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Opinião

Nas ruas e nas urnas desde já

por Victor Moreto
20 de maio de 2021
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O retorno às bases não exclui as conciliações para uma eleição que se avizinha em nível nacional.  E a discussão de uma candidatura para 2022 também não elimina a implantação de um clima que leve ao impeachment ainda em 2021

Há uma suposta divisão entre os que estão se articulando para a eleição de 2022 e aqueles que dizem ser um erro já pensar nisso agora. O argumento dos que estão na segunda opção é o de que precisamos derrubar Jair Bolsonaro antes que o presidente continue matando mais brasileiros na pandemia. É uma ótima proposta e sanitariamente necessária, mais do que tudo.

Acontece que Bolsonaro não só não “derreteu”, como querem acreditar alguns otimistas, como mantém parte de sua popularidade inabalada na casa dos 30%. E este patamar, para quem acompanha as pesquisas em relação ao governo, nunca caiu vertiginosamente desde que foi eleito, nem mesmo sob as quase 450 mil mortes de Covid-19 no Brasil, nem sob as denúncias de corrupção envolvendo o presidente e sua família. É uma base sólida, tenhamos em mente.

O outro argumento é que, ao pensarmos em uma estratégia para 2022, nós estaríamos apostando todas as fichas numa solução unicamente institucional e que deveríamos mobilizar a população para criar um clima de revolta nas ruas.

Façamos uma breve retrospectiva.

Desde 2016, nossas bandeiras foram lidas sempre com um “não” na frente. Nosso papel foi negar um golpe, negar um presidente interino, negar a eleição de um fascista e, no fim, restou clara uma coisa: nós não propusemos nada. Nós não dissemos “sim” a nenhuma bandeira. Nós somente tentamos nos proteger, acanhados e sem rostos. O maior exemplo disso foi a maior passeata que fizemos nos últimos tempos: “ele não”.

Óbvio: ele não. Mas quem, ou o quê, seria o sim?

A suposta ausência de caminhos nos coloca à deriva no imaginário político brasileiro. E esse cenário foi – muito bem – elaborado por uma direita midiática e judicial desde 2013: destruir qualquer expectativa que venha do campo popular e proscrever Lula e o PT.

Em um outro artigo, eu comentei que o antipetismo não se referia somente ao PT. Argumentei que no campo simbólico, o “petista” é qualquer um – ainda que não goste do Partido dos Trabalhadores. Basta estar no campo progressista. Nos dias de hoje, basta querer valer a Constituição de 1988. Numa comparação quase cômica, Joe Biden foi, e é, atacado de “comunista” nos EUA pela direita trumpista. Joe Biden, logo ele, um democrata estadunidense ligado às Big Corp.

A estratégia da direita não foi só prender Lula e ganhar as eleições com Bolsonaro. Foi desarticular a possibilidade de um projeto do campo popular. Parte da esquerda, mesmo sob os escombros da Lava Jato, após reveladas as infames ligações do Ministério Público com Sergio Moro – já julgado parcial pelo STF– ainda assim tem medo de assumir uma postura que questione frontalmente o golpe. Refiro-me ao golpe como um todo, desde a própria Lava Jato como um projeto político até a destruição de reputações nos porões do Whatsapp.

Dizem que não é hora de se escolher um candidato e que também precisamos derrotar já Bolsonaro nas ruas. Perfeito. Mas sob qual bandeira? Vamos, de novo, seguir somente negando um nome sem propor algo palpável à população? Reparem: não se está pedindo ir às ruas por uma pauta de valorização de salário ou protestando contra o aumento da passagem de ônibus. O que se pede, com toda razão, é derrubar o presidente. E não se derruba um presidente com tamanha popularidade se não houver algo que simbolize, não necessariamente um consenso, mas uma unidade ou uma intercessão viável que o substitua. Para efeitos de comparação, Dilma foi derrubada com 8% de popularidade.

É verdade que nos acostumamos a nos mobilizar pelas vias institucionais, isto é, eleições. Isso é um problema da sociedade civil brasileira, sem sombras de dúvidas. A questão é: estamos no meio de uma pandemia, chegando a meio milhão de mortos e um presidente, sócio da Covid-19, com cerca de 30% de aprovação popular. E, claro, teremos uma eleição para presidente daqui a um ano.

Vamos relembrar que em 2013 as ruas encheram-se de pautas que também negavam: negavam políticos, negavam bandeiras, negavam partidos, negavam movimentos sociais. Hoje em dia, que sabemos bem o que são as fake news, a deep web, a Cambridge Analytica e todos os documentários sobre as manipulações de ódios e gostos por algoritmos, podemos falar sem sombra de dúvidas: fomos manipulados enquanto povo.

