Música Country: os acordes do novo conservadorismo norte-americano - Le Monde Diplomatique

ESTADOS UNIDOS

Música Country: os acordes do novo conservadorismo norte-americano

por Sylvie Laurent
4 de janeiro de 2012
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A música country, nascida nos estados do sul, espalha seu sotaque fora de moda, evocando um cowboy mal-ajambrado, e conquista o universo cultural de todos os Estados Unidos. Não é por outra razão que dois dos três álbuns mais vendidos de 2010 foram de artistas countrySylvie Laurent

As articulações republicanas para definir um candidato às eleições de 2012 não conseguiram ocultar o fato de que o presidente atual também está engajado em uma campanha de sedução, destinada sobretudo a convencer aqueles que não votaram nele em 2008.

Com essa motivação, no dia 21 de novembro de 2011, o casal Obama organizou um festival de música country na Casa Branca, rebatizada para a ocasião de “Casa do Povo”, com a presença de estrelas como James Taylor, Lyle Lovett e Dierks Bentley. Nesse evento, o presidente revelou ter aprendido, ao longo dos encontros com seus concidadãos, a também apreciar essa música “que lhe é tão cara”.

Não faltou elegância a essa iniciativa. Ocorre que essa forma privilegiada da cultura popular da América branca, habitualmente desprezada pela fina flor de Washington, é identificada como um espaço simbólico da direita: ódio ao Estado, desconfiança em relação às minorias e denúncia das elites urbanas. É sem dúvida uma iniciativa em que o presidente Barack Obama se aventura em terras mais dominadas pelo movimento Tea Party do que pelos democratas – sobretudo negros e diplomados de Harvard.

Esse estilo de música é identificado com a afirmação de velhos ressentimentos de homens brancos apegados às suas raízes, reencontrando um americanismo que acreditavam desviado e corrompido, em um patriotismo exacerbado que tem uma longa história. Obama compreendeu perfeitamente que esse estilo musical não seria capaz de ser privilégio do partido republicano; ao contrário, ele se identifica mais com as caricaturas de “rednecks”.1 A música country, nascida nos estados do sul, espalha seu sotaque fora de moda, evocando um cowboy mal-ajambrado, e conquista o universo cultural de todos os Estados Unidos.

Não é por outra razão que dois dos três álbuns mais vendidos de 2010 foram de artistas country: atrás do cantor de rap Eminem, encontra-se Need you now, do grupo Lady Antebellum, seguido por Taylor Swift e seu álbum Speak now. Os dois totalizaram cerca de 6 milhões de álbuns vendidos.

Desde o início de sua carreira, Taylor Swift já teria vendido mais de 20 milhões de discos. No cinema, o gênero ganhou igualmente títulos de nobreza depois que o filme biográfico do cantor Johnny Cash, Walk the line [no Brasil, Johnny e June], ganhou um Oscar em 2005. Quatro anos depois, o filme Crazy heart [Coração louco], que narra as errâncias de um ex-cantor country alcoólatra e solitário, foi adulado pela crítica, enquanto Country strong [Onde o amor está], de 2010, atingiu um vasto público. É ainda mais significativo que, em abril de 2011, uma das maiores estrelas de rhythm and blues (R&B) do país, a cantora negra Rihanna, tenha sido convidada para o Country Music Awards – considerado até então o máximo do mau gosto –, testemunhando o atual “momento” country dos Estados Unidos.

A música country tem suas raízes em um mundo rural norte-americano isolado onde, no início do século XX, alguns produtores experientes descobriram as old time songs [canções de antigamente], que supostamente encarnavam a verdadeira alma do país. Se as primeiras gravações datam do início dos anos 1920, alguns historiadores e etnomusicólogos remontam sua existência à Guerra de Independência.2 As baladas e cantos folclóricos com instrumentação típica (guitarra, banjo, voz) e palavras melancólicas seduziram sobretudo o coração dos Estados Unidos rural, em particular depois da Grande Depressão.

