No Mississippi, as fraturas da América profunda - Le Monde Diplomatique

ESTADOS UNIDOS

No Mississippi, as fraturas da América profunda

por Olivier Cyran
3 de abril de 2012
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Próximo do fundamentalismo cristão, Rick Santorum triunfou, em 13 de março, na primária republicana realizada no Mississippi. Ao final, ele não será o candidato escolhido por seu partido, mas essa vitória confirma o paradoxo eleitoral dos EUA: é nas regiões pobres que os conservadores conquistam os melhores resultadosOlivier Cyran

No edifício da Guarda Nacional do Mississippi, o vento quente do sul agita a bandeira da União e a confederada, ambas lado a lado. É nessa instituição patriótica que trabalha Lindsey Lemmons, uma mãe de família branca, que se define como “bastante tradicionalista” e declara levar “um revólver no bolso” todas as manhãs, quando sai para fazer sua corrida. Esse perfil não é exatamente o de uma manifestante anticapitalista, mas a senhora Lemmons é uma das figuras do movimento Ocupar Jackson, ramo local do OWS (Ocupar Wall Street). No segundo semestre de 2011, ao lado de cerca de vinte outros manifestantes, ela acampou por dois meses em Smith Park, o jardim público da capital do Mississippi. Diga-se de passagem que foi correndo pelo bairro que ela descobriu a existência da ocupação e decidiu participar. “Não sou de esquerda, contrariamente a alguns dos manifestantes do movimento. Mas, como eles, sou contra a avidez dos bancos e das multinacionais e a influência que exercem sobre a vida política de nosso país”, diz. Será que esse estado de espírito é compartilhado pelos “99%” que o movimento afirma representar? No Mississippi, o estado mais pobre e também um dos mais conservadores dos Estados Unidos, isso não é bem evidente.

Um campo de golfe sinaliza a entrada de Brandon, a periferia residencial onde mora a senhora Lemmons. “Jackson perdeu sua população branca nos anos que se seguiram ao fim da segregação racial, e muitos se instalaram aqui”, explica. Segundo o primeiro recenseamento, a população de Brandon, da qual 87% é branca, tem uma renda média por habitante quase duas vezes mais alta que a de Jackson, 81% negra. Mas, para alguns, ainda há muita miscigenação. “Tenho vizinhos que se queixam, porque há cada vez mais negros no bairro, quase 30%. Eles temem que isso provoque a queda do valor dos imóveis”, alerta.

Impossível saber como seus vizinhos conseguem recensear os negros que vivem por ali: o bairro de Evergreen Estates é formado por casas espalhadas pela mata. Mas o velho tempero segregacionista é, no mínimo, tão tenaz quanto o medo do pequeno investidor relativamente a seu bem imobiliário. Se dermos crédito a uma pesquisa recente, 46% dos eleitores republicanos do Mississippi estimam que os casamentos inter-raciais deveriam ser proibidos.1 “Seguramente foi por uma boa razão que Deus nos criou de cores diferentes, e convém honrar sua vontade, não nos casando com alguém de outra cor, diferente daquela que ele escolheu para cada um de nós”, argumenta uma moradora do Mississippi.2 Como demonstra a vitória do ultraconservador Rick Santorum nas primárias republicanas do Mississippi, em 13 de março, a Bíblia e o fuzil ainda formam uma combinação bem-vista. O que é confirmado, a seu modo, por uma vizinha da senhora Lemmons: republicana e cristã até a raiz dos cabelos, ela se declara favorável ao aborto, pela simples razão de que “isso elimina sobretudo os pobres e os negros”.

Um século e meio depois, a derrota dos escravagistas na Guerra de Secessão ainda não foi completamente digerida: metade dos eleitores republicanos lamenta a vitória da União. Para o visitante desinformado, o modo como a história da escravidão é apresentada pode ser desconcertante. Em Vicksburg, cidadezinha localizada no Alto Mississippi, o museu da Antiga Corte de Justiça dedica uma sala à memória de Jefferson Davis, o efêmero presidente dos Estados Confederados. Nela, exibida em letras garrafais, a declaração atribuída a um escravo do patriarca: “Cada homem de cor do qual ele era proprietário o adorava”. A escravidão como signo de gentileza? Isso nos remete à frase de Black boy, a obra autobiográfica na qual Richard Wright fala da infância pobre no Mississippi dos anos 1920 e do terror permanente que ele sentia diante do homem branco: “Eu sabia que todos os brancos do sul diziam ser amigos dos negros”.3

