Nativos ou cretinos digitais do capitalismo? - Le Monde Diplomatique

EDUCAÇÃO

Nativos ou cretinos digitais do capitalismo?

por Luiz Fernando Leal Padulla
25 de outubro de 2021
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Vários estudos já realizados mostram a nocividade pedagógica das políticas de digitalização do sistema escolar

Os chamados “nativos digitais” são, de acordo com Marc Prensky,1 que cria essa denominação, crianças e jovens acostumados a obter informações de forma rápida e a recorrer primeiramente a fontes digitais da web antes de procurarem em livros e fontes impressas. Seria, de acordo com teóricos e entusiastas da tecnologia, a evolução da educação. No entanto, a digitalização da educação está formando cretinos digitais. Isso é fato. Em uma breve definição, cretino é uma perturbação patológica que impede o desenvolvimento físico ou mental; quem não tem inteligência; inconveniente; estúpido. Mas antes que me acusem de ser ofensivo, peço que esperem e leiam até o fim.

Subsidiando essa minha afirmação, trago o livro de Michel Desmurget, A fábrica de cretinos digitais,2 que tem como base estudos e levantamentos científicos.

Enquanto educador é fácil constatar tudo isso. São raros os educandos e educandas que efetivamente encaram a sala de aula como um ambiente privilegiado para o aprendizado e sua emancipação. Nós, educadores e educadoras, sofremos com a concorrência desleal – e por que não desumana! – dos smartphones, presentes durante as aulas. Uma batalha diária, onde já entramos derrotados.

Alunos e alunas viram verdadeiros zumbis em sala de aula: seja pela não desconexão de seus aparelhos, seja porque estão dormindo tarde e tendo que acordar cedo para estarem presentes nas aulas.

(E antes que tentem jogar novamente a culpa nos professores: não somos “babás” para ficar vigiando dezenas deles, pedindo para desligarem/guardarem seus aparelhos. Além de tomar um tempo de aula – já reduzido, ainda mais com a reforma do ensino médio – cria uma situação de desgaste, prejudicando ainda mais a relação em sala de aula. E trabalhar com empatia, pouco efeito surte quando a falha nas relações pessoais começa nas casas, e são potencializadas pelo efeito individualista das redes).

Crianças em fase de crescimento têm seus processos cognitivo, emocional e social comprometidos com a exposição a essas telas, justamente por afetar a própria fisiologia. Mas jovens e adultos não estão blindados desses efeitos. A luz das telas inibe a produção de hormônios como a melatonina, responsável pelo equilíbrio entre períodos de vigília e sono, e até mesmo a produção do hormônio de crescimento é afetada, uma vez que sua maior produção ocorre durante um sono mais profundo. Em tempos de verdadeira preocupação com a obesidade dentro de um contexto de saúde pública, vale lembrar também que é durante o sono que temos a regulação dos hormônios grelina e leptina, responsáveis pelo controle de nosso apetite – ou seja, quanto menos sono, maior ingestão de calorias. Ao mesmo tempo, esse equilíbrio hormonal é fundamental para que se tenha um sistema imunológico forte, ainda mais em se tratando de pandemia. Para os homens, o pico do hormônio sexual (testosterona) é atingido justamente no sono mais profundo e contínuo. Para lactantes, o efeito é gritante: dormir libera mais prolactina, hormônio responsável pela produção do leite.3

Dormir também permite a “limpeza” do metabolismo cerebral – os chamados príons –, impedindo o surgimento de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson4,5 além de reorganizar toda a vivência diária, formando memórias permanentes de aprendizado.6,7,8 Assim, o uso das telas – seja para fins recreativos e/ou de “aprendizados” – afeta diretamente a qualidade do sono.

Mas quem ganha com a tal “revolução digital”? Foi-nos vendida a ideia de que seria uma alternativa que favoreceria o aprendizado, uma maneira de potencializar o mesmo. Mas não é bem isso que aconteceu.

