N. Netta conta detalhes sobre novo romance de autoficção que aborda aborto, silenciamento e autonomia
A obra marca a estreia literária de N. Netta, que reflete sobre corpo, silêncio e liberdade em diálogo com Annie Ernaux e Colombe Schneck.
Embora constantemente presente em discussões políticas e em manchetes de jornal, o aborto se mostra um assunto muito sensível de ser tratado, até mesmo na literatura. Apesar disso, N. Netta o coloca no centro da narrativa íntima e fragmentada de Do tamanho de um grão (Dulcineia/Grupo Editorial Quixote, 120 págs.), que acompanha a protagonista diante das diversas formas de violência impostas pela sociedade, como o silenciamento, a repressão e a omissão do Estado, a partir do momento em que escolhe não seguir com a gravidez.
No romance, uma mulher madura revisita a própria juventude para narrar a experiência de um aborto clandestino realizado em Belo Horizonte. Acompanhamos sua trajetória desde a descoberta da gravidez indesejada, fruto de um relacionamento com um colega mais jovem, até a busca por uma clínica, o procedimento em si e as marcas deixadas por aqueles dias. Aos 30 dias de gestação, o embrião era do tamanho de um grão, imagem que dá título e que desvenda o significado do livro para a autora. Décadas depois, uma revelação médica transforma sua compreensão sobre o passado. Ambientado no final da década de 80, o livro traz diversas referências à cultura da época, contendo referências a artistas como Cazuza, Madonna e a banda Legião Urbana.
N.Netta vive e trabalha em Belo Horizonte, onde nasceu. É mestra em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista em Escrita Criativa e jornalista pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC MInas).

Confira abaixo uma entrevista com a autora:
Por que decidiu escrever sobre aborto e silenciamento feminino?
Eu me interessei em escrever sobre esse tema após ler o livro O Acontecimento, de Annie Ernaux. Em seguida, conheci também a autora francesa Colombe Schneck, que escreveu Dezessete Anos. Percebi que o tabu do aborto vinha sendo enfrentado pela literatura francesa por meio dessas duas autoras e, após realizar uma pesquisa, notei a ausência, na literatura brasileira, de obras que tratassem desse tema como conflito central. Identifiquei, assim, uma lacuna a ser explorada. Além disso, a relevância do tema para as mulheres também foi um fator que me motivou a escrever.
Então, Do tamanho de um grão tem como influência direta a literatura de Ernaux e Schneck… O livro aborda o tema pela mesma óptica dos franceses? Como ele se difere?
O Acontecimento foca o ato do aborto em si; Dezessete Anos é uma narrativa que enfatiza a idade da autora quando realizou o aborto. Eu quis abordar o tema sob outra perspectiva, que deixo a cargo de leitores e leitoras descobrir.
É importante ressaltar que meu livro foi escrito em um contexto em que a interrupção voluntária da gravidez ainda é ilegal no Brasil, assim como o aborto realizado pela protagonista. Annie Ernaux fez o aborto em 1964, quando ele ainda era ilegal na França, mas escreveu sobre o tema já em um contexto de legalidade. Já Colombe Schneck realizou o aborto e escreveu sobre o tema em um contexto em que ele já era legal.
Essa perspectiva desafiadora que meu livro propõe me interessou, na medida em que acredito no caráter confrontador da literatura diante de temas considerados tabus. O apoio de Isadora Pontes, tradutora de Annie Ernaux e responsável pela apresentação do meu livro, foi fundamental para que eu acreditasse no projeto.
Interessante essa parceria com a Isadora Pontes, tradutora da Annie Ernaux. Como você conheceu a tradutora? Você poderia contar mais sobre essa parceria na elaboração do livro?
Vi o nome da Isadora como tradutora da Ernaux, na capa do livro O acontecimento. Busquei me informar sobre ela, estudei a dissertação e a tese dela, focadas em autoras francesas que narram o aborto. Isadora mora e trabalha em Paris como tradutora literária. Mandei um email, convidando-a a ler os originais, a falar o que quisesse, se quisesse porque a gente nunca sabe. Ela respondeu na hora. Sou muitíssimo grata a ela.