A esse respeito, surge uma discussão com Bill Sanders, um fazendeiro branco que foi à falência antes de passar a trabalhar com conserto de equipamentos e máquinas agrícolas. Nas horas de folga, ele gosta de ir ao museu de Vicksburg para informar os turistas desinformados. “Fala-se muita bobagem sobre os escravagistas, como se eles tivessem sido brutais, racistas e esse tipo de coisa, mas na verdade os negros eram muito mais bem tratados naquela época do que hoje em dia. Casa e comida, como contrapartida de trabalho, é melhor do que crack comprado com o dinheiro dos subsídios sociais que recebem, acreditem.” Sanders diz receber US$ 2.300 por mês, “pouco, quando se paga US$ 1 mil de aluguel e assistência médica”. Wall Street? “Ladrões, todos coleguinhas de Obama.” Mas nem por isso ele vai ocupar os espaços públicos “com comunistas que querem desarmar nosso Exército”. Sanders não simpatiza muito com os republicanos “e suas embrulhadas”, mas gosta bastante de Santorum: “É um sujeito que acredita no que diz”.

O guia voluntário do museu de Vicksburg é a própria imagem do Mississippi: pobre, mas ideologicamente do lado dos ricos. O ganho anual médio por habitante é o mais baixo do país (US$ 35 mil, contra US$ 65 mil em New Hampshire), mas nem por isso os eleitores deixam de votar no candidato republicano nas eleições presidenciais, há quarenta anos. O “estado das magnólias” é considerado causa perdida para os democratas de Washington, a ponto de a equipe de Barack Obama tê-lo eliminado do planejamento de campanha.

Mas nem sempre foi assim. Durante boa parte de sua história, a maioria branca do Mississippi (que representa hoje 60% da população, contra 37% de negros) era pró-democratas identificados ao “modelo sulista”, em oposição aos yankeesrepublicanos. A partir de Franklin D. Roosevelt – eleito no Mississippi com 95,98% dos votos –, em 1933, e a grande fusão operada nos estados do norte, entre eleitores negros e partidários do New Deal, o Partido Democrata promoveu uma longa revolução cultural, concretizada trinta anos depois com o apoio da direção nacional ao movimento pelos direitos civis. Decepcionados, os democratas do sul – os “Dixiecrats” – tentaram durante alguns anos preservar seu terreno segregacionista, perante os “traidores” nortistas, antes de se conformar e rasgar a carteirinha do partido. Dali em diante, caberia ao Partido Republicano o papel de defensor do Southern way of life. No Mississippi, a eleição presidencial de 1972 consagrou essa inversão de papéis, com uma vitória histórica de 78% dos votos em favor do republicano Richard Nixon.

Ernest Camel, um jovem militante negro do movimento Ocupar Jackson, faz um rápido resumo do panorama político local: “Aqui é simples: os brancos votam nos republicanos e os negros nos democratas. Por tradição, para imitar o vizinho, por causa da publicidade na televisão ou das pregações na igreja. Como existem duas vezes mais brancos do que negros, é o Partido Republicano que ganha. Seja como for, negro ou branco, nos Estados Unidos o povo raramente vota em quem defende seus interesses”. Camel é o responsável pelo jornal interno editado pela Universidade do Estado de Jackson, frequentada quase exclusivamente por estudantes negros; um emprego que dá “mal e mal para pagar as contas”. Quanto ao racismo, ele diz não ser vítima, praticamente, ou em todo caso muito menos do que o pai, quando era operário no Kentucky.

Camel tem preocupações mais urgentes. Sua avó, Margareth, de 72 anos, trabalhou a vida toda para criar os oito filhos. Em 2005, fugiu do furacão Katrina, que destruiu sua casa, em New Orleans, e se instalou na casa de parentes, em Jackson. Além da pouca bagagem, levou com ela a cadeira de rodas oferecida pelo Medicare, o programa federal destinado aos idosos. Mas, algumas semanas depois, uma norma decretou que ela deixava de ter direito à cadeira de rodas. Mistério. Teria sido por que ela não dispõe de um convênio médico particular, que muitas vezes é obrigatório, para quem recorre à generosidade pública? Seja como for, certa manhã uma equipe enviada pela Medicare bateu à porta de seu refúgio no Mississippi para buscar a cadeira de rodas. “Eles me disseram que a cadeira custava US$ 6 mil, mas eu respondi que não tinha esse dinheiro. Então eles a levaram.” Desde então, ela reaprendeu a andar, dando pequenos passos, rangendo os dentes, com as duas mãos apoiadas no quadril cansado.

