O amanhã não pode ser normal - Le Monde Diplomatique

POR UMA NOVA GEOGRAFIA DA EXISTÊNCIA

O amanhã não pode ser normal

por Renato Balbim
20 de maio de 2020
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A partir do meu quadrado de geógrafo e urbanista, posso, entretanto, arriscar um olhar em perspectiva, espiar pela porta entreaberta ao futuro, e através das condições atuais, do espaço geográfico, imaginar como se darão seus novos usos

Nestas últimas semanas de quarentena tenho lido vários artigos, posts e comentários sobre a nova organização da vida social, da economia e das cidades. As crônicas são marcadas por muitas concordâncias, algumas fabulações, esperanças em tempos melhores, mais solidários, e o normal ceticismo daqueles que procuram, e não acham, algo intrinsicamente positivo na essência humana. 

Não creio colaborar muito fazendo exercícios de futurologia, isso não acalma nem minhas próprias ansiedades, além de não ser nenhum expert neste ou naquele setor para falar com a necessária propriedade. A partir do meu quadrado de geógrafo e urbanista, posso, entretanto, arriscar um olhar em perspectiva, espiar pela porta entreaberta ao futuro, e através das condições atuais, do espaço geográfico, imaginar como se darão seus novos usos.

Esse exercício, a princípio uma extrapolação simplista baseada na inércia, apontaria para a tese que a humanidade seguirá mais ou menos o mesmo rumo, lançando mão do incremento tecnológico para garantir o que é imutável na essência humana, a sociabilidade. Todo o resto decorre dessa condição social e de suas contradições. É a vida se dando, conflitos e embates cotidianos que criam, perpetuam e aprofundam identidades e desigualdades.

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De maneira direta, acredito que é bom lembrar, não estamos no mesmo barco nesta crise. Estamos apenas na mesma tempestade, alguns poucos em iates, outros milhões gritando por socorro em pequenos botes. Vale dizer também que a distribuição de salva-vidas não cessa a tempestade. A desigualdade, a exclusão, a segregação socioespacial, o racismo, a degradação ambiental não encontram soluções exclusivamente na técnica, são a principio questões éticas, e seus enfrentamentos passam por redefinições políticas, novos pactos que possam sustentar um contrato social. 

Em última instância essas redefinições dizem respeito às relações e regulações da vida, da liberdade, em um ambiente produzido, em um espaço geográfico, sobre uma acumulação desigual de ações e tempos, tempos históricos, ações de períodos passados que ficaram impressas em formas (materiais: a estrutura viária, por exemplo; ou, imateriais: normas que definem a propriedade privada). São essas formas-conteúdos que se não determinam, moldam, limitam ou fomentam relações humanas – a política e a sociedade –, sempre mediadas por objetos, físicos ou imateriais. A técnica é incremental, projetual, e as inovações não surgem por geração espontânea, mas sim são fruto de intencionalidades. Cabe à política e à sociedade criar o novo, responder às questões éticas e orientar o futuro. Para tanto, é necessário produzir novas formas e conteúdos, uma nova geografia da existência.

A crise global decorrente da pandemia expõe dinâmicas e realidades de uma globalização que é perversa. Com a restrição abrupta dos fluxos de pessoas, com impactos gigantescos no consumo, as fabulações da globalização, das viagens internacionais, da hiper conectividade, a aldeia global do consumo, como por mágica, desaparece! Ainda que momentaneamente, assim como hoje podemos mirar ao longe nas cidades despoluídas, também podemos mirar para além da cortina de fumaça onde nossos sonhos vendidos foram projetados. Temos hoje a oportunidade de olhar a perversidade desta razão global e politicamente decidir como a globalização pode vir a ser. 

A maneira como grupos sociais, cidades e nações, cada qual ao seu modo, a partir de suas condições e dinâmicas próprias, irão participar da produção deste novo mundo é a questão a ser enfrentada. A crise acentua tendências, e o que até ontem eram possibilidades, hoje encontram melhores chances de concretização. Ao mesmo passo, a crise expõe dinâmicas e condições preexistentes. 

