O abismo entre arte e política - Le Monde Diplomatique

MUNDO ÁRABE

O abismo entre arte e política

por Hicham Ben Abdallah El Alaoui
1 de agosto de 2010
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Uma forma de esquizofrenia toma conta da região: na esfera privada ou nos espaços semipúblicos consome-se a cultura profana. Nos públicos, as pessoas se mostram preocupadas em exibir sua identidade muçulmana, evitando, por exemplo, ir ao cinema, e vão à mesquita, de barba ou usando um véuHicham Ben Abdallah El Alaoui

No decorrer dos dois últimos séculos, os ulemás (sábios) sempre desconfiaram das formas modernas de expressão cultural, temendo que elas permitissem às pessoas compreender sua vida e o mundo segundo modalidades externas à religião. Mas eles protestaram em vão: a maioria das práticas artísticas e culturais não foram menos aceitas por isso. Algumas produções (a pintura moderna, por exemplo) trazem a marca do Ocidente, mas só interessam aos efêndis, como são chamados os burgueses ocidentalizados.
Essa tolerância prudente pertence a uma vertente do pensamento teológico (kalam) no qual a religião não se limita à lei religiosa (charia), mas também acolhe certo pluralismo. Manifestações literárias e artísticas mais ou menos profanas (poesia, caligrafia, artes plásticas e música) eram consideradas compatíveis com a religião, mesmo quando se chocavam com as convenções. Obras de formidável diversidade, e uma criatividade muitas vezes audaciosa, são partes integrantes de nossa história.

A grandeza do Islã reside precisamente em sua capacidade em absorver uma miríade de influências culturais. O mundo muçulmano protegia, estudava e desenvolvia as grandes tradições da literatura e da filosofia clássicas. Em vez de queimar livros, construía bibliotecas para preservá-los. Foi, por muito tempo, um santuário para os documentos fundadores do que mais tarde se chamaria Ocidente. O Islã havia compreendido que essa herança representava o patrimônio intelectual de toda a humanidade.

Com o surgimento dos movimentos fundamentalistas, um novo padrão apareceu: o chamado “salafista”, em referência à visão estreita da ortodoxia religiosa sobre a qual ele se baseia. O fato de se tratar de uma ideologia implícita, pois raramente é prescrita por lei ou pelo Estado, não diminui em nada seu poder. Muito pelo contrário, esse padrão obtém sua autoridade não de um poder público, mas da posição central que atualmente ocupa a versão rigorosa do Islã na identidade árabe: ele encarna a resistência à ocidentalização e ao neocolonialismo.

Há algumas décadas, essa forma de religiosidade vem se chocando com um nacionalismo árabe triunfante. Hoje em dia, mesmo as vozes “seculares” moderadas hesitam em contestá-la abertamente: presas na armadilha identitária, elas temem passar por conservadoras aos olhos do regime, e como inimigos da autenticidade árabe, pela população. Um exemplo marcante foi o grupo de jovens marroquinos que, no verão de 2009, quis romper o jejum do Ramadã e fez um piquenique em um jardim público. Além da previsível indignação dos religiosos, a iniciativa desencadeou a ira da União Socialista das Forças Populares (USFP), principal formação social-democrata do país, que pediu sanções contra aqueles que não respeitaram o jejum. Essa “religiosidade” de esquerda expressava-se em uma linguagem emprestada do nacionalismo, e o piquenique foi considerado um insulto para a cultura marroquina, além de perigoso para o consenso identitário. Como as autoridades decidiram acusar os jovens de “perturbar a ordem pública”, um motivo raramente invocado, a lei secular serviu aqui de abrigo para um apelo à ordem religiosa. A classe política, como um todo, não podia admitir o menor desrespeito aos preceitos corânicos.

