Neoliberalismo: a ideologia do invisível - Le Monde Diplomatique

Política

Neoliberalismo: a ideologia do invisível

Acervo Online | América Latina
por Victor Moreto
29 de julho de 2020
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A ideologia neoliberal vende-se a si mesma como não ideológica, mas técnica: um manual de gestão frio que, como dizia Foucault, toma para si o papel da veridição

A primeira coisa a se fazer quando se reflete sobre um objeto confuso e multifacetado como o mundo social é perceber as hierarquias de questões mais importantes a serem esclarecidas. Sem isso nos perdemos na confusão. A questão do poder é a questão central de toda sociedade. A razão é simples. É ela que nos irá dizer quem manda e quem obedece, quem fica com os privilégios e quem é abandonado e excluído. 

Jessé Souza[1]

 

 

 

Há alguns anos – não muitos – era plenamente aceitável dizer que os conceitos de esquerda e de direita não faziam mais sentido no século XXI. Não cabiam mais, diziam articulistas renomados nos principais jornais e revistas do país. Dizer-se de esquerda era sinônimo quase jurássico, remontando a uma Guerra Fria que ruiu com o muro de Berlim.

As palestras mais caras, os olhares mais up-to-date e as cores mais vivas de uma sociedade politicamente “não-binária” flutuavam livremente num senso comum elegante que rechaçava rótulos e bandeiras. Havíamos chegado na era do consenso permanente ou, como queriam, no “fim da história”.

Vamos nos situar no tempo e no espaço. Estamos falando da América Latina dos anos 2000, de onde despontavam Lula, Néstor e Cristina Kirchner, Evo Morales, Hugo Chávez, Fernando Lugo, Pepe Mujica, Rafael Correa, entre outras lideranças progressistas de Brasil, Argentina, Bolívia, Venezuela, Paraguai, Uruguai e Equador. Todos, em maior ou menor grau, representantes dos anseios de uma esquerda – ou de uma centro-esquerda.

Tinham em comum uma política de aumento dos gastos públicos em prol da renda e do emprego – na linha keynesiana, uma maior articulação com movimentos sociais, valorização dos direitos humanos para minorias desfavorecidas e uma intervenção direta da máquina pública ajudando a reparar essas discrepâncias históricas através de um sistema de cotas e de bolsas (como no caso do programa Bolsa Família, no Brasil; e AUH[2], na Argentina).

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Esses feitos não são obra de mero acaso, nem resultado unicamente da vontade desses líderes que trouxeram a boa nova. No caso do Brasil, por exemplo, os programas de assistência social, as teses econômicas de expansionismo fiscal e as demandas dos movimentos agrário, negro, de mulheres, LGBTQI+, entre outros, são frutos de décadas de lutas desses atores em organizações partidárias, acadêmicas e civis.

Para chegar a fazer parte de um programa de governo federal no início do século XXI, milhares de pessoas dedicaram suas vidas a uma militância diária tornando visíveis pautas relegadas, há décadas, à periferia do capitalismo. Como é o caso do movimento negro e a criação do Estatuto da Igualdade Racial, de autoria do senador Paulo Paim (PT/RS), promulgada em 2010.

As demandas por igualdade racial obviamente não começaram no Congresso, mas certamente não se pode retirar a importância de se chegar lá após, literalmente, séculos de luta das “Marias, Mahins, Marielles e malês”, como entoava lindamente o samba-enredo campeão da Mangueira de 2019.

É o caso também de muitas conquistas dos trabalhadores na Constituição de 1934, garantindo pela primeira vez, entre outros, o direito a um salário mínimo, liberdade sindical, férias remuneradas, salvaguarda ao trabalho de menores e jornada de oito horas. Não vieram da benevolência de Getúlio Vargas, mas da luta de trabalhadores desde o início do século XX, sob muita repressão e greve, como a histórica Greve Geral de 1917.

Em todas essas histórias, há algo que permeia tudo: a política. Ela é originalmente um fenômeno da polis (cidade), no qual pessoas debatem o futuro público de suas vidas com outras que desejam algo parecido e, ao mesmo tempo, contra outras que representam um entrave às suas vontades.

Dentre aquelas que estão no mesmo campo, ainda que se identifiquem em um projeto comum, há frações e discordâncias. Entre os integrantes de um mesmo grupo ou entre grupos antagônicos, sempre haverá o consenso e o dissenso operando simultaneamente.

