No Reino Unido, imigrante prisioneiros das castas - Le Monde Diplomatique

DISCRIMINAÇÃO PERSISTENTE ENTRE OS INDIANOS

No Reino Unido, imigrante prisioneiros das castas

por Alexia Eychenne
março 1, 2016
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Quando migraram para o Reino Unido tentando escapar do sistema de castas, em meados do século XX, os intocáveis indianos provavelmente não imaginavam que a estrutura social opressiva de sua pátria viajaria com eles. Há quem defenda que o Reino Unido deveria criar uma legislação contra esse tipo de discriminação para, fAlexia Eychenne

Ram Lakha galga veloz os degraus da ampla escadaria de madeira, conduzindo os visitantes pelas suntuosas salas medievais. O afável sexagenário conhece a prefeitura de Coventry como a palma da mão. Ele é conselheiro municipal nesse antigo centro industrial do Reino Unido, no coração de Midlands, há mais de 25 anos. Chegou mesmo a ser lord mayor (prefeito), em 2005 e 2006. Mas sua carreira política não teve um início muito auspicioso.

Em 1989, o Partido Trabalhista queria apresentá-lo para as eleições municipais, em um reduto da comunidade indiana. No meio do século passado, imigrantes da Índia afluíram para Coventry e suas fábricas ávidas por trabalhadores; 40 mil deles e de seus descendentes vivem hoje nessa cidade de 330 mil habitantes. “Os membros brancos do partido eram todos favoráveis à minha candidatura”, lembra Lakha, “mas meus companheiros de origem indiana foram contra”. Para eles, a diáspora não era um grupo de eleitores homogêneo, mas uma sutil mistura de cultos e castas, e a derrota de Lakha parecia certa. “Comentava-se que o campo adversário desencorajava o voto em um chamar”, conta o político. Nascido em Punjab e emigrado para o Reino Unido em 1977, ele de fato pertence a esse grupo de artesãos que lidam com couro e são considerados intocáveis, ou seja, inferiores à casta mais baixa. Lakha logo entendeu que esse estigma tinha ido com ele para o país que o acolhera. Já em sua chegada, ele sofreu intimidações vindas de colegas de fábrica oriundos das castas. “Desde a infância, aprendi a baixar a cabeça e desenvolver uma forma de resistência”, diz. Em Coventry, ele acabou sendo eleito em uma das áreas onde os eleitores de origem indiana são menos numerosos.

A história de Lakha ecoa muitos outros testemunhos de britânicos dalits, ou intocáveis. Pessoas cujos pais, ou elas mesmas, saíram da Índia há décadas, na esperança de escapar do sistema de castas hereditárias. Muitas desembarcaram no Reino Unido na década de 1950, após a independência da Índia, em 1947 – seriam 40 mil, 50 mil, 200 mil? Os números divergem, facilmente inflados pelas associações. O exílio deveria ter transformado a humilhação em lembrança longínqua. Mas o pertencimento ao grupo dos intocáveis ainda os assombra em suas relações com membros da diáspora – cerca de 1,5 milhão de pessoas: eles são insultados na escola, desprezados no trabalho e tratados friamente no guichê de uma repartição pública por outros membros da comunidade indiana.

É em torno da vida religiosa que as castas encontram seu lugar. Perguntar a alguém o templo que frequenta, como às vezes seu nome ou cidade de origem, permite situar esse indivíduo. Segundo Lakha, havia uma relativa diversidade nos anos 1950. Colegas de fábrica e companheiros de quarto em casas minúsculas, os primeiros imigrantes tiveram de se apoiar mutuamente, diante da hostilidade do país anfitrião. Mas as coisas mudaram na década seguinte, com o reagrupamento familiar. “As mulheres, muito pias e menos instruídas, retomaram a questão da pureza religiosa”, explica Nicolas Jaoul, pesquisador em Antropologia do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS). “Foi com a chegada delas que, sob a pressão de imperativos religiosos e familiares, foram criados templos por associação de casta e de financiamento comunitário.” As vidas sociais então novamente se fragmentaram.

Muitos dalits sentiram-se excluídos dos locais de culto fundados pelos jats, a alta casta mais presente no Reino Unido. “As pessoas [oriundas de diferentes castas] não rezavam nos mesmos templos e, principalmente, não casavam umas com as outras”, diz Satpal Muman. Essa situação dura até hoje. Ambedkarista,1 como seu pai e seu avô, Muman trabalha com informática em Londres; em 2003, fundou a CasteWatchUK, primeira associação a alertar sobre a persistência dos preconceitos. “O assunto voltava em conversas nas reuniões da comunidade dalit, sem que ninguém pudesse dar a dimensão exata do fenômeno”, relata.

