No Magreb, os blogueiros estão cansados - Le Monde Diplomatique

CIBERATIVISMO

No Magreb, os blogueiros estão cansados

por Smäin Laacher e Cédric Terzi
6 de fevereiro de 2012
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Se a saída de Zine al-Abidine ben Ali foi celebrada em um grande movimento de unidade nacional, ela também marcou o retorno das divisões. Privados da figura do inimigo, os ciberativistas se tornaram concorrentes políticosSmäin Laacher e Cédric Terzi

 

 
As revoltas árabes fizeram emergir na mídia a figura do ciberativista, documentando as condições de vida da população e o sentimento de injustiça que elas geram. Provenientes de meios urbanos e ricos, muitas vezes sem experiência militante, a maioria desses jovens com idade entre 20 e 30 anos reivindica o caráter apolítico de seu engajamento. Mas a repressão os uniu. “Na época de Ben Ali”, observa o blogueiro tunisiano Hamadi Kaloutcha,1 “nós éramos cem ou duzentos ciberdissidentes. Sozinhos contra todos. A polícia da internet fazia de tudo para nos desacreditar. No final, essa ameaça nos ajudou muito: obrigou-nos a dar provas de uma total seriedade.”Se pontos comuns unem os cibermilitantes do Magreb, sua identidade depende muito do quadro nacional. No Marrocos, os mais conhecidos são engenheiros ou jornalistas. Já na Tunísia, eles pertencem principalmente ao mundo das artes e da cultura.

Os comentários celebrando a “revolução Facebook” na Tunísia não ajudam a compreender como os blogueiros tunisianos passaram do entusiasmo ao desencanto. Manichaeus2 resume assim o estado de espírito atual: “Eles estão de luto”. Foi na internet que tomaram consciência de que o regime lhes era insuportável e que eles podiam criticá-lo publicamente. Todos os que conhecemos mencionaram o papel precursor da TuneZine, uma revista de oposição on-line lançada em 2001 pelo economista Zouhair Yahyaoui, o primeiro “mártir ciberativista”.3 Para eles, entrar no universo da internet significava experimentar um distanciamento crítico em relação ao sistema e, mais amplamente, em relação à sociedade tunisiana. Animados por uma ambição literária, muitos blogueiros relataram a vida cotidiana, as dificuldades e os sofrimentos de seus compatriotas. Isso não os colocou ao abrigo da censura, das intimidações policiais e, para alguns, da prisão − como Fatma Arabicca, cuja prisão, em 2009, provocou uma mobilização nacional e internacional que acarretou sua libertação.4

Desde então, não cessaram de se opor a “Amar 404” (o personagem imaginário que divulga o “erro 404”, que indica aos internautas que eles não têm acesso a uma página da Web), ironizando-o constantemente. Entretanto, sua luta tomou uma dimensão nova na primavera [do Hemisfério Norte] de 2010, quando a censura atingiu o conjunto dos usuários do Facebook. Uma petição on-line recolheu mais de 10 mil assinaturas. Alguns ciberativistas tomaram então a decisão, inconcebível à época, de pedir oficialmente a autorização de se manifestarem contra a censura em 22 de maio. Interpelados pela polícia, renunciaram, mas convidaram todos os cidadãos a se reunir na principal avenida de Túnis vestindo uma camiseta branca. Yassine Ayari,5 um dos instigadores dessa mobilização, a apresenta como “uma reviravolta”.

Todos contam com emoção como, em dezembro de 2010, eles receberam e divulgaram as imagens de policiais atirando com balas reais nos jovens manifestantes. Sentiram-se então envolvidos em um extraordinário sentimento de solidariedade nacional que os lançou nas ruas e os manteve acordados noites a fio, atrás das telas de seus computadores, para divulgar as imagens das manifestações e os excessos dos policiais.

 

Cacofonia indescritível

Em retrospectiva, essa prova coletiva aparece como o momento de unificação de uma comunidade que imediatamente se desagregou. Se a saída de Zine al-Abidine ben Ali foi celebrada em um grande movimento de unidade nacional, ela também marcou o retorno das divisões. Privados da figura do inimigo, os ciberativistas se tornaram concorrentes políticos. Suas relações foram minadas pela rivalidade, a desconfiança, a difamação: “Os inimigos não são evidentes; não sabemos mais quem é inimigo de quem”, conta-nos A Tunisina Girl,6 uma das blogueiras mais midiatizadas nos países ocidentais. “É isso: estamos divididos agora. Alguns blogueiros se apoiam, outros não.” Hamadi Kaloutcha também está desiludido: “Desde 14 de janeiro de 2011, a internet se tornou um zum-zum geral, no meio do qual não conseguimos mais pensar. É difícil para nós nos fazermos ouvir no meio das lutas partidárias”. É preciso lembrar que as redes sociais acolheram um excesso de novos inscritos, entre os quais muitos opositores, que divulgam falsas informações, traficam vídeos e fotografias, o que resulta em uma cacofonia indescritível.

O entusiasmo dos comentaristas ocultou a experiência dos ciberativistas tunisianos. No entanto, suas angústias mereciam ser ouvidas, mesmo que denunciassem as certezas amplamente compartilhadas que são impostas ao estrangeiro. Não é evidente que os governos, as mídias e os pesquisadores ocidentais que lançaram os blogueiros como porta-vozes legítimos do povo tunisiano à frente da cena pública tenham prestado um grande serviço à unidade das forças progressistas.

Smäin Laacher e Cédric Terzi são sociólogos, membros do Centro de Estudos dos Movimentos Sociais (CNRS-EHESS).



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