Relatório requisitado pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) no contexto do Pisa (Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes) aponta que investimentos consideráveis em computadores, conexões à internet e softwares para fins educativos não refletiu na conduta de melhores notas.9 O mesmo relatório diz que os países que menos investiram na introdução de computadores na escola progrediram mais rápido, em média, do que os que mais investiram. Uma análise poderia ser feita argumentando que as TICs não foram devidamente empregadas, mas cai por terra quando se mostra que, nos países onde educandos utilizam a internet para fazer seus deveres de casa, a performance declinou. Além disso, o relatório mostra que países que mais investiram na digitalização e acesso às tais tecnologias tiveram desempenho pior nas avaliações.

As escolas e “responsáveis”, no entanto, em vez de buscar entender o real motivo, como sempre, acham um culpado mais fácil: o despreparo do professor.

No entanto, novamente essa desculpa (ou culpabilização dos professores e professoras) é desmascarada: estudos do Departamento Americano de Educação chegaram à conclusão de que mesmo com a formação adequada dos educadores não houve nenhuma melhora perceptível dos educandos com a utilização dessas ferramentas digitais.10 E, escancarando de vez a falaciosa ideia de “nativos digitais”, apresenta dados de que nada substitui a educação de professores competentes. Resumindo: os vários estudos já realizados mostram a nocividade pedagógica das políticas de digitalização do sistema escolar. Antes de qualquer tipo de inserção no mundo digital, precisam ter habilidades básicas de alfabetização.

Curiosamente, o último relatório do Pisa – publicado em 2020 – ignora esses pareceres anteriores, afirmando que o Brasil se destaca negativamente porque aqui existe um computador para cada quatro estudantes nas escolas, enquanto os países membros da OCDE têm, em média, um para cada estudante.11 Outra crítica, justificando o baixo rendimento dos educandos e educandas, é a falta de internet satisfatória para as atividades. Mais um exemplo de forçar o modelo eurocêntrico e, novamente, a venda das TICs?

nativos
(Foto: Pexels)

E não são apenas as crianças afetadas. Levantamento feito para avaliar a plataforma MOOCS, que oferece cursos abertos com certificação, mostra que é uma excelente plataforma para apenas 5% do corpo estudantil que apresentam características de comportamento avançado (alunos mais velhos, dedicados, autodisciplinados), ou seja, não eficiente para 95% do público, conforme reconheceu o cofundador da ferramenta educativa.12

Outro ponto que chama atenção, e foi apresentado por Mattew Walker em seu livro Por que nós dormimos,13 também com rica referência científica, é que se estima que 50% de todas as crianças diagnosticadas com TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) têm na verdade um transtorno do sono. Ou seja, estamos intoxicando nossas crianças e adolescentes com medicamentos que têm como base a anfetamina14 (como a Ritalina) e que na verdade não deveriam ser utilizados nesses casos: em vez de medicar, deveriam aumentar seu período de sono.

Somando-se a tudo isso, e não menos importante, é preciso atentar aos agrotóxicos do agronegócio. No Brasil, o agrotóxico organofosforado clorpirifós está associado a potenciais efeitos neurológicos em crianças. É um dos inseticidas mais utilizados nas lavouras e, apesar de proibido em vários países, dada as comprovações científicas dos danos causados, aqui segue aumentando seu uso.15 Estudo publicado em 2012 prova que crianças expostas a esse veneno, conforme o desenvolvimento, apresentaram menor tamanho do córtex cerebral, além de apresentar uma série de deficiências motoras e cognitivas, sendo a mais comum o TDAH.16 Ao chegarem aos 7 anos, constatou-se a redução do QI. Um agrotóxico presente em alimentos e na água.17 Soma-se isso aos danos das tecnologias e a sociedade ignóbil e facilmente manipulável está pronta!

Em tempo: tal como a liberação de venenos/agrotóxicos atendem aos interesses do capital, deixando as pessoas doentes e promovendo o consumo de remédios – nunca é demais lembrar do casamento dos infernos entre Monsanto/Bayer –, as telas e digitalização da vida também favorece esse ciclo, inclusive com o consumo de remédios pelo fato de elevarem os riscos de depressão e pensamentos suicidas.18 O vício plantado na sociedade escolar, utilizando-se da recompensa neurológica de doses de dopamina, cria verdadeira dependência. Pode até ser uma “teoria conspiratória”, mas as evidências de que o capital atua de caso pensado reforçam cada vez mais tudo isso: gerações ignorantes, egoístas, presas em seu mundo virtual, incapazes de socialização e de criticidade.

