IMIGRAÇÃO

Na fronteira do mundo

Confira a seguir nota inédita do autor à edição brasileira do livro Não volte: um jornalista entre os deportados mexicanos em Tijuana, que será lançada sábado, dia 23, em São Paulo. A obra do jornalista argentino-mexicano Leonardo Tarifeño acompanha o cotidiano de pessoas deportadas dos Estados Unidos que vivem em suspensão na cidade de Tijuana, separadas de suas famílias e privadas de direitos. A partir da convivência direta e da escuta dos personagens, ele constrói uma crônica jornalística que articula relatos de vida com dados, leis, episódios históricos e casos de abuso de poder, evidenciando como políticas migratórias se traduzem em violência cotidiana

No inverno mexicano de 2001, pouco depois de entregar o manuscrito de Huesos en el desierto [Ossos no deserto], o escritor Sergio González Rodríguez me confiou a principal conclusão a que havia chegado após finalizar essa reportagem – um extraordinário documento jornalístico em que cruzava diferentes disciplinas, como a antropologia, a história cultural e a criminologia, entre outras, para narrar e compreender a infâmia do caso tristemente conhecido como “as mortas de Juárez”. Vista à distância, essa conclusão carregava algo de presságio, e é possível que, em sua inesperada atualidade, ressoem as perguntas que Não volte ainda formula.

Naqueles anos, as notícias sobre mulheres assassinadas em Ciudad Juárez, na fronteira com os Estados Unidos, inundavam a imprensa local e, em geral, eram consumidas com uma apatia assombrosa. O México havia se acostumado à violência do narcotráfico, e o massacre sistemático de trabalhadoras humildes, em um lugar especialmente conhecido por abrigar uma enorme variedade de crimes, era assumido com mais indiferença do que indignação. Não constituía muito mais do que um episódio sangrento entre tantos outros, um punhado de mortes cotidianas que alimentavam a aritmética do dia.

Eram raros os que se escandalizavam, e meu amigo era um deles. De fato, Sergio estava obcecado pelo caso e, repetidas vezes, viajou ao norte do país para investigar o mistério de centenas de feminicídios registrados pelo menos desde 1992. Quem eram os responsáveis pela morte daquelas mulheres? Por que havia tão poucos detidos? E o que deixava entrever o véu de impunidade que definia o assunto?

Eu havia lido partes do manuscrito de Huesos en el desierto, por isso não me surpreendeu que Sergio, já com o livro prestes a entrar na gráfica, quisesse compartilhar comigo algumas de suas inquietações pendentes, essas dúvidas e suspeitas que surgem durante investigações jornalísticas e que nenhum projeto de escrita consegue abarcar por completo.

Crédito: Divulgação

Assim, sentados à mesa de uma dessas velhas cantinas de que ele tanto gostava, contou-me que, para ele, um dos aspectos locais mais decisivos da virada do século era que o México estava se “fronteirizando”. Hábitos, valores, problemas e tragédias da fronteira norte, atravessados pela lógica e pelos interesses do mundo do crime, começavam a moldar toda a sociedade. O resultado era um processo devastador e generalizado de corrosão social, brutalidade sem distinção de classe e profunda desumanização, no qual os direitos deixavam de ser respeitados, o único valor operativo passava a ser o dinheiro e a cultura se rendia às manifestações de poder. A Ciudad Juárez, Sergio me lembrou, chegavam centenas de mulheres dispostas a apostar seus corpos no mercado da exploração do trabalho. Ali conviviam o tráfico de pessoas, o abuso sexual, o poder dos cartéis e a cumplicidade das autoridades com o fluxo de migrantes abandonados à própria sorte, a violência cotidiana de gênero, o machismo onipresente e a indiferença social. Nesse mundo sem lei, os feminicídios das “mortas de Juárez” nada tinham de extraordinário, e a impunidade era sua dolorosa contrapartida. A novidade, se havia alguma, era que o drama da fronteira havia deixado de ser algo específico dali. Ciudad Juárez podia ser entendida como um teatro do horror, mas a verdade é que essa peça já vinha sendo encenada, com sucesso alarmante, no restante do país.

Anos depois daquela conversa, fica evidente que os pesadelos de Sergio se tornaram realidade. A paisagem social que ele então observava na fronteira norte hoje está presente em qualquer estado mexicano. E uma parcela mínima, porém muito significativa desse mundo, aquela vivida pelos deportados dos Estados Unidos, é justamente o que encontrei entre 2015 e 2016 em Tijuana, durante minha investigação para Não volte.

Agora, a tantos anos de distância e a quase uma década de seu falecimento, lembro de meu querido amigo, a quem dedico Não volte, e me sinto na obrigação de dizer que, já avançado o século XXI, o que se “fronteirizou” não foi apenas o México, mas boa parte do mundo. Se a transgressão e o contrabando antes remetiam a exceções circunscritas às zonas de passagem, agora reaparecem e irrompem como norma nos lugares menos esperados. No México, isso fica explícito porque as notícias que pareciam específicas da fronteira norte vêm se repetindo, há vários anos, em diferentes cenários de um mapa que vai dos estados dominados pelo narcotráfico, como Guerrero, Michoacán, Sinaloa e Jalisco, ao tráfico de pessoas em Chiapas, às redes de exploração sexual na Cidade do México e à perseguição de ativistas ambientais em Veracruz, Oaxaca e Nayarit.

