade coletiva. Por essas práticas nascerem da oralidade, da convivência e das experiências compartilhadas, surge, então, o desafio de transformar vivências, afetos, memórias e processos coletivos em indicadores capazes de dialogar com as exigências institucionais sem perder a profundidade das experiências vividas nos territórios. É nesse contexto que os debates sobre indicadores sociais, sistematização de experiências e avaliação participativa tornam-se fundamentais para compreender os impactos produzidos pelas iniciativas comunitárias amazônicas.
Indicadores, resultados e os desafios da sistematização

Traduzir números em histórias e histórias em números continua sendo um dos maiores desafios nos processos de monitoramento e avaliação de projetos sociais desenvolvidos em territórios tradicionais. Muitas vezes, os impactos mais profundos das ações comunitárias não aparecem imediatamente nos indicadores quantitativos, mas se revelam no fortalecimento dos vínculos comunitários, na valorização das lideranças femininas, na permanência dos jovens nos territórios, na recuperação da autoestima coletiva. Nesse contexto, pensar os indicadores sociais exige compreender que eles não são instrumentos neutros ou meramente técnicos. Conforme afirma Valarelli (2007, p. 13), “um sistema de indicadores é sempre resultado de um processo de diálogo e negociação entre os diferentes sujeitos envolvidos”. O autor ressalta que cada organização social possui “uma leitura dos problemas sociais, de suas causas e possíveis soluções; possui valores próprios e atribui para si uma missão ou papel na resolução destes problemas” (2007, p. 14).
Assim, os indicadores refletem também disputas de sentidos, concepções de desenvolvimento e diferentes compreensões sobre transformação social. Nas comunidades tradicionais amazônicas, os resultados não podem ser reduzidos apenas a metas numéricas ou produtos entregues. Muitas transformações acontecem no campo simbólico, afetivo, político e cultural, atravessando os corpos, os territórios e as relações comunitárias. Como aponta Valarelli (2007, p. 18), “os indicadores precisam dialogar com os objetivos estratégicos da organização e com a realidade concreta onde as ações acontecem”. Isso significa reconhecer que os territórios tradicionais possuem dinâmicas próprias de organização, produção de conhecimento e construção coletiva da vida.
A perspectiva apresentada pela Fiocruz amplia ainda mais essa reflexão ao afirmar que os processos de monitoramento e avaliação precisam ultrapassar a lógica puramente quantitativa. O documento da instituição, considera “avaliar não é apenas medir resultados, mas produzir sentidos sobre os processos vividos” (2020, p. 8). Dessa forma, a avaliação passa a ser compreendida como um exercício coletivo de interpretação da realidade, capaz de reconhecer os significados das experiências construídas pelas comunidades. O relatório ainda destaca que os processos avaliativos precisam considerar “os aspectos subjetivos, políticos e culturais presentes nas práticas sociais” (2020, p. 10). Essa reflexão dialoga diretamente com os territórios amazônicos, onde grande parte das experiências comunitárias se constrói através da oralidade, da memória coletiva, das espiritualidades, das relações de parentesco e das práticas de solidariedade.
Logo, o monitoramento deixa de ser apenas um instrumento burocrático de prestação de contas e passa a se constituir como ferramenta de fortalecimento comunitário, produção de memória e valorização das experiências locais. Fotografias, vídeos, rodas de conversa, testemunhos, atas comunitárias, relatos orais e registros coletivos tornam-se importantes instrumentos de sistematização das experiências vividas nas comunidades.
Nos territórios da oralidade, o exercício da escrita e da sistematização ainda representa um desafio permanente. Muitas experiências acontecem de forma intensa e transformadora, mas permanecem guardadas na memória coletiva e nos testemunhos das comunidades. Como afirma Evaristo (2020, p. 35), “a nossa escrevivência não é individual, ela nasce de um coletivo”. A escrita nasce, portanto, como extensão da memória coletiva e das experiências compartilhadas pelos sujeitos historicamente invisibilizados.
Ao dialogar com o conceito de oralitura Martins (2023), compreende-se que os saberes produzidos nos territórios não se limitam aos registros escritos. Para Martins (2003, p. 84), “a memória se move no corpo e no rito”. Assim, os corpos das mulheres, das lideranças comunitárias, dos jovens e dos povos tradicionais tornam-se arquivos vivos de experiências ancestrais. Dessa forma, sistematizar experiências comunitárias nos territórios amazônicos significa também reconhecer outras formas de produção do conhecimento, onde números, memórias, narrativas, imagens e oralidades caminham juntas na construção de sentidos sobre os impactos produzidos pelas ações coletivas.
As imagens como narrativas pedagógicas do Bem Viver