Peso da religião

O espaço público foi, assim, progressivamente enquadrado em um padrão cultural rígido, composto por obrigações e proibições provenientes de uma leitura estrita dos textos religiosos. Após se tornar elemento central da ideologia dominante, a religião tende a se reduzir à sua versão salafista e a instaurar uma lógica segundo a qual a cultura, até então profana, se torne ímpia. Assim, a concepção aberta de um Islã associado à cultura foi substituída por uma interpretação obtusa da charia, que exclui a cultura. Os pontos de passagem entre a esfera sagrada da religião e o espaço cultural profano foram, a partir daí, bloqueados.

Esta dinâmica de “salafização” não impede que a população experimente uma profusão de produtos culturais divulgados via televisão, vídeo, internet ou pela literatura popular. É muito tentador limitar essa efervescência ao Ocidente e à globalização, descrevendo-a como “estrangeira”. Mas isso significaria ignorar a engenhosidade com a qual os árabes se apropriaram de toda a gama de produção cultural contemporânea.

Do lado das elites, assistimos a um entusiasmo crescente pela arte moderna, promovido por um sistema de mecenato para o qual contribuem fundações ocidentais, organizações não governamentais (ONGs) e monarquias do Golfo Pérsico. Por seu lado, o povo não escapa da onda das multinacionais do lazer e das mídias. À propagação dos modelos norte-americanos se soma a difusão maciça de produtos culturais locais – seja dos canais de informação Al-Jazeera e Al-Arabiya, das séries de televisão ou da literatura popular, em particular dos manuais de conselhos práticos ou da vida amorosa –, como também uma explosão de criatividade musical e artística, possível graças à internet, e acompanhada com entusiasmo pelos jovens árabes. Tal combinação traz também uma versão comercial e “festiva” da cultura árabe moderna, um fenômeno cujo alcance se deve muito aos homens de negócios, promotores e intermediários locais.

A maioria dessas práticas culturais é desprovida de conteúdo religioso. Saturadas de influências globalizadas – e não apenas ocidentais, mas também indianas, latino-americanas etc. –, elas apresentam um caráter completamente laico. Apesar do crescimento do Islã político, as tentativas visando islamizar a arte e a cultura permanecem relativamente infrutíferas. Entretanto, submissos às exigências contraditórias de uma cultura globalizada e da norma religiosa, artistas e produtores colocam voluntariamente à frente sua qualidade de “muçulmanos”, mesmo que suas obras não tenham nada a ver com a religião e convirjam para a secularização das sociedades. Prevalecendo-se desse pertencimento, afirmam uma identidade, não uma prática religiosa.

Contradições evidentes
Uma forma de esquizofrenia toma conta da região: na esfera privada e nos espaços semipúblicos consome-se a cultura profana. Nos públicos, as pessoas se mostram preocupadas em exibir sua identidade muçulmana, evitando, por exemplo, ir ao cinema; e vão à mesquita de barba ou usando um véu.

Seria um engano explicar esse fenômeno por meio da divisão social entre elites e camadas populares. No século passado, a burguesia ocidentalizada podia certamente gozar de todo o conjunto da cultura profana enquanto o povo ficava relegado a uma cultura tradicional dominada pelo Islã. Essa divisão não desapareceu. Mas, há cerca de 20 anos o progresso da educação e da alfabetização, conjugadas ao crescimento excepcional dos meios de comunicação – entre os quais, e principalmente, a televisão e a internet –, mudaram o cenário. O conhecimento de outras línguas e culturas não é mais privilégio dos ricos. Uma gama cada vez mais variada de manifestações culturais tem surgido. Os jovens leem romances, veem filmes, analisam documentos, escutam música, consultam blogs, e muitas vezes em outras línguas que não o árabe. Não consomem apenas produtos, eles controlam práticas culturais intrinsecamente marcadas pelas influências do resto do mundo.