Não que não existissem as nossas bandeiras nas ruas, ou que elas já não estivessem antes por lá. Mas é doloroso perceber – e aceitar – que todo esse “clima” de insatisfação que catapultou milhões de brasileiros a protestar em praça pública não foi casualidade. Há muitos sociólogos – e sociólogas – que à época, e até hoje, bateram na tecla de que os partidos “não entenderam 2013”. Sim, nem os partidos, nem eles: os sociólogos apressados. Nenhuma análise sobre o comportamento da população em 2013, ou nas eleições de 2018, que não leve em consideração a manipulação depurada a partir de algoritmos pode estar completa.

O que foi insuflado naquele momento foi o ódio às instituições, à democracia como um valor e à esquerda como concepção. Alguns diriam: mas eles também não propuseram nada. Verdade, mas que tipo de representante elegeríamos depois de uma bem-sucedida articulação contra todos esses valores? Não importa quem, mas sabíamos que de esquerda ele/ela não seria. A direita tradicional, notadamente representada pelo PSDB e pela Globo, pensou que ocuparia o lugar e não percebeu que ela também não tinha vez no jogo. O fascismo não poupa pequenas semelhanças. Nascem o PSDB e a Globo “comunistas”.

Agora, estamos repetindo o mesmo erro: a proposta é negar, simplesmente impedir Bolsonaro. Fica mais claro ainda quando parte da direita que finge não apoiar Bolsonaro, mas dá guarida a Paulo Guedes –que é tão nocivo quanto– começa a embarcar nesta onda. Não estariam criando um bolsão de candidatos de “centro” para – assim como em 2013 – tentar cacifar um nome para tirar o Bolsonaro e manter um neoliberalismo Peter Pan, que nem mais nos EUA tem força?

Para isso, eles não podem deixar que um nome do campo popular progressista aglutine essas demandas em torno de si. Não foi para isso que eles prenderam Lula num “grande acordo nacional”.

O que nós precisamos construir, tanto para 2022, quanto para agora, é um projeto hegemônico. Por isso, não são conflitantes as propostas de se lançar candidatura de alguém que obviamente representa uma possibilidade real de vitória, vencendo Bolsonaro nas urnas e, ao mesmo tempo, criar um clima que possa viabilizar o impeachment nas ruas. Na verdade, a segunda depende da primeira se não quisermos cair no mesmo erro de 2013 gerando uma insatisfação centrífuga e acéfala.

É papel dos movimentos sociais, dos sindicatos e da sociedade civil organizada tensionar: primeiro o governo Bolsonaro, mostrando uma ofensiva massiva à esquerda; segundo, as relações que compõem a base que está sendo construída ao redor de Lula. Isso além de evitar que um eventual impeachment reorganize uma 3ª via à direita contra o campo popular, também arrasta o PT a dialogar com esses movimentos no momento em que esses se mostram fortes.

Por parte de Lula, é importante gerenciar essas demandas e perceber que há um clamor por uma atitude que não seja lida somente como uma “articulação para 2022”. Porque se é verdade que tais articulações são inevitáveis, também é certo que há um sentimento de urgência na população. O que, sim, temos de ter em mente também é que insuflar as ruas no meio de uma pandemia que mata mais de 3 mil brasileiros e brasileiras por dia tem seu custo político e midiático.

Não é a mesma coisa quando um político progressista “radicaliza”. A sociedade brasileira permitiu que um deputado subisse na tribuna de uma sessão de impeachment e oferecesse seu voto em memória a um torturador e, ainda assim, fosse eleito presidente da república. E a homenagem tinha endereço certo: tratava-se do torturador pessoal de Dilma Rousseff, quando presa pela Ditadura Militar. Esta mesma sociedade aceitaria um presidente que dissesse que precisamos guilhotinar banqueiros e deportar direitistas? Com certeza, não: seria “muito radical”.

O que quero dizer é: nosso campo de ação é frágil porque nossos consensos são frágeis na sociedade. Ainda. Pode ser que um algum momento consigamos estabelecer uma hegemonia mais à esquerda que vá respaldar outro tipo de política. Mas, com certeza, não será para 2022. Muito menos para 2021.

Se concordamos que a situação política e a sanitária no Brasil são urgentíssimas, saibamos receber as notícias do dado concreto de que dispomos: se não simbolizarmos um nome e se não escaparmos da armadilha da narrativa construída pela direita, seremos derrotados.

