No Correio francês, “gente pouco adaptada” - Le Monde Diplomatique

SUICÍDIOS

No Correio francês, “gente pouco adaptada”

por Noëlle Burgi
31 de julho de 2013
compartilhar
visualização

Antes pouco comuns e raramente noticiados, os suicídios nos locais de trabalho se tornam cada vez mais frequentes. Em questão estão a intensificação do trabalho e o isolamento, enquanto os coletivos se quebram em razão da competição por salários. No Correio da França, a hecatombe continua sem que os dirigentes se mexamNoëlle Burgi

Entre maio de 2009 e maio de 2013, pelo menos 97 funcionários do Correio francês se suicidaram ou cometeram tentativa de suicídio. Os números levantados (ainda amplamente desconhecidos) entre os carteiros não são exaustivos, mas são verificáveis. Essa hecatombe coincide com a aceleração da reestruturação – a passos forçados – da empresa, que se tornou uma sociedade anônima de direito privado em 1º de março de 2010.

A abertura dos serviços postais à concorrência de mercado, orquestrada desde 1992 pela Comissão Europeia e imposta aos Estados-membros da União Europeia por meio de três diretivas (1997, 2002 e 2008), sempre esteve em harmonia com os projetos das “elites” econômicas e políticas francesas. Nos anos 1960, os modernizadores já pensavam que o estatuto de funcionário poderia ser “esvaziado de sentido por uma política progressiva, a passos lentos”.1 Cinquenta anos depois, esses passos lentos foram substituídos por uma britadeira.

Entre 2009 e 2011, 25.600 postos de trabalho2 foram suprimidos do Correio francês – mais do que os 22 mil programados entre 2006 e 2009 pelo diretor executivo da France Télécom-Orange, Didier Lombard. Seus métodos provocaram uma onda sem precedente de suicídios, que foi investigada em julho de 2012.

No Correio, Jean-Paul Bailly, nomeado diretor executivo em 2002, preparou a liberalização modificando profundamente a organização dos serviços, os métodos e as condições de trabalho. De uma só vez, planejou a diminuição drástica dos efetivos sem nenhum planejamento social, com base em estratégias como a não substituição de demitidos ou aposentados.

Contudo, a distribuição da correspondência, principal atividade do grupo, exige mão de obra. Uma estratégia de terceirização eliminou cerca de 10 mil agências de correio, substituídas por “pontos de correio comerciais” ou “agências postais comunitárias”. Com a venda do patrimônio, o grupo espera embolsar 1 bilhão de euros até 2015. Da mesma forma, uma vasta operação de modernização da ferramenta de tratamento da correspondência (a triagem mecanizada) reduziu o tempo de trabalho de preparação e permitiu aumentar aquele consagrado às entregas, de modo que se reduziu o número de carteiros. Contudo, apesar dos ganhos de produtividade, o trabalho precário permanece crônico.

 

“Em busca de postos” na própria empresa

Reorganizações permanentes são impostas aos assalariados sem que sejam levadas em conta as situações reais de trabalho, seus efeitos físicos e psíquicos, o estresse. Os esforços dos agentes do Correio não são reconhecidos: promoções adiadas para eternos amanhãs, formação profissional deficiente, pressões por demissão. Segundo o relatório da comissão chamada “Grande Diálogo”, criada em 2012 por Bailly e presidida pelo ex-secretário-geral da Confederação Francesa Democrática do Trabalho (CFDT) Jean Kaspar, cerca de 1.800 pessoas estão “em busca de postos”, principalmente os quadros e quadros superiores suprimidos pelo Correio. As horas extras não remuneradas são cotidianas, enquanto o salário dos carteiros, segundo o próprio Bailly, “não tem nada de mirabolante”; eles não têm “nada a perder, exceto o Correio”, como ele mesmo observa.3

Mesmo que todas as funções sejam afetadas, a medicina do trabalho constata que é na parte de entrega e encomendas que os funcionários mais padecem de problemas relacionados a gestos e posturas, como ficar em pé por muito tempo ou carregar cargas pesadas – atividades cujos efeitos são agravados pela ausência de pausas ou de alternância de tarefas e pela duração excessiva do trabalho. Da mesma forma, os exames para identificar doenças do trabalho colocam em evidência a maioria esmagadora das síndromes ligadas a depressão e ansiedade, insônia, distúrbios mentais e síndromes de esgotamento profissional (burn out).

Essas patologias geram um custo importante à empresa: absenteísmo e acidentes de trabalho, limitações da capacidade produtiva e, para além disso, desmotivação salarial e queda na qualidade do trabalho. Seus custos financeiros são repassados à previdência social, enquanto as consequências sociais são transferidas aos próprios funcionários.

 

Desprezo do diretor executivo

A direção da empresa não ignora nenhum desses aspectos. O relatório Kaspar descreve essa degradação das condições de trabalho. Contudo, preocupado em apresentar uma versão “equilibrada” dos fatos, o documento não explicita sua relação com a estratégia produtivista do grupo, considerada “legítima”. Os relatos de funcionários afetados não foram levados em conta, tampouco foram anexadas as propostas do sindicato. O relatório previa a abertura de oito frentes de negociação. Esse mesmo cenário já foi experimentado pela France Télécom: após uma pausa, a reorganização da empresa foi retomada com mais vigor, com as consequências que sabemos. Anunciado com fanfarra, o resultado mais tangível do relatório – a contratação de 15 mil carteiros em três anos, em vez de 10 mil – não compensa as saídas, duas vezes mais numerosas.

Desde 2009, um dispositivo de avaliação e acompanhamento do estresse profissional e um questionário complementar são usados nos serviços para identificar e avaliar os riscos patógenos, físicos e psíquicos (estresse, violências internas e externas). Esse protocolo tem o mérito de existir, mas sua eficácia em termos de prevenção é nula. Os riscos psicossociais ligados à organização do trabalho – reorganizações e mudanças permanentes, principalmente – não são identificados nem tratados. Essa carência foi determinante na investigação de Lombard.4

De repente, os suicídios são facilmente imputados às “fragilidades pessoais” de “pessoas pouco adaptadas”, apoiadas por “sindicatos minoritários” (Sul) cujas formas de protesto – considera com desprezo Bailly – se alimentariam de “fatos banais” e da “emoção e da midiatização”. Segundo ele, “todos os barômetros são tranquilizadores: relações no trabalho, satisfação, orgulho de pertencer à empresa”.5



Artigos Relacionados

Eleições

A política não cabe na urna

Online | Brasil
por Mariana de Mattos Rubiano
IMPACTOS DA CRISE E DA GUERRA NA ECONOMIA CHILENA

Surto inflacionário agrava a crise alimentar

por Hugo Fazio

Junho de 2022: o plano Biden para a América do Sul

Online | América Latina
por Luciana Wietchikoski e Lívia Peres Milani
PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO POLÍTICA E SOCIAL

A reta final da Constituinte chilena

Online | Chile
por David Ribeiro
ARGENTINA

Isso não pode acontecer aqui...

Séries Especiais | Argentina
por José Natanson
RESENHAS

Miscelânea

Edição 180 | Brasil
ENTREVISTA – EMBAIXADORA THEREZA QUINTELLA

Balança geopolítica mundial deve pender para o lado asiático

Edição 180 | EUA
por Roberto Amaral e Pedro Amaral
UMA NOVA LEI EUROPEIA SOBRE OS SERVIÇOS DIGITAIS

Para automatizar a censura, clique aqui

Edição 180 | Europa
por Clément Perarnaud