Nos territórios tradicionais, o aprender e o ensinar se dão nas relações de convivência, na observação, na escuta e na partilha. Portanto, a educação não se restringe aos espaços formais de ensino, mas se manifesta nos mutirões, nas rodas de conversa, no cultivo da terra, no cuidado com a água e na transmissão oral dos saberes entre as gerações. Como afirma Martins (2003, p. 79), “o conhecimento se inscreve no corpo, no gesto, na memória e na experiência compartilhada”. Dessa forma, os territórios tornam-se espaços vivos de produção de conhecimento e de formação coletiva.
As fotografias produzidas durante a execução do projeto ultrapassam a dimensão documental e assumem um importante papel na construção da memória coletiva das comunidades. As imagens registram práticas de trabalho, organização comunitária, espiritualidade, cuidado com a natureza e processos educativos que atravessam os territórios amazônicos. Nesse sentido, a fotografia torna-se linguagem social e instrumento de sistematização das experiências vividas. Ciavatta, ao discutir as relações entre trabalho, memória e fotografia, afirma que “a imagem fotográfica é uma forma de preservação da memória social e histórica do trabalho humano” (2002, p. 33). As imagens produzidas pelas comunidades revelam exatamente essa dimensão: os modos de vida e as formas coletivas de produção da existência.
A imagem abaixo, retrata o manejo comunitário da piscicultura, evidência o trabalho coletivo como espaço educativo e político. O tanque comunitário representa mais do que produção alimentar; revela práticas de cooperação, partilha de conhecimentos e construção de autonomia territorial. Como destaca Ciavatta (2002, p. 41), “o trabalho produz cultura, memória e identidade”. Assim, os processos produtivos desenvolvidos pelas Associações também se constituem como experiências pedagógicas e espaços de formação humana.

Nessa mesma direção, Kuenzer (1989), compreende o trabalho como princípio educativo por considerar que é através dele que os sujeitos produzem não apenas sua existência material, mas também conhecimentos, valores, cultura e formas de sociabilidade. Segundo a autora, “o trabalho é a mediação entre o homem e a natureza e constitui-se em categoria central para a compreensão dos processos educativos” (1989, p. 21). Nos territórios amazônicos, essa mediação se revela nas práticas coletivas de cultivo da terra, produção de alimentos e preservação ambiental desenvolvidas pelas comunidades.

O trabalho comunitário torna-se, assim, espaço de aprendizagem coletivo, onde o conhecimento é produzido na prática cotidiana, na oralidade e na convivência entre gerações. Crianças, jovens, mulheres e lideranças aprendem juntos nos mutirões, nas rodas de conversa, nos viveiros comunitários e nas experiências produtivas construídas coletivamente. Como ressalta Kuenzer (1989, p. 23), “o trabalho educa na medida em que insere os sujeitos nas relações sociais e nos processos históricos de produção da vida”.

Essa perspectiva dialoga também com os estudos sobre aprendizagem coletiva e comunidades, que compreendem o aprendizado como processo socialmente construído através das interações e experiências compartilhadas. Nesse sentido, Mourão e Vilela (2012, p. 58) afirmam que “o aprendizado coletivo ocorre na troca de experiências, na cooperação e na construção conjunta de significados entre os sujeitos”. As mulheres aparecem como protagonistas desses processos formativos, conduzindo práticas de cuidado, resistência e transmissão de conhecimentos ancestrais.
Deste modo, as escrevivências se manifestam não apenas na escrita, mas nos próprios corpos, nas práticas cotidianas e nos modos de ensinar e aprender em comunidade. Como explica Evaristo (2020, p. 35), “a nossa escrevivência não é individual, ela nasce de um coletivo”. Assim, os territórios se tornam-se espaços vivos de produção de saberes, memórias e pedagogias comunitárias.
Os produtos produzidos pelas famílias representam geração de renda, fortalecimento da agricultura familiar. Ao mesmo tempo, revelam processos pedagógicos construídos no cotidiano do trabalho comunitário, onde produzir alimento significa também ensinar, aprender e fortalecer identidades culturais.