A única alternativa é largar a negação e começar a dizer “sim” a algum projeto. É sair das cordas de sermos pautados e passar a protagonizar a política. Se há alguma chance de interrompermos esse governo genocida é descartarmos a dualidade: não há uma ou outra alternativa, mas uma e outra opção.

É nessa tese – única – que insiste parte de nossa esquerda: a dualista. Por esse pensamento, perdemos a possiblidade de sermos plurais nas ações. Pensar em inclusões, e menos em excludentes, nos dá mais campo para a construção hegemônica.

Isso, resumidamente, quer dizer que o retorno às bases não exclui as conciliações para uma eleição que se avizinha em nível nacional; e que a discussão de uma candidatura para 2022 também não elimina a implantação de um clima que leve ao impeachment ainda em 2021.

Ao contrário, elas não só não se excluem como contribuem para cada um dos resultados. Tudo está conectado: o golpe contra Dilma, a “República de Curitiba”, a prisão e consequente inabilitação da candidatura de Lula, a difamação das esquerdas e a inação à que todos estamos submetidos. O efeito prático e jurídico tem tanto peso quanto o que opera simbolicamente nos corações e mentes de quem é bombardeado dia sim, outro também, de más notícias e agressões. É uma enxurrada que vem de todos os lados, do campo moral ao econômico e nos paralisa. Mas é exatamente esse o efeito pretendido.

Destravar as ruas significa sair do modelo de dominação psicológico que opera em cada um. Mesmo com todo algoritmo, é nas ruas que a força ganha materialidade. Continua sendo assim em todo lugar do mundo, principalmente na América Latina. As recentes experiências no Chile e na Colômbia apontam claramente nesta direção.

Além de tratarmos de construir uma candidatura que aglutine essas demandas, lapidando alianças e limites que irão dizer “sim” a um projeto – e que não só reajam a uma ofensiva reacionária – é preciso também avançar na denúncia. É importante dizer que o governo Bolsonaro não é só um governo fascista, mas fundamentalmente um governo neoliberal. É o grande capital junto com pernas e braços da grande mídia que mantêm a governabilidade possível.

Neste sentido, a dualidade de se contrapor “fascistas” e “neoliberais” também é benéfica para a direita. A partir desta narrativa, perdemos a chance de jogar luz na contradição no lado de lá. Pior: mantendo o discurso de que o projeto fascista é um, e o neoliberal outro, ajudamos na construção midiática que cria a expressão “bolsopetismo”, dando voz aos editoriais do Estadão que mobilizam “populismo”, “bolivarianismo” e “ditadura” para aproximar Bolsonaro de Lula. Ou pior e mais perverso: jogar Bolsonaro no colo de Lula.

Como diz a expressão popular: “foram vocês que geraram o bebê, tratem de embalá-lo”. Nosso dever é servir como memória histórica.

É a velha tática neoliberal de se dizer neutra ou apolítica, mantendo sua ideologia apócrifa, mas bastante poderosa no inconsciente coletivo. Por isso, mais do que nunca precisamos lembrar que foi a partir de um rompimento democrático que começa com o não reconhecimento da validade da eleição de Dilma Rousseff em 2014 pelo PSDB, passando por uma perseguição jurídica e midiática e por um golpe de estado que chegamos a Bolsonaro. Tudo engendrado e consumado sob o manto institucional, anunciado dentro do marco de uma suposta legalidade, necessário que se diga. Estiveram funcionando as instituições?

A política ultra neoliberal de Paulo Guedes é o maior recibo. É exatamente o mesmo receituário que compôs tanto as páginas dos planos de governo de José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, João Amoedo, quanto as dos editoriais da Folha, O Globo, Valor, Estadão, Veja etc. Porque não é só das pautas morais que vive o governo, mas de todo consenso de reformas que já comprometeram o patrimônio público, a educação, a ciência e a saúde por décadas.

Isso não significa que precisamos crucificar quem apoiou o golpe: os chamados “arrependidos”. Mas também não podemos deixá-los tomar para si a palavra, nem deixar de implicá-los no caos onde nos metemos. Do contrário, irão se sentir confortáveis em pautar a discussão, exigindo a manutenção das medidas destrutivas do meio ambiente e do estado: pilares imprescindíveis para escapar da barbárie contra a natureza e a sociedade.

Assim, definiremos que tipo de coalizão teremos, a que convenientemente trata Bolsonaro como um espantalho para continuar mantendo a agenda neoliberal ou a que reivindica uma retomada da participação estatal num país que voltou ao mapa da fome?

Victor Moreto é historiador e doutorando em Ciências Sociais pela Universidad de Buenos Aires (UBA).



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