O que mudou – e o que permanece igual – em relação ao aborto no Brasil desde os anos 80?
Juridicamente, o aborto segue criminalizado no Brasil. Abriram-se previsões legais para a interrupção da gravidez e isso foi um avanço. Também há uma pauta no Supremo, então a situação caminha. Culturalmente, o debate sobre o aborto no Brasil emerge com mais força. A pergunta que se faz sobre o aborto continua errada. Não se trata de ser contra ou a favor. Trata-se de debater se uma mulher que faz um aborto deve ser criminalizada, presa, como prevê o Codigo Penal Brasileiro, escrito em 1940.
Como foi revisitar essa experiência décadas depois? O que a autoficção permite dizer que talvez um romance totalmente ficcional não permitiria? Em algum momento você hesitou em transformar essa vivência em literatura?
Foi maravilhoso revisitar os anos 80, a melhor época para ser jovem no Brasil. E revisitar a experiência do aborto em si, através da literatura, foi muito especial para mim, porque me levou para onde eu sempre quis ir. A autoficção, em relação aos romances totalmente ficcionais, captura com mais acuidade os dramas humanos, porque os heróis e as heroínas são de verdade. Em nenhum momento hesitei em escrever o livro.
A imagem do “grão” é delicada e potente ao mesmo tempo. Como ela surgiu?
Também gosto demais. Surgiu bem no final da escrita, foi tão maravilhoso porque foi o momento que desceu a “musa”. Ela me entregou o título e todo o significado do livro que estava contido lá dentro e eu não sabia. Tudo fez sentido e eu fiquei muito feliz.
Esse é seu livro de estreia, o que significa para você ter publicado seu primeiro romance aos 62 anos? Como ele te transformou?
Embora eu escreva desde criança, com a publicação do livro sinto que me tornei escritora, autora, que era algo que eu sempre quis ser. O livro me transformou porque me mostrou uma coragem que eu não imaginava que tinha e isso refletiu em outras áreas da minha vida, a qual eu enfrento agora com mais energia.
E como você definiria seu estilo de escrita? Que tipo de estrutura você adotou ao escrever a obra?
Escrevo de forma simples e curta. Às vezes, poeticamente. A história, no caso de Do tamanho de um grão, é fragmentada, até porque as memórias que a protagonista tem da experiencia do aborto assim o são. Gosto de reviravoltas na história e de finais marcantes que coloquem os leitores e leitoras para pensar. Não gosto de responder, mas de lançar questões a serem respondidas por quem me ler. Digo que sobre meu livro, você vai mudar sua opinião sobre o aborto seja ela qual for. Queria escrever uma história bonita sobre aborto. Esse foi um dos desafios.
A fragmentação do texto dialoga com o trauma?
Sim, a forma dialoga com o conteúdo na medida em que trata-se de narrar uma lembrança, em livre associação de ideias. E uma lembrança de algo que é um tabu, por óbvio, dito, incompleto.
Na sua visão, qual é a importância de trazer temas considerados tabus para a literatura brasileira? Você acredita que a literatura pode influenciar o debate público sobre o aborto? De que forma?
Narrar temas tabus questiona estruturas de poder e propõe novas ideias, função política da literatura, segundo proposição dos tempos em que vivemos. A literatura pode influenciar o debate público sobre o aborto porque é a expressão escrita da sociedade. Na medida em que narra o aborto sob o ponto de vista do drama, a literatura humaniza o debate.
Depois dessa estreia, o que você ainda deseja dizer como escritora?
Desejo continuar escrevendo, porque é o que importa, afinal. Claro que o livro circular, ser lido é bom demais, mas o que vai desencadear tudo é a escrita e isso depende só de mim. Me divirto muito escrevendo e já estou avançando em um segundo texto.
Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na editora orlando e na com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário.


A autora aborda o tema com uma consistência quase brutal, levantando questões pragmáticas e ao mesmo tempo simbólicas. A maturidade da escrita, escolha das palavras e fluidez do texto, fazem a leitura doce, amena e direta, apesar do soco no estômago.