Muman se lembra de uma festa em Londres, há alguns anos. Um convidado apresentou-se espontaneamente a ele como brâmane, a casta mais elevada, e quis saber a dele. “Evoluir na comunidade indiana significa chocar-se contra essa consciência aguda das identidades”, resume. “Você encontra muita gente querendo saber sua casta. Assim, os que se identificam com as mais altas colocam-se em uma posição de vantagem.” Mas, para os dalits, essas questões aparentemente anódinas são uma ferida constantemente reaberta, sobretudo quando a lembrança das humilhações passadas continua viva. Na empresa londrina onde trabalhava no início dos anos 2000, a esposa de Muman viu-se condenada ao ostracismo por seus colegas quando estes souberam que ela era dalit. “Eles mudavam a louça dela de lugar, para que não entrasse em contato com a deles, em uma autêntica prática de intocabilidade”, conta Muman. “A resposta do chefe foi: ‘Deixa pra lá’. Eu não diria que esses comportamentos são amplamente difundidos, mas a consciência de casta é, e isso pode levar à discriminação por parte de pessoas que estejam em posição de poder.”

 

“Perus que votam a favor do Natal”

Nos últimos anos, relatórios têm tentado medir a extensão do problema. Não sem dificuldade, pois as vítimas frequentemente hesitam em falar, por vergonha ou vontade de esquecer. Em 2006, uma organização de defesa dos intocáveis publicou um estudo2 feito por meio de uma centena de questionários e entrevistas. “Dos entrevistados, 85% acham que os indianos no Reino Unido participam ativamente do sistema de castas”, diz o texto, que compila testemunhos de pessoas discriminadas no trabalho, na escola, nos serviços de saúde e no acesso aos templos. Constatação confirmada em 2009 por pesquisadores: 58% dos 213 dalits entrevistados afirmaram ter sofrido discriminações por parte de outros imigrantes indianos.3

Em 2011, o primeiro processo judicial relacionado à questão teve repercussão nacional. Vijay Begraj, cerca de 30 anos de idade, funcionário de um escritório de advocacia em Coventry, prestou queixa contra seu empregador. Dalit recém-casado com uma jurista da casta jat, ele foi insultado e agredido por colegas contrários a essa união. O caso foi anulado por razões processuais, mas o assunto ressurgiu muitas vezes desde então. Em 2012, Bobby Friction, DJ da BBC-Asian Network, uma estação de rádio pública, declarou no Twitter sua recusa em tocar músicas que celebram o sistema de castas. O orgulho de pertencer à casta jat tornou-se, então, um tema recorrente em canções panjabis e clipes com milhares de compartilhamentos.

Desde 2010, a questão também ganhou o debate político. Nesse ano, o governo de Gordon Brown (trabalhista) aproveitou seus últimos meses de poder para colocar em votação o Equality Act, unificando as leis contra discriminações racistas, sexistas ou relacionadas a deficiências. Deputados trabalhistas próximos aos dalits levantaram a questão dos preconceitos relacionados às castas. Uma emenda propôs acrescentá-los à lista de comportamentos proibidos, e outra a investigar o fenômeno. Apenas esta última foi aprovada: o governo irá legislar se forem trazidas provas. O Instituto Nacional de Pesquisa Econômica e Social do Reino Unido (NIESR, na sigla em inglês) ficou encarregado de realizar um estudo anual.4 Segundo os autores, não foi possível quantificar o fenômeno, mas eles coletaram testemunhos comparáveis aos das associações. “Para reduzir a discriminação, […] o governo pode tomar medidas educativas ou legislativas”, concluem. “Ambas seriam úteis no setor público, mas uma abordagem não legislativa é menos capaz de alcançar eficácia no âmbito privado e não ajuda aqueles que sofrem discriminação por parte de seus superiores.” Contar com a comunidade indiana para melhorar a questão é considerado “problemático”.

Os defensores de uma lei anticastas veem nesse texto um sinal, o elemento que deveria convencer o poder a legislar sobre o assunto. Mas o relatório não teve continuidade. É que a situação mudou com a eleição de David Cameron, em maio de 2010. “Nós tentamos, sem sucesso, falar com o novo governo”, esbraveja Meena Varma. Essa mulher enérgica, que dirige a Rede de Solidariedade Dalit (DSN-UK, na sigla em inglês), coordena o lobby no Parlamento. “A lei não tem o poder de mudar as consciências, mas pode modificar os comportamentos”, garante. Convictas disso, as associações dalits aumentaram a pressão em 2013. E com sucesso. Em abril o Parlamento obrigou o governo a adicionar a casta aos critérios de discriminação abrangidos pela lei. Dessa vez, a coalizão no poder prometeu que um texto entraria em vigor até meados de 2015. Mas as eleições de maio passado mudaram tudo…

Durante a campanha, trabalhistas e liberal-democratas prometeram às associações dalits que, se vencessem, aplicariam o texto. Já os conservadores comprometeram-se com os adversários da lei, a começar pelas organizações hindus e sikhs, que intensificaram seu lobby. Ex-consultor de informática e professor de ioga, Satish Sharma é chefe do Conselho Nacional de Templos Hindus do Reino Unido (NCHT-UK, na sigla em inglês), que controla cerca de trinta templos. Poucos dias antes da eleição, ele assinou com outras associações religiosas uma carta favorável aos conservadores. Nela, os britânicos hindus ou sikhs que votam nos trabalhistas foram comparados a “perus que votam a favor do Natal”… “A perspectiva de uma lei foi introduzida por uma emenda sorrateira, baseada em evidências escassas e sem consulta a nossas organizações”, afirma Sharma, que acusa a esquerda de estigmatizar os hindus, tratando-os “com arrogância e ‘supremacismo’”.

Sentado em um templo de Southall, a “Little India” londrina, ele nega, comunicativo e amável, que as quatro varnas (castas sociorreligiosas) tradicionais hindus impliquem uma hierarquia ou que os indivíduos sejam prisioneiros delas por toda a vida. Argumentos repetidos pelas organizações hindus. Mas e a persistência das castas na diáspora, visível, por exemplo, em uma infinidade de anúncios de casamento estritamente endógamos? Meras preferências pessoais, de acordo com Sharma.

No entanto, o mérito de uma lei também suscita o debate para além dos círculos religiosos, por razões bem diferentes. O relatório do NIESR identificou vários casos, como o assédio escolar de crianças e a agressão a dalits, que excedem o âmbito do Equality Act. Há ainda quem aponte a dificuldade, para aqueles que estão fora da comunidade indiana, de identificar as discriminações ligadas às castas, pois se trata de uma mistura sutil de desprezo, insinuação e rejeição carregada de referências culturais. “A justiça britânica terá conhecimento suficiente para verificar se as acusações não abrangem outros conflitos, não relacionados às castas?”, indaga-se Eleanor Nesbitt, especialista em Imigração Panjabi na Universidade de Warwick. “Se houver uma lei, provavelmente haverá um acompanhamento estatístico desse indicador”, prevê a pesquisadora; ou isso poderá, paradoxalmente, reforçar a consciência de casta entre os muitos britânicos que deixaram de se referir a elas.

 

Agravar as divisões em nome da diversidade

Outros observadores apontam para o papel do multiculturalismo na persistência do problema. “Quando os indianos chegaram ao Reino Unido, o governo os incentivou a reproduzir sua cultura. A promoção da diversidade ajudou a recriar divisões no seio da comunidade sul-asiática”, lamenta Davinder Prasad, atual secretário-geral da CasteWatchUK. Opinião partilhada por Jaoul: “O sistema de castas reproduz-se nas instituições multiculturais, como a escola, cujos livros ainda o descrevem como parte do hinduísmo. Os representantes políticos locais envolvidos no financiamento dos templos também podem praticar um favoritismo de casta. As próprias associações de intocáveis fazem parte desse quadro institucional”.

A sensibilidade do assunto, somada às obsessões eleitorais dos partidos, deixa pouca esperança aos defensores da lei. “Não temos um bom retorno”, confessa Jeremy Corbyn, novo líder do Partido Trabalhista, que por muito tempo presidiu um grupo parlamentar em defesa dos direitos dos dalits. “Mas vamos continuar cobrando o governo.” Uma decisão tomada no dia 17 de setembro de 2015 por um tribunal do trabalho poderia alegrá-los. Permila Tirkey, empregada doméstica, conseguiu ver seus ex-patrões, de origem indiana, como ela, condenados por escravidão moderna e discriminação racial. Segundo o tribunal, o casal a escolheu por pertencer a uma casta inferior, sabendo que poderia lhe infligir abusos mais facilmente. Portanto, a discriminação relacionada à casta foi igualada ao racismo. Porém, “o governo pode fazer disso uma desculpa para não ir mais longe”, teme Meena. “Esse caso não constitui jurisprudência. Novos casos podem não ser cobertos pela legislação vigente.” A militante não consegue esconder o pessimismo: “A casta continua sendo um conceito difícil de apreender”, lamenta. “E, fora de alguns bolsões como Coventry, onde vive uma grande comunidade dalit, o assunto está longe da lista de preocupações dos políticos…”

Alexia Eychenne é jornalista.



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