Quentin Whitwell tem uma fisionomia mais relaxada. Filho e neto de advogados, como ele mesmo, é uma das figuras mais promissoras do Partido Republicano. É o único conservador – e um dos únicos brancos a ter um cargo no conselho municipal de Jackson, dominado pelos democratas. Ele fundou uma agência de lobby, a Talon Group, que defende os interesses das maiores empresas do Mississippi e da Louisiana. Que solução ele preconiza contra a pobreza que se abate sobre a população? “Precisamos de menos Estado e mais responsabilidade. Atrair as empresas, criar empregos, trabalhar para que a população se livre da mentalidade assistencialista.” As pessoas devem, segundo ele, seguir seu exemplo: “Tive sorte, é verdade, mas meu sucesso não me foi dado, eu o construí”. Como demonstração do que fala, Whitwell mostra um exemplar do romance de sua autoria que acaba de publicar: uma obra inscrita “na tradição literária de William Faulkner, Tennessee Williams e Richard Wright”, estampa a quarta capa. Aliás, é em Wright que pensamos quando o escritor de final de semana ressalta para quem quiser ouvir que ele tem “muita simpatia pelos afro-americanos”.

O mantra de Whitwell – atrair empresas, criar empregos – já encontrou sua expressão mais completa. Nos últimos anos, dezenas de multinacionais, como a Toyota ou a Rolls-Royce, se instalaram no Mississippi. Na página da internet, a agência estatal de desenvolvimento exalta o “clima extremamente favorável” reservado aos investidores, assim como a presença de uma “mão de obra qualificada, numerosa e não sindicalizada”.

 

“Salário? Que salário?”

Nas zonas mais conservadoras do Mississippi ainda é possível encontrar empregadores que consideram extravagante a simples ideia de pagar os empregados. Esse é o caso de Vancleave, uma cidadezinha tristemente discreta e ordeira, de 5 mil habitantes, situada no extremo sul do estado, perto da costa do Golfo do México. Ali, de cada dez habitantes nove são brancos e republicanos. Sally Bevill, também branca, trabalha como pastora na Igreja metodista. Mas em 2008 votou em Obama, o que pretende fazer novamente este ano. “Antes, eu trabalhava em Biloxi, na costa. Era melhor. Mas um dia, em 2005, abri as portas da minha igreja a desabrigados, cujas casas acabavam de ser destruídas pelo furacão Katrina. As pessoas ficaram escandalizadas e meus superiores também. Como punição, fui designada a oficiar em Vancleave, a paróquia mais reacionária da região, o que é bem significativo.” A senhora Bevill piorou as coisas, oferecendo ajuda e assistência aos imigrantes da América Latina, explorados nas granjas de criação de frangos, a principal fonte agrícola do Mississippi desde o declínio da produção de algodão. Sua simpatia pelos “latinos” choca seu rebanho de fiéis, mas também há quem veja nessa situação uma ocasião de recrutamento de mão de obra sem a necessidade de pagar comissão às agências. “Certo dia, um fazendeiro veio me ver para perguntar se eu poderia fornecer a ele um casal de latinos para trabalhar como empregados domésticos. E me garantiu que estava disposto a dar moradia a eles, além de comida”, conta a excêntrica pastora. Quando ela perguntou sobre a carga horária de trabalho, o fazendeiro deu de ombros, indicando que aquele era um trabalho que exigia “bastante disponibilidade”. Em seguida, ela quis discutir a questão do salário. “Ele me olhou com os olhos arregalados: ‘Salário? Que salário? Se eu já disse que estou disposto a dar a eles casa e comida, você ainda quer que eu os pague?’. É assim, essa é a mentalidade de muita gente aqui. A escravidão ainda impregna a mente de muitas pessoas.”