As tendências de transformação, políticas, planos, projetos e expectativas, que já apontavam para o futuro, mas que encontravam resistências ou não tinham atingido ainda sua maturidade, tornam-se mais viáveis neste momento, dadas as mudanças radicais no cotidiano e nas próprias expectativas de futuro, que agora pode ser inventado. É como se o tempo comprimisse o espaço que nos separa do novo, uma urgência por sobrevivência. As dinâmicas, também preexistentes, não como possibilidades, mas como estruturas, trabalham atuando como condição, freios ou aceleradores das tendências que se pretendem impressas como novas dinâmicas. 

O trabalho remoto, uma tendência durante décadas, hoje realidade obrigatória, será amanhã tão normal quanto era a jornada diária de oito horas no passado. Inúmeras outras inovações e adaptações, das empresas, instituições e seus trabalhadores, dos produtos e serviços produzidos, das formas de circulação e consumo, e dos comportamentos já foram colocadas em prática de maneira extremamente veloz e sem maiores resistências, em função de um valor maior, a sobrevivência econômica e a vida.

A desigualdade socioespacial, uma dinâmica vergonhosamente negligenciada, é hoje um dado irrefutável, exposta em mapas e relatos de contaminação e morte por Covid-19 em cidades e regiões de todo o mundo. Negros e latinos sofrem mais nos Estados Unidos e não há qualquer relação genética nessa lógica. Pobres, quase todos eles negros e pardos, morrem muito mais por Covid-19 ou SARS nas grandes cidades brasileiras. Dois meses atrás, moradores de comunidades do Rio de Janeiro postavam vídeos criticando a entrada de gringos em favelas. Hoje, quando contamos mais de setecentas mortes diárias, ainda um número irreal devido à altíssima subnotificação, sabemos pelo “mercado” que o “pico de Covid-19 nas classes altas já passou”, uma alento para as empregadas domésticas, trabalhadoras tidas como essenciais em Belém e em todas as casas-grandes de um pais que se desenvolve segundo o modelo e as dinâmicas ainda escravagistas. Nos países e regiões nos quais os Estados não enfrentam estruturalmente as dinâmicas da desigualdade, a pandemia revela curvas bastante distintas a depender da classe social, raça, acesso prévio a serviços de saúde, e do local e condições de moradia. 

Para entendermos como a pandemia, um fato social, se desenvolve e é enfrentada de maneiras diferentes em cada lugar, é necessário lembrar que o vírus, em si, é inerte. Ele se espalha justamente seguindo as dinâmicas pré-existentes, e sua expansão e letalidade se alteram a depender, também, das diferentes medidas colocadas em prática aqui ou acolá. 

Fazendo um exercício de analogia. Se o RNA do vírus fosse uma agente de mercado sua intenção seria se espraiar ao máximo, atingir ao máximo seu público-alvo. Para tanto, de sua própria sorte, seria necessário que diminuísse paulatinamente sua letalidade, aumentando e conservando o número de hospedeiros transmissores. O vírus, como agente de mercado, não pode ameaçar a sobrevivência, a integridade do seu hospedeiro consumidor. Seu projeto técnico é que as pessoas circulem, interajam e façam trocas, se contaminem e distribuam sua mercadoria, renovada a cada novo modelo de seu RNA. O vírus só se torna uma pandemia porque trabalha com eficiência no atual modelo de hiper circulação e consumo. 

Há, como mencionado acima, uma disfuncionalidade no mercado consumidor. Dinâmicas presentes antes do “lançamento” desse novo vírus estabeleceram nichos de mercado onde a “moda” se dá com enorme intensidade, rápida propagação e alta letalidade. Na lógica de mercado do vírus, esses lugares historicamente marcados pela miséria, pela precariedade habitacional, sanitária e do sistema de saúde, onde as doenças crônicas não transmissíveis competem para sua letalidade, são os lugares onde sua propagação se esgota com o alto índice de mortes entre os hospedeiros, o que leva a diminuição acentuada de sua capacidade de transmissão. 