A diversificação da cultura de massa não gerará, mecanicamente, um processo de secularização e de democratização. De fato, o mesmo indivíduo que lê um romance de amor, hoje, estará amanhã com um folheto religioso nas mãos; ele almoçará diante da Iqraa TV, o canal via satélite consagrado ao Islã, e acabará seu jantar diante de um clip da Rotana, a “MTV árabe”1. Essa contradição não poupa nem mesmo a língua, parte essencial da cultura. Historicamente, os ulemás sempre celebraram a escrita como a expressão mais elevada do espírito humano. Entretanto, a literatura arabófona ocupa um lugar marginal. Um intelectual não escreve na língua oral de seu povo, já que nacionalistas e fundamentalistas só admitem o árabe clássico, o do Corão (fosha), como meio de expressão cultural. Para uns, o fosha cimenta a nação árabe; para outros, ele representa o elo do mundo muçulmano (oumma). Essa concepção não leva em conta, evidentemente, as diferenças entre o árabe clássico, raramente falado fora das escolas corânicas, e o das ruas, ou até o árabe “padrão” usado nas mídias, nos discursos públicos e nas ficções populares. Para os escritores, a tarefa se revela ainda mais difícil, pois o romance representa um gênero suspeito, na medida em que ele explora as questões existenciais de maneira duplamente transgressiva: ao se liberar da religião e ao levar a língua árabe para além dos limites da fosha.

Ao aceitar a salafização das normas sociais em matéria de costumes e de comportamento (pressões a favor do uso do véu, fechamento de cinemas etc.), o Estado árabe moderno consolida sua política de aliança tácita com os ulemás, guardiões oficiais do Islã, que se mostram mais preocupados em obter os favores do regime do que em reformá-lo. O Estado pode aceitar as correntes islamistas “moderadas”, cujo programa consiste, sobretudo, em imobilizar as ideologias religiosas para fazer com que prevaleça a piedade no seio das comunidades: sua ação consegue proibir as disposições mais extremas da charia (por exemplo, o apedrejamento de mulheres e homens adúlteros). Isso lhe permite, junto com moderados do interior e observadores ocidentais, se proteger contra uma islamização completa, mas acaba por confirmar a primazia do salafismo como norma social.

Ao mesmo tempo, os intelectuais fiéis às reformas democráticas procuram proteção junto ao Estado contra os ulemás e fundamentalistas. Em troca, consentem, às vezes, em apoiar seus dirigentes. Aos seus olhos, mesmo um governo muito autoritário representa um mal menor que o islamismo, pois defende alguns espaços de autonomia cultural e mantém a vaga esperança de uma liberação futura. Durante os anos 1990, intelectuais laicos apoiaram o Estado argelino na sua luta contra os islamitas. No Egito, o escritor Sayyid Al-Qemmi beneficiou-se da proteção do Estado após ter sido condenado por um fatwa (pronunciamento religioso). Chegou a ser condecorado, em junho de 2009.

O equilíbrio precário que reina entre os diferentes atores sociais deixa o poder de mãos livres para prosseguir com sua política de repressão, sempre brutal, mas agora mais focalizada, favorecendo a imposição da norma salafista. Para os intelectuais, essa situação frustrante pode acarretar diferentes formas de capitulação política. De um lado, assistimos a uma “fuga de cérebros”, real ou virtual. Muitos artistas e escritores vivem no exterior ou se dedicam a um público afastado de seu país. Apresentam-se como “árabes” e “muçulmanos”, mais do que como egípcios ou tunisianos. Adotam uma identidade na qual os elementos fundadores são próximos aos do salafismo; escrevem em fosha e consideram que o “árabe” é sinônimo de “muçulmano”. Membros de uma diáspora geográfica ou ideológica, eles perdem o contato com seu país e seu povo, preferindo o nome genérico de “árabes”.