Se os negros oprimidos têm o blues, as comunidades rurais das montanhas ou das planícies têm a música country, às vezes chamada hillbilly blues: o “blues dos caipiras”, que expressa o ideal pastoral dos pioneiros, a visão mítica de um sul branco, popular, preservado das corrupções do mundo e que apela a um nacionalismo jacksoniano ultrapassado.3

Após a dolorosa derrota de 1865, a nostalgia impregnada de amargura de um sul vencido constituiu o pano de fundo do que se tornaria a música country: a trilha sonora de um patriotismo norte-americano contrariado. Ela foi frequentemente brandida como uma arma e um escudo diante da ameaça de diluição da identidade nacional, conceito hipócrita na medida em que existe, na realidade, uma variedade infinita no seio do próprio gênero musical.

 

A modernidade texana

Não sem ironia, o Texa s, ao produzir cantores com aparência de maus rapazes, introduziu a modernidade na tradição. Mas é a minoria mais conservadora que influencia os espíritos. Em 1969, o legendário título “Okie from Muskogee”, do cantor Merle Haggard,representou uma declaração de ódio a esses hippies de cabelos compridos que, nos campiou nas cidades do norte, levavam, segundo ele, o país à ruína. Haggard, ex-detento e porta-voz dos trabalhadores explorados, poderia ter se tornado um novo Woody Guthrie, cantor folk e bardo socialista da consciência proletária, mas foi tragado por uma época em que os valores morais eram a ordem, a nação e a identidade.

Richard Nixon, ao afirmar em 1974 que essa música do povo “tornava os Estados Unidos melhores”, embrulhou o gênero na bandeira estrelada. Desde então, a música country seduz o país inteiro, mas é fora dos Estados Unidos que ela vende mais. Ronald Reagan afirmou em 1983: “trata-se de uma das raras formas de arte puramente norte-americana, de alma patriótica”.

No entanto, entre os cantores que usavam o chapéu Stetson de cowboy, os mais célebres ficaram longe desse lugar-comum: uns contrários à Guerra do Vietnã ou a favor da legalização das drogas, outros ardentes feministas ou críticos do monopólio de Nashville (Tennessee) sobre a produção country. Mas o marketing hábil das produtoras, ao colocar o gênero na moda introduzindo o rock em seu repertório, garantiu que as rádios divulgassem antes de tudo as mensagens de patriotismo dos “verdadeiros” norte-americanos, as dos pequenos hipócritas esquecidos.

O Texas se tornou a terra de predileção do gênero.4 Bush coroou seu direitismo ao declarar que se tratava de sua música preferida: a retórica da autenticidade e da “solidariedade cultural” se afirmou ainda mais.

Após o 11 de Setembro, os produtores viram na recuperação de símbolos e fetiches do americanismo uma oportunidade para a comercialização de títulos idôneos. Em uníssono com um presidente belicoso, o célebre Toby Keith cantou “Courtesy of the red, white and blue”, prometendo se vingar daqueles que haviam ousado atacar os Estados Unidos.

Em 2003, a estrela de 25 milhões de álbuns vendidos era acompanhada por Willie Nelson ao cantar, em “Beer for my horses”, que os Estados Unidos do povo deviam eles mesmos fazer justiça, como no tempo em que, ao modo texano, enforcavam os representantes das forças do mal. Apesar de algumas reações preocupadas diante dessa nostalgia ambígua, o título permaneceu seis semanas no topo das vendas, tornando-se um dos maiores sucessos de Toby Keith, a ponto de ser adaptado para o cinema em 2008, com o cantor no papel principal.

A confusão entre patriotismo e nacionalismo, entre apologia dos valores perdidos do homem comum e a exaltação ideológica é desconcertante.

Em março de 2003, Nathalie Maine, cantora do grupo The Dixie Chicks, declarou, em um show na Inglaterra, ter “vergonha” de partilhar as origens texanas com o presidente Bush.5 Poucos dias depois, as Dixie Chicks foram objeto de violentos ataques na mídia; todas as estações de rádio boicotaram suas músicas. Certamente, o auditório tradicional havia ficado irritado com uma declaração feita fora do território nacional e julgada ainda mais inconveniente por exacerbar um contexto já elétrico. Mas esse banimento brutal não teve nada de espontâneo. Sabe-se hoje que o toque de rendição foi essencialmente orquestrado pela Clear Channel Radio, uma empresa fundada no Texas e proprietária de 1.250 estações, preocupada com as repercussões políticas de tais discursos.