Segundo essa analogia, o vírus trabalha com estratégias da biopolitica, a gestão política e econômica da vida. Em sentido contrário, no Brasil, o que se apreende ao menos da política do governo federal, liderada por um outro vírus, o já chamado bolsonavirus, é a gestão da necropolítica, na qual a lógica de extermínio de seu competidor, o coronavírus, é viabilizada através da rápida contaminação dos pobres, de preferência negros, criando a desejada imunidade para que a parcela da população historicamente beneficiada, não por direitos, mas por privilégios, siga vivendo sua normalidade, nem que para isso milhões morram.

O que se apreende dessas analogias é que os vírus também seguem a lógica da produção de novidades, sem transformação estrutural, lançando sempre novas versões de seus RNA. A mesma lógica orienta as fake news deste outro vírus que nos dizima. Da mesma forma se perpetua o consumo exponencial da globalização como fábula. 

A efetiva superação das novidades produzidas por cada um desses “vírus” não está em nossa capacidade adaptativa, seja biológica, comportamental, moral ou tecnológica, mas sim na criação de uma nova ordem que supere a obsolescência programada dos objetos e corpos e refunde o desenvolvimento sob princípios éticos socioambientais.

Caso as atuais diretrizes de desenvolvimento não sejam transformadas em cada cidade, região e país, caso não sejamos capazes de estabelecer novos pactos sociais, seguiremos criando novidades tecnológicas, mecanismos de adaptação, diferenciação e exclusão. Toda uma nova indústria especializada em sensores remotos, mecanismos de controle e vigilância, aparatos que irão sobrepor camadas físicas, simbólicas e comportamentais de defesa contra um inimigo invisível se multiplicará em função da duração dessa pandemia e do medo de novas situações epidêmicas ou pandêmicas. As novidades de consumo surgirão para que voltemos ao velho normal, seguindo, sempre que possível, os modelos preestabelecidos de produção, circulação e consumo. Para aqueles que tem condições, depois de murar suas casas e blindar seus carros, a última fronteira será a armadura pós ultra moderna, invólucros materiais e imateriais para a defesa dos corpos e, consequente, supressão completa da liberdade. 

Com a intenção de gerar novas dinâmicas, alguns países, regiões e cidades passam a aplicar planos de reabertura de suas economias e de seus espaços públicos seguindo tendências que, até o momento anterior ao da crise, contavam com forte resistências. Paris, uma cidade feita de e para encontros, que tem o espaço público como seu principal capital, e a proximidade dos corpos, nas varandas dos cafés, trens lotados ou habitações diminutas, uma de suas principais identidades, definiu, entre outras medidas, que a restrição ao uso dos automóveis em função da poluição atmosférica passa a ser politica estruturante de novas dinâmicas, de um novo modo de se viver a cidade. 

O estado norte-americano da Califórnia, que liderava as tendências de debates sobre desencarceramento, colocou em liberdade nas últimas semanas mais de 10 mil presos, controlando o avanço do vírus no sistema prisional. Se essa política for continuada, em breve, o que antes era impossível de se imaginar, o fechamento de uma prisão no estado, poderá vir a acontecer. A questão dos moradores de rua, um imbróglio sem solução, tornou-se contornável. Em função dos impactos da Covid-19 no turismo, hotéis vazios têm sido utilizados pelo Estado como abrigo, dando a milhares de pessoas um teto, uma esperança de recomeço.

Em diversas partes do mundo vemos apontar tendências de transformação, o novo surgindo como possibilidade e tomando formas reais de solidariedade e respeito, não só ao outro, mas ao planeta. Ao mesmo passo, hoje mais do que nunca, estamos diante de uma necropolítica global, que tem suas dinâmicas e estruturas expostas pelo coronavírus, mas que continuará invocando as inovações tecnológicas e a saúde da economia como sustentáculos do contrato social. A volta à normalidade, a negação do novo, representa o pacto agora explícito pela extinção da vida, seja através das guerras, pandemias ou mudanças climáticas. 

Por favor, não queiram voltar ao normal!

Renato Balbim, geógrafo-urbanista, é pesquisador e professor visitante da Universidade da Califórnia em Irvine (UCI).



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