A pandemia nos trouxe desafios gigantes, tendo que nos reinventarmos, seja com o aprendizado “para ontem” das tecnologias, seja pela constante vigília de nossas aulas por pais. Ao mesmo tempo, provou o que esses dados do Pisa constataram: tecnologia não auxilia na educação.

Volto à pergunta: quem ganha com isso? Percebendo os efeitos nefastos, era de se esperar uma mobilização por parte das instituições, assim como dos genitores dessas criaturas cretinizadas. Mas o que se vê é a pressão cada vez maior por exigir o uso e aprendizado dos professores – os culpados, sempre! – para as tecnologias de informação e comunicação. A culpa é do educador, nunca dos clientes – no caso, alunos, alunas e seus genitores! Embarcaram nessa “onda digital” como a salvação da educação, mas uma onda que arrasou todo o processo educativo, precarizando o aprendizado e enriquecendo os criadores de conteúdos digitais.

Com isso, de caso premeditado, precariza-se o trabalho dos educadores e educadoras, subvaloriza-se a profissão – afinal, passam a ser meros “tutores”, ou como diz Desmurget, “capatazes 2.0”, cuja formação pode ser substituída por aplicativos ou vídeos nas redes –, barateando a já desvalorizada educação, mas agradando os “clientes”, que pouco se importam se a qualidade educativa é baixa. Afinal, por mais que a internet permita acesso às informações, como esses educandos saberão filtrar verdadeiras informações de coisas fantasiosas e imbecilizantes? Mais ainda: a hierarquização, fundamental para a formação do conhecimento, inexiste na rede mundial; os conteúdos são apresentados sem que se formem conexões, impedindo a compreensão de forma significativa – e até mesmo o quesito credibilidade, separando o que é fato do que é fake news.

Não surpreende se esse for o objetivo. O capitalismo explora, de forma inteligente – ainda que desumana – as vias dopaminérgicas: consumo que leva a liberação de mais dopamina. O próprio ato de pré-consumo, difundido por propagandas para que se compre, cria uma expectativa, tornando o cérebro quimicamente dependente.19

Ainda que o argumento da “evolução” seja propagado, na tentativa de defender essa geração de “nativos digitais”, é importante salientar que nosso cérebro e suas conexões cerebrais ainda são ancestrais.

Paralelamente, não podemos deixar de lembrar que uma educação forte, emancipadora, portanto, crítica, incomoda quem nos governa. Não à toa, esse desmonte educacional, travestido de inovação digital, visa, de forma acobertada, servir como uma distração, impedindo a ascensão de cidadãos e cidadãs críticos.

Lembremos que os países que tiveram suas revoluções anti-imperialistas, como o Vietnã e Cuba, mostrando que é possível uma visão mais humanizada e igualitária, rompendo com a desigualdade promovida pelo capitalismo, tiveram como base inicial a valorização do processo educativo.

Ao mesmo tempo que precarizam os trabalhadores e trabalhadoras da educação, retiram disciplinas e/ou reduzem cargas horárias para focar em disciplinas que atendam ao sistema, como a disciplina de Empreendedorismo. Piorando a situação – já delicada – governos neoliberais promovem cortes no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações,20 mesmo que a pandemia tenha mostrado a importância da Ciência. Resumindo, o neoliberalismo escraviza, impedindo a formação de pessoas críticas e produtivas; apenas seres reativos, doutrinados pelas tecnologias basicamente de entretenimento, sem qualquer aprofundamento nas questões sociais e políticas.

Não é novidade que a direita é ardilosa, matreira. Mas agora conseguiu convencer as instituições educacionais para trabalhar a seu favor. Com isso, ganha com a “zumbização” da sociedade: conseguem divulgar mentiras sem que sejam contestadas. Fazem isso com as ideias de privatização, do “avanço do comunismo”, da necessidade de usar e liberar mais venenos para produzir alimentos (que na verdade são commodities e não comida verdadeiramente!), que existe tratamento precoce contra a Covid-19, a miserável “uberização” como independência financeira, e por aí vai. Engana-se a população enquanto a boiada do capital passa livre, leve e solta…

Sendo assim, mais do que nunca a unidade da classe trabalhadora, em especial a dos professores e professoras, é urgente. Sem educação, não há qualquer tipo de revolução!