Em sentido amplo, faz-se política numa agremiação patronal que almeja diminuir os salários dos trabalhadores, como na articulação sindical de metalúrgicos que param as máquinas por melhores salários e condições de vida. Faz-se política, inclusive quando se quer reestabelecer as bases de uma sociedade a partir de uma revolução, como ocorreu na França em 1789 e na Rússia em 1917.

A política é, em sentido último, o processo de mulheres e homens decidirem os rumos das sociedades. Quando se publica que não há mais esquerda, nem direita, esse é um ato eminentemente ideológico e político. Da mesma forma, fazer crer que é a economia, entendida por um mecanismo impessoal de números e probabilidades, de ofertas e demandas, que mede temperaturas e ânimos de uma entidade invisível chamada mercado, também é ser político e muito ideológico.

O filósofo Michel Foucault alertava em 1979 que “o mercado, de lugar de jurisdição que era até o início do século XVIII, está se tornando um lugar de veridição”[3]. Neste livro, Foucault faz uma genealogia demonstrando como até a instituição do casamento o (neo)liberalismo entende em termos econômicos: o chamado homo oeconomicus.

Em 1992, o então candidato à presidência dos EUA, Bill Clinton, divulgou uma frase, usada como mote interno de sua campanha, que viraria célebre mais tarde. Ela dizia: “É a economia, estúpido!” Por trás disso estava o aviso de seu guru, James Carville, solicitando que Clinton sempre lembrasse que é a economia que rege as vontades do povo.

Mas o que também estava por trás deste conceito era algo muito mais profundo: a ideia de que nossas vidas são regidas por não-atores: seriam tendências e números que nos apontariam o futuro, não a relação entre seres humanos. A ideologia neoliberal vende-se a si mesma como não ideológica, mas técnica: um manual de gestão frio que, como dizia Foucault, toma para si o papel da veridição.

No auge das vitórias que elegeram presidentes progressistas em grande parte da América Latina, o discurso da grande mídia seguiu o mesmo tom: “não é a esquerda que vence, é a economia que pede uma guinada”. A narrativa que os principais jornais do Brasil tentavam impor era a de que Lula havia unicamente se moldado aos anseios da economia e não que as pautas progressistas teriam, enfim, conseguido sensibilizar a maior parte da população nas urnas. Ou mais: que o sucesso desse governo se devia exclusivamente à “sorte” por conta de preços de commodities e da alta do petróleo no mercado internacional.

De novo, a história não era feita pelos atores que lutaram durante séculos a partir do chão de fábrica, ou dos quilombos, até chegarem às portas do Legislativo e que tiveram suas representações assentadas no Executivo. Para a ideologia neoliberal, o processo histórico é propriedade de uma “mão invisível”. No mundo real de carne, osso e sangue, sabemos, no entanto, que as costas lanhadas, a fome e a opressão diária só são amenizadas justamente quando se tornam bem visíveis, audíveis e presentes, em alguma medida, na direção deste processo.

É claro que houve uma adaptação do discurso do PT ao grande capital refletido em suas alianças políticas com setores da sociedade civil tradicionalmente refratários às suas bandeiras. A própria escolha do vice-presidente, o empresário José Alencar, dono da gigante Coteminas, demonstrava esta estratégia. Mas o que não seria tudo isso, senão o próprio sentido da política: o de conseguir consenso e maioria? Ou melhor: o que não seria tudo isso senão lutar dentro desse jogo, que todos nós escolhemos jogar, que é o da representação liberal garantida pela Constituição de 1988?

Quando digo “todos”, refiro-me inclusive aos que, pelo lado oposto, ajudaram indiretamente na construção da ideia de que não era a “esquerda” que chegava ao poder. Não exatamente como diz o discurso da grande mídia, de que não há esquerda, nem direita, mas tentando atribuir aquele projeto vitorioso a uma esquerda não verdadeira.

Reparem como o conceito de verdade está em disputa: por um lado, neoliberais acreditam que a veridição se dê a partir dos mercados, suas ofertas e demandas. Do outro, a vanguarda da esquerda racional diz que a verdade está num plano que já foi escrito e, portanto, a realidade deva se adequar a ele sob pena de trair esta verdade.

Em ambos os casos, não existem atores, não há carne humana e, por isso, não há história, diria o historiador Marc Bloch. Tanto a cultura de um povo ou de uma cidade, suas dores e desamparos, como suas glórias e potências ficam submissas a um idealismo árido que, por ser ideal, será sempre frustrado.