Assim, os intelectuais se desinteressam facilmente pelos conflitos sociais em seu país e diluem-se na unidade abstrata da comunidade internacional. A ausência de uma política nacional de apoio à criação alimenta o individualismo e a despolitização dos produtores culturais, que vão procurar audiência e recursos no exterior. Muitos mecenas preferem o terreno cultural “esterilizado” para reformar a sociedade. É o caso da Fundação Ford, da Fundação Soros ou dos filantrópicos das monarquias petrolíferas. Assim, galerias de arte e luxuosas vitrines do Golfo expõem uma quantidade de produtos destinados a representar a identidade árabe-muçulmana, mas, em consequência de seu apoio financeiro ocidental, permanecem desconectados da sociedade.

 

No campo do romance, várias distinções concorrentes promovem os “melhores” produtos da cultura árabe: o prêmio Emirates Foundation International, para o romance; o prêmio literário do Blue Metropolis Al-Majid Ibn Daher (Líbano); o prêmio internacional da ficção árabe, com a Booker Foundation (Londres). O fato de nossos artistas participarem do jogo cultural planetário, não tem nada de repreensível – isso pode até representar um progresso. Entretanto, valorizado na cena mundial, o artista “árabe” corre o risco de se afastar do povo de seu país. E perder, assim, todo o papel emancipador.

A internet certamente abriu novos espaços à produção e ao consumo de bens culturais. Mas, se a rede pode tornar mais eficiente um movimento de contestação já existente, ela não produz em si mesma a consciência política. Ela pode servir de instrumento para ampliar uma mobilização, como vimos no Egito, mas não pode substituir o paciente trabalho de campo que a organização de uma luta requer.2 A rede contribui também para o isolamento e a segmentação. Seus usuários formam, em geral, pequenos grupos discretos que se comunicam exclusivamente – e muitas vezes anonimamente – por meio de suas telas, sem contato com o exterior, em uma rotação contínua. O anonimato permite aos descontentes exibir sua radicalidade, afastando qualquer confrontação aberta com o inimigo e as consequências que podem decorrer disso. Na internet, é possível ridicularizar o governo e fugir do mundo real.

Sem engajamento
Renegando o papel que assumiam (e que assumem ainda, às vezes, nos países muçulmanos como Irã ou Turquia), os artistas e os intelectuais não são mais a ponta de lança de um movimento social, político e cultural. Parecem mais uma facção de cortesãos vivendo em protetorados do Estado ou com alguns padrinhos ricos e poderosos. Encarnada recentemente pelo escritor egípcio Sonallah Ibrahim, ou pelo grupo musical marroquino Nass El Ghiwan, a figura do artista contestador desapareceu. No Egito, por exemplo, o pintor de vanguarda Farouk Hosni é, atualmente, ministro da Cultura. Na Síria, a tradutora de Jean Genet, Hanan Kessab Hassan, foi nomeada, em 2008, comissária geral de “Damasco, capital árabe da cultura”, um programa apoiado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Por mais interessantes que sejam suas ideias sobre a cultura e a sociedade, artistas como Wael Chawki (que teve obras expostas na Bienal de Alexandria) ou Hala El Koussi (vencedora do prêmio Abraaj Capital Art, concedido em Dubai) se mantêm afastados de qualquer engajamento político.

Uma coisa é certa: para que o trabalho artístico e intelectual favoreça a democratização política e social, é interessante contestar a norma salafista em seu próprio terreno, propondo uma alternativa plausível. Longe de adotar um modelo prefabricado, interessa ir buscar essa alternativa na tradição árabe e muçulmana que, durante séculos, multiplicou os espaços de autonomia cultural. Essa nova norma pública adaptada ao mundo e às nossas tradições é um dos pilares de qualquer projeto autêntico de democratização. Ela não poderia ser construída sobre a negação do desafio salafista. Nem cedendo a suas condições.

Hicham Ben Abdallah El Alaoui é primo do rei do Marrocos, Mohammed VI, e pesquisador visitante do Center on Democracy, Development en the Rule of Laz, da Universidade de Stanford, Estados Unidos.



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