 

Luiz Fernando Leal Padulla é professor, biólogo, doutor em Etologia, mestre em Ciências e especialista em Bioecologia e Conservação. Autor do blog e do canal no YouTube “Biólogo Socialista”, e do PodCast “ProfPadulla”. Instagram: @BiologoSocialista.

 

Referências bibliográficas

1 PRENSKY, M. Digital Game-Based Learning. Minnesota: Paragon House, 2001.

2 DESMURGET, M. A fábrica de cretinos digitais – os perigos das telas para nossas crianças. São Paulo: Ed. Vestígio. 2021.

3 SHERWOOD, L. Fisiologia Humana – das células aos sistemas. São Paulo: Cengage Learning. 2011.

4 LUCEY at al. 2019. Decreased deep sleep linked to early signs of Alzheimer’s disease. Science Translational Medicine. Disponível em: https://www.sciencedaily.com/releases/2019/01/190109142704.htm

5 SABIA et al. 2021. Association of sleep duration in middle and old age with incidence of dementia. Nature Communications. 12: 1-10. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41467-021-22354-2.pdf

6 CARSKADON, M.A. Sleep’s effects on cognition and learning in adolescence. 2011. Progress in Brain Research, 190: 137-143. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21531249/

7 SHOCHAT et al., 2014. Functional consequences of inadequate sleep in adolescents. Sleep Medicine Reviews, 18: 75-87. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23806891/

8 SCHIMIDT et al., 2015. The relations between sleep, personality, behavioral problems, and school performance in adolescents. Sleep Medicine Clinics, 10: 127-133. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26055859/

9 OECD. Students, computers and learning: making the connection (PISA). 2015. Disponível em: https://www.oecd-ilibrary.org/docserver/9789264239555-en.pdf?expires=1634418555&id=id&accname=guest&checksum=810EDC877984E2634CE689A6B5E708E2

10 USDE. 2007. Effectiveness of reading and mathematics software products: findings from the first student cohort (report to congress). Disponível em: https://files.eric.ed.gov/fulltext/ED496015.pdf

11 PISA. 2018. https://www.oecd-ilibrary.org/education/pisa-2018-results-volume-v_ca768d40-en

12 SELINGO, J. Desmystifying the MOOC. The New York Times, 2014. Disponível em: https://www.nytimes.com/2014/11/02/education/edlife/demystifying-the-mooc.html

13 WALKER, M. Por que nós dormimos. Rio de Janeiro: Ed. Intrínseca. 2018.

14 Venda de remédios derivados de anfetamina bate recorde no Brasil. Disponível em: https://noticias.r7.com/saude/venda-de-remedios-derivados-de-anfetamina-bate-recorde-no-brasil-24102020

15 Brasil continua a vender agrotóxico banido nos EUA e que pode diminuir QI de crianças. Disponível em: https://portrasdoalimento.info/2021/10/19/brasil-continua-a-vender-agrotoxico-banido-nos-eua-e-que-pode-diminuir-qi-de-criancas/

16 RAUH et al. 2012. Brain anomalies in children exposed prenatally to a common organophosphate pesticide. PNAS, 109 (20): 1-6. Disponível em: https://www.pnas.org/content/early/2012/04/25/1203396109.abstract

17 “Coquetel” com 27 agrotóxicos foi achado na água de 1 em cada 4 municípios – consulte o seu. Disponível em: https://apublica.org/2019/04/coquetel-com-27-agrotoxicos-foi-achado-na-agua-de-1-em-cada-4-municipios-consulte-o-seu/

18 GANGWISCH et al. 2010. Earlier parental set bedtimes as a protective factor against depression and suicidal ideation. Sleep, 33 (1): 97-106. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2802254/pdf/aasm.33.1.97.pdf

19 SAPOLSKY, R.M. Comporte-se – a biologia humana em nosso melhor e pior. São Paulo: Companhia das Letras. 2021.

20 Congresso aprova corte de 92% de recursos da Ciência. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/congresso-aprova-corte-de-92-de-recursos-da-ciencia/

 



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