New York Magazine, o mundo em revista
Você tem que ser o melhor, o número um – o segundo lugar e nada é a mesma coisa
Em 2025, ao editar o meu livro New York, New York, escrito em 1988, após um pós-doutorado na New School for Social Research, me deparei com a edição de 25 de abril de 1988 da New York Magazine. Entre 1985 e 1987, para acompanhar a programação cultural que a cidade oferecia, eu tinha inicialmente assinado a consagrada The New Yorker. Mas tive que cancelar a minha assinatura porque a revista não se dignava a informar a programação de “baixa cultura”.
Na relação de filmes da New Yorker, entre as diversas reprises, nunca sobrava espaço para mais de dois ou três lançamentos. A New Yorker escolhia pelo leitor; e eu preferia fazer a minha própria seleção. Adorava as reprises, mas gostava de ver os novos também. O Village Voice era dirigido para um público hippie-velho e o The New York Times eu achava que sujava as mãos. Claro que eu poderia ler o jornal usando luvas. Mas, como Jorge Luis Borges, acho que nada de novo acontece em 24 horas. A imprensa, então, precisa ficar inventando notícias – e não existe nada mais alienante do que ficar lendo notícias criadas. Troquei, então, a New Yorker pela New York Magazine, a revista cultural mais yuppie de Nova York.

Para se ter uma ideia da cáustica crítica nova-iorquina, a New York Magazine dizia que Spielberg, em The Color Purple, tratava os negros como a Disney trata os animais – e esta era a revista mais fútil de Nova York. A New Yorker sequer mencionava as grandes produções comerciais – The Color Purple e Out of Africa, ambos lançados em 1985, simplesmente não existiam. No extremo oposto, Out of Africa foi capa da francesa Pariscope (revista descontinuada em 2016), que recomendava, “não vá trabalhar, fique doente, arrume uma desculpa qualquer, Out of Africa está entrando em cartaz…”
Publicado somente em 2025, 37 anos depois de redigido, New York, New York transformou-se numa viagem no tempo e no espaço. Considerando que Nova York era o centro do mundo nos anos 1980, “o mundo em revista”, a que me refiro no título, não é um panorama do mundo – é o mundo (Nova York), do ponto de vista da New York Magazine.
Por algum motivo, mesmo com a assinatura vencida, eu continuei recebendo a New York Magazine – mesmo depois que voltei para São Paulo. Em Nova York, quando você muda de residência, comunica o seu novo endereço ao correio e a agência remete a sua correspondência para o seu novo lar por um ano, qualquer que seja a cidade no mundo, sem nenhum custo adicional – esta é a razão de eu ter hoje em meu poder o número da New York Magazine de 25 de abril de 1988. Na época, eu só consultava a programação cultural do magazine. Mas, para editar o livro, me dediquei a folhear a revista de ponta a ponta.
Já na capa, me deparei com o título The Top 20, os mais importantes nova-iorquinos. A competitividade atravessa a sociedade e a imprensa norte-americanas. Nessa minha viagem no tempo, me detive até nas propagandas e nos anúncios “estritamente pessoais” que figuram nas últimas páginas da revista, em que um senhor de 38 anos de idade está “procurando uma mulher sincera para um grande futuro”. Entre as qualidades que ele procura na mulher, ele destaca que ela precisa ser successful, bem-sucedida, uma mulher de sucesso. Durante meu pós-doutorado, por acaso, participei de um curso de redação em inglês, que logo abandonei. O professor insistia em dizer, “você tem que ser o melhor, o nº 1 – o segundo lugar e nada é a mesma coisa”.
A cereja do bolo
Woody Allen figurava entre os Top 20 da New York Magazine de 25 de abril de 1988, “porque seus filmes criaram uma Nova York mágica para o resto do mundo”. O prefeito Ed Koch, que competia com Woody Allen, também estava entre os 20+. Crescia o número de camelôs em Manhattan e o prefeito, em uma entrevista, disse que Nova York estava parecendo Bangladesh. As autoridades de Bangladesh se declararam ofendidas e Ed Koch teve que se retratar, “Deus livre Bangladesh de se parecer com Nova York”.
Além desses dois, eu só “conhecia”, por acaso, mais um dos 20 nova-iorquinos listados, um sujeito que havia comprado o ícone Plaza Hotel – que fora residência de Scott Fitzgerald e imortalizado em The Great Gatsby –, sede do tradicional Oak Room, bar e restaurante, um de meus favoritos. A propósito, me deparei com uma propaganda na revista que destacava que o Oak Room era frequentado por Marilyn Monroe.
A cereja: o nome desse sujeito é Donald Trump, “porque os seus prédios, seu livro e seu ego são muito maiores do que a vida”. Quem assinou o artigo sobre o Trump foi a colunista de fofocas Liz Smith, que o achava direto, franco e engraçado – jovem, energético, egocêntrico, atraente, bem-sucedido, vaidoso e rico, “jamais lhe ocorreu manter a boca fechada”. E ele quase nunca profere uma $entença sem falar de dinheiro. Trump é a perfeita síntese da competição e a irradia à sua volta. Liz finaliza seu artigo dizendo, “E, de qualquer forma, eu não resisto a um homem que me chama de ‘pão de mel’. Imagino que um dia ouvirei isso quando estiver na fila de recepção da Casa Branca.” Maldita premonição!
Em 1988, há 37 anos, Trump tinha 41 anos de idade e já era muito polêmico – “alguns fazem fila para comprar o seu livro e ter o seu autógrafo, enquanto outros simplesmente não se cansam de caçoar e censurar seu elevado padrão de vida e comportamento”. Hoje, à frente do agonizante Império Americano, que ainda nem completou um século de vida, as idiossincrasias de Donald Trump fazem dele a pessoa mais falada do mundo em revista (com Elon Musk lavando roupa suja em público).
Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de New York, New York.