Como afirma Ciavatta (2002, p. 35), “as imagens permitem revelar aspectos da vida social e do trabalho que muitas vezes os documentos escritos não conseguem registrar”. Nesse sentido, as fotografias tornam-se importantes instrumentos de leitura da realidade social, nos ajudando a contar histórias que os números sozinhos não conseguem traduzir.
Números que falam e contam histórias
Os resultados alcançados nessa primeira fase do projeto demonstram a dimensão do trabalho coletivo construído junto às comunidades:
- 09 Associações Comunitárias fortalecidas em territórios tradicionais;
- 32 comunidades quilombolas e extrativistas alcançadas;
- 841 famílias envolvidas nas ações do projeto;
- 718 mulheres fortalecendo práticas de solidariedade, organização e sustentabilidade;
- 521 homens participando dos processos comunitários e produtivos;
- 265 jovens integrados nas rodas de conversa, articulações e ações do Bem Viver;
- 06 rodas de conversa realizadas, promovendo escuta, partilha e construção coletiva;
- 01 rede comunitária ativa no grupo Bem Viver, fortalecendo vínculos, trocas de experiências e esperança entre os territórios.
Mais do que números, esses dados representam histórias de resistência, organização comunitária e fortalecimento da vida nos territórios amazônicos.
Considerações finais
E talvez seja essa a maior lição que os territórios amazônicos continuam ensinando à REPAM-Brasil e a tantas outras instituições: a vida não se sustenta sozinha. Ela precisa de comunidade, de partilha, de memória e de cuidado. As mulheres amazônidas seguem como rios às vezes silenciosas na superfície, mas profundamente fortes em suas correntezas. Carregam nos corpos as marcas da luta e, ao mesmo tempo, a delicadeza de quem transforma farinha em sustento, ervas em cura, palavra em acolhimento e resistência em esperança coletiva. Nos territórios, o Bem Viver não aparece como teoria distante. Ele nasce no barro dos roçados, nas águas dos açudes, nos viveiros comunitários, nas rodas de conversa, nos quintais produtivos e nas mãos calejadas das mulheres que insistem em semear futuro mesmo diante das ausências de políticas públicas de proteção dos seus territórios.
As experiências construídas pelas Associações Comunitárias demonstram que os processos educativos nos territórios amazônicos acontecem na coletividade, na oralidade, no trabalho compartilhado e nas práticas cotidianas de cuidado com a vida. Mulheres, jovens, lideranças e famílias inteiras seguem transformando os territórios em espaços vivos de aprendizagem, resistência e produção de conhecimentos ancestrais. Nesse caminho, as fotografias, as memórias, os testemunhos e as escrevivências tornam-se instrumentos fundamentais para registrar aquilo que muitas vezes os indicadores quantitativos não conseguem traduzir.
Os territórios tradicionais amazônicos seguem ensinando outras formas de existir, produzir e cuidar da Casa Comum. São experiências que desafiam modelos individualistas de desenvolvimento e dão exemplos de práticas sustentadas pela solidariedade, pela reciprocidade e pelo pertencimento coletivo. Mais do que números, os resultados deste trabalho revelam histórias de luta, organização comunitária, fortalecimento das mulheres e defesa da vida nos territórios. São essas mulheres que continuam ensinando que a floresta também educa, que os rios também escrevem memórias e que a luta coletiva segue sendo uma das mais bonitas formas de defender a vida, a dignidade e a esperança nos territórios amazônicos.
Arlete Gomes dos Santos é Pedagoga quilombola, educadora popular e gestora de projetos socioambientais, com trajetória dedicada à educação, à valorização de saberes tradicionais e à promoção de justiça socioambiental. Mestra em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF, 2025), com pesquisa Intitulada – Os desafios do trabalho e Educação nas áreas ribeirinhas: uma análise sobre a Amazônia afuaense – Licenciada em Pedagogia e Graduada em Serviço Social (Universidade São Francisco, 2008), Especialização em Juventude pela Universidade Católica de Goiás (2013) E-mail: [email protected]
Referências
CIAVATTA, Maria. O mundo do trabalho em imagens: memória, história e fotografia. Psicologia & Sociedade, Belo Horizonte, v. 14, n. 2, p. 33-54, 2002.
EVARISTO, Conceição. Escrevivência: a escrita de nós. Belo Horizonte: Nandyala, 2020.
IBAÑEZ, Mario Rodríguez. Conversatório sobre o Bem Viver–desafios do fazer político em nosso tempo. Rev. Ponto de Debate, n. 4, 2016.
KUENZER, Acácia Zeneida. O trabalho como princípio educativo. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 68, p. 21-28, fev. 1989.
MARTINS, Leda Maria. “A oralitura da memória”. In: FONSECA, Maria Nazareth Soares (Org.). Brasil afro-brasileiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. p. 75-85.
MOURÃO, Luciana; VILELA, Elaine. Aprendizagem coletiva nas organizações e comunidades de prática. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, Florianópolis, v. 12, n. 1, p. 55-70, 2012. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/pdf/rpot/v12n1/v12n1a04.pdf. Acesso em: 21 maio 2026.