Outros no mundo da música country criticaram a Guerra do Iraque, incluindo artistas de primeiro plano, como Roseanne Cash, Sheryl Crow, o próprio Merle Haggard e Steve Earle. Este último, fazendo eco às canções de contestação dos anos 1970, cantarolava em 2004, em “Rich man’s war”: “Bobby tinha uma águia e uma bandeira tatuadas no braço/ Vermelho, branco e azul até a raiz dos cabelos quando aterrissou em Kandahar/ Deixou uma linda mulher e uma filhinha/ E também uma pilha de faturas a pagar para ir salvar o mundo/ Fez um ano agora e ele ainda está lá/ Perseguindo fantasmas no ar seco/ Enquanto em casa pegaram seu carro/ Mais um rapaz sem dinheiro enviado para a guerra do homem rico/ Quando aprenderemos?”.

 

Música e política

Na campanha presidencial de 2008, os cantores country que expressaram publicamente seu apoio a um dos candidatos estavam longe de se alinhar do lado republicano. Mas Toby Keith, o cantor de modos violentos diante dos inimigos dos Estados Unidos, que havia defendido Bush contra as Dixie Chicks, chegou até a expressar sua simpatia por Obama. Os próprios cowboys também estavam cansados desse patriotismo que não os protegeu do desencantamento, tantas vezes conjurado nas canções populares.

A Fox News não deixou de convidar os mais conservadores e os mais fanfarrões entre eles. Crazy heart e Country strong são filmes de anti-heróis, de estrelas que buscam uma redenção diante de uma bandeira desgastada. E o Tea Party mobilizou muitos cantores country em seus encontros. Partilham com eles muitos pontos em comum. Assim como os fabricantes de hits de Nashville partem da música tradicional para definir sua estratégia comercial, essas reuniões heteróclitas buscam estabelecer uma identidade para colocar em cena grupos de interesse poderosos. Nesses dois casos, observa-se um discurso sobre uma consciência de classe que, não chegando a ser dita, assume a máscara da identidade cultural. Teabaggers e countrymen celebram o mito norte-americano de uma sociedade sem classes, mas só existem paradoxalmente no relato vitimizado de uma classe desprezada.

Em um artigo de 2010, o universitário Angelo Codevilla analisou o abismo assustador das desigualdades sociais nos Estados Unidos. Ele opõe uma overclass (superclasse), que teria ultrapassado os enraizamentos partidários, a uma classe popular, que ele chama de country class, desconsiderada pela elite e abandonada pelos grandes partidos políticos. Provavelmente é essa country class que se consola com os sotaques da música country.

Alguns artistas revelam a natureza socioeconômica da exclusão, como o cantor John Rich, fervoroso apoiador do candidato republicano às eleições presidenciais de 2008, John McCain, que hoje denuncia os responsáveis por Wall Street. Os maiores sucessos vêm de artistas livres dos sinais de ostentação da “tradição”. É o caso do grupo Lady Antebellum, que amplia sua audiência para bem além do público habitual, apesar de seu patrimônio evocado, por não fazer a menor alusão política ou identificação regional.

Taylor Swift, cantora de Nashville, foi indicada a artista do ano no American Music Awards de 2011. Ela só canta histórias sentimentais, trata do amor e de belas paisagens. Quando, por ocasião de uma cerimônia de premiação, em 2009, ela foi criticada no palco pelo cantor de rap Kanye West, que contestou a legitimidade de seu troféu, o próprio Obama se sentiu obrigado a condenar o gesto. Vulnerável e sem arrogância, a cantora de música country é agora o rosto inocente e consensual de um país que dizem profundo, que abriga milhões de cidadãos arrastados pela crise econômica e pela arrogância dos poderosos, e que encontram, ao escutar uma música popular e populista com temas nostálgicos, uma razão para celebrar seu americanismo.

Sylvie Laurent é autora de Poor white trash: la pauvreté odieuse du blanc américain [Poor White Trash: a pobreza odiosa do branco norte-americano], Presses l’Université Paris-Sorbonne, Paris, 2011.



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