O México, contudo, não é o único país que vive esse processo no qual a fronteira deixa de habitar uma geografia para se transformar em condição. A mesma irracionalidade sádica reaparece nas operações do ICE em Los Angeles e Mineápolis, nos ataques de Israel aos comboios de ajuda humanitária em Gaza e na apropriação ilegal que as multinacionais do petróleo têm feito de territórios indígenas no Canadá. Onde antes ainda operavam alguns direitos, a “fronteirização” impõe o desprezo e a humilhação.

Quando escrevi Não volte, minha principal intenção era deixar um testemunho do que acontecia ao meu redor. Eu não imaginava que os migrantes passariam a encarnar a “fronteirização” em seus próprios corpos e cotidianos, tornando-se alvos de uma guerra que, na verdade, é apenas mais um capítulo da recorrente investida do poder político e econômico contra o direito de viver em liberdade. Sergio se surpreendia com o fato de uma pessoa como eu, com uma sensibilidade jornalística mais próxima da literatura e da música do que das crueldades da política, estivesse obstinada em percorrer o cenário de catástrofe em que sobrevivem os deportados em Tijuana. Ele duvidava, com razão, da minha capacidade de enfrentar a insondável tristeza que carregam aqueles que foram despojados de absolutamente tudo. Como costuma acontecer no jornalismo, entrei nessa história para contá-la, sem saber que, para isso, teria de me transformar. Meu amigo via isso com mais clareza do que eu, e foi o primeiro a me fazer perceber que, no espelho dos deportados, habitava a minha própria imagem de migrante — na Espanha, na Hungria, no México e no Brasil —, uma condição que eu precisaria explorar a fundo se realmente quisesse captar as ambivalências daqueles que se deixam cair no abismo da perda, mais dispostos a desaparecer e a esquecer-se de si mesmos do que seguir adiante, resistir ou reinventar-se.

A “fronteirização” é uma guerra e os migrantes são, ao mesmo tempo, alvo e campo de batalha. Outro alvo dessa guerra é a verdade, um conceito sob ataque numa época marcada pelas fake news, pelo uso massivo e desregulado da inteligência artificial e pela manipulação da informação pelas elites político-econômicas.

Nesse ecossistema de alta voltagem, o rigor que define o jornalismo tornou-se mais importante do que nunca, e este livro, embora não tenha sido escrito com esse propósito em 2017, no momento atual reafirma a ideia de que as guerras só são vencidas quando a verdade consegue se impor. Toda investigação jornalística deixa a seu autor uma série de inquietações em aberto, como as que Sergio quis compartilhar comigo num dia de inverno de 2001, numa velha cantina mexicana.

Entre as que me deixou Não volte, está a dúvida se a história que aqui se conta terá um ponto-final. Enquanto escrevia o livro, pensei que cabia a mim fixá-lo. Quando o terminei, estava convencido de que essa responsabilidade pertence aos governantes. Agora que o livro circula pelo mundo até chegar ao Brasil, sinto que o único desfecho realmente possível dependerá de seus leitores.

 

Leonardo Tarifeño é jornalista, editor, crítico literário e DJ. Viveu e trabalhou como repórter e editor em Barcelona, Budapeste, Rio de Janeiro e Buenos Aires. É autor de Extranjero siempre. Crónicas nómadas (Almadía-Producciones El Salario del Miedo, 2013) e No vuelvas (Almadía, 2018). É organizador e produtor do disco Hasta la cumbia siempre (Ultrapop, 2012). Publicou artigos e textos nos livros Roberto Bolaño: la escritura como tauromaquia (Corregidor; Celina Manzoni, org.), Let’s talk about your wall: Mexican writers respond to the inmigration crisis (The New Press; Carmen Boullosa e Alberto Quintero, orgs.) e País tropical. Brasil y su música (Universidad de Guadalajara; Enrique Blanc, Humphrey Inzillo e Roberta Martinelli, orgs.), entre outros. Atualmente reside no México.

 

LANÇAMENTOS:

SÃO PAULO

23/05, às 16h – Livraria Simples

Bate-papo seguido de sessão de autógrafos, com: Leonardo Tarifeño (autor), Lígia Cerqueira (Centro de Pesquisa Aplicada em Direito e Justiça Racial da FGV/SP), a DJ Cecyza (peruana, radicada no Brasil há 17 anos), e Tatiana Merlino (jornalista) na mediação. Endereço: Rua Rocha, 259, Bela Vista

31/05, às 13h – Feira do Livro de São Paulo (Tablado Literário Bubu, Mesa 3)

Ver e não ver a catástrofe: escritas e fronteiras em México e Gaza

Leonardo Tarifeño, autor de Não volte: um jornalista entre os deportados mexicanos em Tijuana, e Ana Gebrim, autora de Ver e não ver a Palestina: ensaio em fragmentação, lançam seus livros e conversam sobre a importância do ensaio e da crônica jornalística para narrar experiências de violência e colocar em primeiro plano histórias de vida, muitas vezes reduzidas a números, em contextos de guerra e crises humanitárias; participam também Isadora Szklo, cofundadora do Vozes Judaicas, e a jornalista Tatiana Merlino (mediação). Endereço: Praça Charles Miller s/n

RIO DE JANEIRO

28/05, às 19h – Janela Livraria (Gávea)

Bate-papo seguido de sessão de autógrafos, com: Leonardo Tarifeño (autor) e Ricardo Beliel (fotógrafo e jornalista). Mediação: Livia Almendary (jornalista e editora). Endereço: Shopping da Gávea, R. Marquês de São Vicente, 52 – Loja 368 – 3º piso.

Leia mais sobre o tema: