Nunca fomos tão livres - Le Monde Diplomatique

EXPERIMENTO, DESTRUIÇÃO E CRIAÇÃO

Nunca fomos tão livres

por Douglas Rodrigues Barros
dezembro 4, 2018
Imagem por Bansky
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O pacto de paz social venceu e levou junto a esquerda iludida pela lei, criada para manter a regulação do movimento e circulação da mercadoria e do capital

Nunca fomos tão livres quanto agora. Perdemos a cada dia nossos direitos e, em primeiro lugar, o de falar; somos ultrajados todo santo dia e temos de nos calar; somos colocados diante de um horizonte obscuro, decrescente, acintoso; todo amargor de uma derrota muito além do circo das eleições nos é servido no prato fundo do ressentimento e ódio de classe; em todo lugar, nos muros, nos jornais, nas redes sociais reencontramos o semblante imundo daqueles imorais que falam em nome da moral, todo odor de uma ordem imposta pelos canhões da polícia crava fundo em nossa alma com outras tantas baforadas de esmorecimento: por causa de tudo isso somos livres.

Com essa paráfrase de Sartre sabemos que por causa do ódio à diferença infiltrado até no nosso estado onírico conquistamos uma vitória quando conseguimos rebatê-lo; porque uma mídia todo-poderosa tenta nos constranger à vergonha, cada gesto se torna precioso como uma declaração universal; porque finalmente ultrapassamos o limite de uma esquerda que legitimamente tentou tocar o sentido profundo de democracia liberal, como aquele espaço aberto ao debate independente, sabemos que democracia para o poder econômico constituído é sinônimo de humilhação dos mais pobres e silêncio dos que se angustiam com as injustiças: por causa de tudo isso somos mais livres.

Se o segredo do homem é o limite de sua liberdade estamos mais uma vez diante do desafio de exercê-la por meio da criação de uma alternativa independente e autônoma. Lidarmos com o irreal tornou-se uma meta pois o real tornou-se um escândalo insuportável, é preciso por isso reafirmar a impossibilidade não dada pela lógica do possível-mercado.

É justamente isso, aquilo que chamam de impossível, irreal, irrealizável na atual coordenada social, que poderá nos guiar para uma sociedade cuja produção de riquezas seja benefício de todos, cuja reprodução social seja efetivada para libertação de todas as potencialidades humanas. É preciso urgentemente ultrapassar a vida resignada aos significantes da mercadoria; a humanidade é muito mais do que nascer, trabalhar, procriar e morrer. Não podemos ceder a tentativa de reatualização da escravidão que atende pelo nome de neoliberalismo.

A teologia neoliberal deve ser relembrada de sua crise cujo aniversário de dez anos mantém uma permanente festa de recessão econômica e de destruição social; capitalismo de espoliação. Enquanto todos os olhares atentos se prendem no espetáculo dado pela Apple ampliado pelo “gênio da mercadoria” Steve Jobs, os olhos fecham-se para a Foxconn, “a empresa taiwanesa que controla grandes fábricas na China, onde centenas de milhares de pessoas montam iPads e iPods em condições abomináveis”. Tudo concorrendo para uma vida cada vez mais degradada na qual no Brasil 34,2 milhões de pessoas vivem de bicos e cargas horárias de trabalho insuportáveis.

Esse dado inegável era negado por uma tentativa frustrada de governabilidade, mantra usado por uma esquerda perdida e distante do terreno social, uma esquerda acostumada com um pacto de paz social malfeito e garantidor do autoritarismo perene desde 1964, uma esquerda para a qual o capitalismo humanizado convinha com as múltiplas vozes da representação liberal-democrática. Bastou, porém, virarem o jogo para calarem e tentarem calar, com pólvora ou prisão, vozes dissonantes ao coro de cordeiros guiados para o matadouro da frustrada tentativa de valorização de um capital já sem valor. É por causa da urgente tarefa de implodir essa limitação democrática-espetacular que somos mais livres do que nunca.

O pacto de paz social venceu e levou junto a esquerda iludida pela lei, criada para manter a regulação do movimento e circulação da mercadoria e do capital. Embora a desgraça tenha algum mérito no desenvolvimento de novas condutas que tentam evitá-la no futuro, ela não surte efeito senão naqueles que reconhecem seus erros. É preciso reconhecê-lo para assim superá-lo.

Na USP, devorando meus temores como um espartano, conservando-me digno ao não me deixar arrastar por nenhum pessimismo melancólico, me via numa sala lotada; precavido porém, cheguei cedo, e sentei-me na terceira fileira. A FFLCH sabemos como é, um Flicoteaux tupiniquim na qual todo grande nome das leis do espírito e da intelectualidade teve o desprazer em sentar em suas cadeiras precárias, abandonadas pela elite econômica que profundamente a detesta.

Essa situação composta dos lugares-comuns modernos, esse lugar cujos corredores são preenchidos pelas futuras pessoas do amanhã, mas cujas paredes são revestidas de expressões tristes, de palavras laudatórias e destinadas a provar a beleza que existe no cultivo das ideias, tornou-se ridículo para uma sociedade cuja vida está compreendida entre o útil e o egoico. Para uma sociedade que detesta as ideias e que se pudesse proibiria os livros que falam sobre o pensamento.

Naquela noite, às vésperas do impeachment de Dilma Rousseff, veríamos Paulo Arantes, Vladimir Safatle, Marilena Chaui e Ricardo Mussi. Embora as nuanças nas falas tivessem uma excessiva delicadeza, era possível apontá-las e não tinha sequer um único olho que não brilhasse com as palavras de descrédito por tudo que estava acontecendo.

Eu permitia-me olhadelas interrogativas, poucas poses de satisfação e algum enfado pela desconfortável cadeira que tinha me metido e o pouco ar na sala abarrotada. Uma única frase me marcou naquela noite: “quem pede autocrítica é aquele que se alia ao stalinismo”. Essa frase que, por profundo respeito e sincera admiração não citarei a autoria, reivindicava a possibilidade do PT não autocriticar-se.

Numa posição de autoridade, dizia ser autoritária a necessidade de autocrítica, invertendo a lógica do próprio autoritarismo e da tristeza aberrante que foi o stalinismo, acusava de stalinismo uma posição necessária de autocrítica. Autocrítica que o PT jamais fez e jamais fará. Eis a verdade burocrática.

Quando no final da década de 1970, os trabalhadores sonharam na criação de um partido que lhes desse voz e fizesse leis favoráveis ao trabalho, dificilmente iriam imaginar que o maior líder do mundo do trabalho naquela época corresse o risco de morrer preso numa cadeia depois de chegar à Presidência. Sabiam pois que acordos com o capital têm seus limites e por mais consensos possíveis, mais atos conciliatórios perpetrados com custo alto, há uma linha divisória que os tornam sempre inimigos. Lula se esqueceu disso.

Sua prisão é política, sabemos. Todos sabem, mas quisera sua prisão fosse por defender radicalmente os trabalhadores. Não. Sua prisão foi decretada e acatada justamente pelos tratos que fez com o capital e pelo costume ao governo. Governo que acreditou concentrar o poder, se esquecendo assim das primeiras lições escutadas nas pastorais eclesiais de base: o poder é o dinheiro.

Prisão decretada quando seu partido, que já não era mais o daqueles trabalhadores, dizia ter havido um golpe. Golpe que eles nunca levaram a sério, como a gente, aliás, levou. O mundo ia mal, a sabedoria popular tinha razão, mas, encaixotados nas suas mesas e salas refrigeradas, os burocratas dessa esquerda não achavam, afinal, pela primeira vez se consumia tanto nesse país. Assim também os burocratas acadêmicos se pavoneiam de seu democratismo anticomunista para continuarem à frente de algum departamento. Segue o barco rumo ao abismo.

De todos os equívocos, de todos os equivocados, o único que lucrou foi o próprio PT, que não apenas anestesiou a esquerda de modo geral, como ainda conseguiu incutir as noções liberais como a única possibilidade viável. O lulismo continua vivo, talvez agora mais vivo que nunca, única arma possível de refrear os ânimos radicais dos condenados ao trabalho precário, daqueles que sofrem a violência radical do Estado policialesco, daqueles que descobrem a vida sem sentido sob égide do capital de espoliação. A nós cabe criar uma alternativa a esse dispositivo anticlassista e contrário os condenados da terra e, por isso, nunca fomos mais livres.

Explorar os meios adotados, por trajetos não navegados, ouvir as vozes do passado que nos pesam nas costas e traçar o mapa correspondente, eis a necessária ambição de uma esquerda que desrespeite os limites de uma vida governada pela mercadoria. Os mapas dos trajetos, sua intepretação e leitura, são essenciais à atividade política efetiva.

Basta dos carros de som, dos burocratas empurrando-se para falar no microfone, dos partidos que em nome do fundo partidário se digladiam internamente, é preciso experimento, destruição e criação. Superar o petismo, lulismo, é a possibilidade de um exercício de liberdade fundamental para ultrapassarmos não só o governo senil que aí está, mas como o sistema que o alimenta.

 

*Douglas Rodrigues Barros é escritor e doutorando em filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo.



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