Dentro desse contexto, é capaz que os “99%” citados pelo movimento Ocupar Jackson devam ser reavaliados. A senhora Lemmons, citada no início, a desportista armada de Smith Park, admite: “O problema, além do 1%, são os 30% ou 40% que imaginam fazer parte desse 1%”. A composição da rede à qual ela pertence talvez indique que os determinismos mais resistentes podem desmoronar de uma hora para outra. Exemplo disso é Ed Yorum: por muito tempo, ele pendeu para o lado conservador. Veterano do Vietnã, ele sofre de uma forma rara de leucemia, em consequência do agente laranja (mistura de dois herbicidas fabricada pela Monsanto e utilizada como desfolhante na Guerra do Vietnã). Mas foram a crise de 2008 e a ajuda governamental aos bancos que o “deixaram furioso”: “Antigamente, os especuladores iam para a cadeia; hoje eles recebem bônus! Eu não quero mais essa América”.

Dos cerca de vinte acampados que ficaram oito semanas no meio de uma cidade sem pedestres, nenhum correspondia realmente ao perfil feito nos primeiros dias pelo jornal local, The Clarion-Ledger: “Um campo de treinamento marxista”. Entre os manifestantes, proletários e membros da classe média em processo de pauperização, brancos e negros, jovens que acumulam dois ou três empregos e pessoas idosas que ainda trabalham. Nenhum deles tinha tido qualquer atividade militante anterior.

Mesmo assim, cerca duas dúzias de indivíduos, mesmo que somemos a eles os dois ou três simpatizantes que iam lhes dar apoio, esporadicamente, não perfazem 99% de uma população; a do Mississippi é de 3 milhões. Será que esses manifestantes podem ao menos se vangloriar de ter conseguido um efeito político tangível? A questão foi levantada em fevereiro, quando o grupo ocupou a sede da prefeitura de Jackson. O objetivo era convencer os políticos a assinar uma resolução do movimento OWS exigindo uma modificação da Constituição, visando limitar a influência dos meios de negócios sobre a vida política norte-americana. Em causa, o julgamento da Suprema Corte federal, de janeiro de 2010, que, em nome de uma concepção bastante extensiva da liberdade de expressão, autoriza as empresas e os grupos lobistas a injetar dinheiro sem restrição nos fundos de campanha de seus candidatos favoritos.4 Em reação a essa “legalização completa da corrupção ilimitada”, o texto proposto aos políticos proclama: “Apelamos aos governantes de todos os estados que aprovem a emenda à Constituição dos Estados Unidos, a fim de declarar explicitamente que as multinacionais não são a população, que elas não têm os mesmos direitos que o povo e que o dinheiro não constitui uma forma de expressão”.

Os políticos ficaram divididos. Dos seis conselheiros democratas, um apoiou a iniciativa – simbólica – do movimento; os demais hesitaram: eles não viram o menor interesse em agradar a um punhado de “esquerdistas”, mas também não querem dar aos eleitores a impressão de estarem defendendo as corporações. Repetidamente, eles adiaram o exame do texto para a sessão seguinte. Whitwell, político republicano lobista, que em outubro de 2011 classificou de “imbecilidade” a ocupação de Smith Park, evidentemente se recusou a concordar com um texto que pode desagradar a seus clientes.

Nesse meio-tempo, levada adiante pelos grupos locais do OWS e, sobretudo, pela impopularidade de Wall Street, a resolução rebelde avançou nos Estados Unidos. No final de fevereiro deste ano, o texto já tinha sido assinado por cerca de cem conselheiros municipais, em especial de Los Angeles e Nova York, assim como pelo Senado do Novo México. Na internet, surgiu um novo mapa, que rapidamente foi consultado por 300 mil internautas: as cidades e os condados que adotaram a resolução aparecem marcados com uma flâmula verde. E o mapa é implacável: se as bandeirinhas vitoriosas se concentram no norte e, principalmente, no nordeste norte-americano, no sul elas se destacam pela ausência, de uma linha que vai da Califórnia à Carolina do Norte, com exceção da Flórida. A oposição entre yankeese sulistas parece positivamente insuperável. Mas, em 6 de março, fato impactante: o conselho municipal de Jackson aprovou a resolução, por seis votos contra um. Lindsey, Ernest e os demais se congratulam: no Deep South, uma bandeira verde, uma única, foi plantada. Por enquanto, ela ainda não foi içada acima do pavilhão da Guarda Nacional, mas já é um primeiro passo.

Olivier Cyran é jornalista.



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