Eis que em 2018, o fenômeno do bolsonarismo, que vinha sendo gestado desde 2013 sob os olhos de muitos que viam, mas não enxergavam, resolve tomar para si a palavra e dizer: são todos comunistas. Todos os meninos que vestem rosa, as meninas que vestem azul, os maconheiros, as aborteiras, os gays, os petistas, os pessolistas, os liberais moderados, todos esses seriam a “esquerda” para os ideais que embalavam os discípulos de Damares Alves e Olavo de Carvalho.

O que fez o discurso (neo)liberal, então, foi valer-se de seu manto ideológico transparente e apontar, a partir de um “não-lugar”, um resgate de uma polarização que punha bolsonaristas, de um lado; e petistas, do outro. Logo esse discurso, partilhado também por banqueiros, Paulo Guedes, Ricardo Salles e Partido “Novo” que sentam em peso na reunião ministerial e na bancada do Jornal Nacional.

Claro, depois de anos de operação Lava-Jato, vendida como neutra e apartidária por esses veículos, a criminalização da política era caminho fácil a ser seguido: era necessário, para os think tanks (neo)liberais, manter perigosamente o status quo onde nadaram de braçada os quebradores de placa e os milicianos.

A intenção ideológica que pinta o petismo como um “bolsonarismo de sinal trocado” parte do mesmo princípio de que “não existe esquerda nem direita”. A ideologia neoliberal é necessariamente uma construção em terceira pessoa preposicionada: ela precisa ser indeterminada para existir. Caso contrário, quando toma a cena e as capas dos jornais, com seus leilões privatizantes, seus lobbys bilionários e seu modus operandi perverso, faz muita gente se indignar. Vide o que o atual apagão da mobilidade urbana, por conta da pandemia, fez com a opinião pública quando as pessoas puderam tomar consciência da crueldade a que são submetidos os trabalhadores de aplicativos, por exemplo.

Mais recentemente, quando o governo Bolsonaro e seus fiéis apoiadores passaram não só a exibir os caninos para a grande mídia, como a colocar a máquina pública para atacar a imprensa, surge um artigo do grupo O Globo chamando o PT para conversar. Mas com condições: manter Lula fora do jogo; Haddad, sim, poderia ficar.

Normal, intenções fazem parte do jogo. No entanto, seria mais digno que, ao menos, os veículos (neo)liberais de mídia explicitassem claramente que todos fazemos política: quando se vota em memória de um torturador, quando se cria uma aliança partidária ou quando um jornal é financiado por um grupo econômico e tem lá seus preferidos na condução do ministério da fazenda.

Em artigo[4] publicado em 2017, Tomás Undurraga resumiu parte de sua pesquisa etnográfica de pós-doutoramento sobre o jornal Valor, feita no University College London, no Reino Unido, mostrando como as redações foram cada vez mais sofrendo a influência das “fontes do mercado financeiro”. No texto, Udurraga traz as falas de alguns editores que lamentavam a perda de conexão com o que chamaram de “real economia” (indústrias, pequenas e médias empresas, empregados, realidades do interior do Brasil etc.) em contraposição à “agenda liberal dos investidores e banqueiros”.

Ou seja: não é somente a economia, entendida como números e sistemas, que continua a ditar a opinião pública – ou publicada – dessas mídias, mas uma economia ainda mais impessoal, onde nem há lastro sequer de produção e valores com o mundo real.

A pandemia de Covid-19 é uma lição, dentre tantas, de que o mundo não é um sistema invisível de bitcoins e ânimos de entidades fantasmagóricas, como um mercado que se assusta e se deprime. Por trás desses deuses imaginários, há pessoas sofrendo por decisões estúpidas de homens e mulheres que jogam a vida e a morte de milhões de seres humanos em ações na bolsa e na definição dos rumos de um país.

É a política e sempre será.

[1] SOUZA, J. (2017). A elite do atraso. Rio de Janeiro: Leya, 2017, p.11.

[2] Asignación Universal por Hijo, um programa argentino, semelhante ao Bolsa Família brasileiro, criado em 2009 pela então presidenta Cristina Fernández de Kirchner, que prevê uma quantia por filha(o) (até o limite de cinco). Tanto a mãe, quanto o pai, podem solicitar o auxílio junto ao governo. A lei argentina deixa explicita, no entanto, a preferência pela solicitação por parte da mãe. Há exigência de que a(o) filha(o) esteja devidamente matriculada(o) numa instituição de ensino.

[3] FOUCAULT, M. (2008). O nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, p.45.

[4] Undurraga, T. (2017). Making News, Making the Economy: Technological Changes and Financial Pressures in Brazil. Cultural Sociology11(1), 77-96. https://doi.org/10.1177/1749975516631586

 



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