FURANDO A BOLHA

O ativismo algorítmico nas eleições de 2026

A coordenação das ações produz um impacto imediato nas métricas, forçando, em teoria, o algoritmo a apresentar o conteúdo do campo progressista a sujeitos não alinhados, ou partidários de Bolsonaro 

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 desencadeou uma intensa reorganização das estratégias de mobilização dos apoiadores do presidente Lula. Embora a pequena diferença de votos que colocou o petista em segundo lugar não tenha sido propriamente surpreendente, uma vez que diversas pesquisas já apontavam um cenário de empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro, seus desdobramentos teriam sido muito difíceis de antecipar. Nos dias seguintes à votação de 4 de outubro, uma onda de manifestações tomou as ruas e avenidas de diferentes cidades do país, surpreendendo o meio político e levando alguns analistas a estabelecer comparações com grandes mobilizações da história do país. Com apenas três semanas para reverter a vantagem do adversário nas urnas, ganhou força o diagnóstico de que a candidatura petista precisava ampliar e reorganizar sua atuação nas plataformas digitais.  

As eleições de 2018 já haviam evidenciado, de maneira contundente, uma transformação nas condições da disputa eleitoral: candidaturas com pouco tempo de propaganda televisiva conquistaram vitórias expressivas, expondo a crescente importância das plataformas digitais na construção de sua força política. Atrelado a isso, e de forma cada vez mais intensa ao longo das três semanas entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais de 2026, crescia a percepção que já vinha se formando havia algum tempo: a de que parte importante da disputa eleitoral se desenrolava em um terreno pouco visível, cujos mecanismos de funcionamento permaneciam, em grande medida, inacessíveis.  

A disputa não consistia simplesmente em publicar mais conteúdo ou conquistar novos seguidores. Era preciso fazer com que mensagens produzidas por redes já mobilizadas alcançassem pessoas situadas fora de seus circuitos habituais de interação. A expressão “furar a bolha”, que se tornaria recorrente naqueles dias, condensava esse desafio. Foi nesse cenário que se multiplicaram iniciativas de articulação entre parlamentares, influenciadores, comunidades digitais e apoiadores dispostos a transformar suas próprias interações em instrumentos de mobilização eleitoral. Era preciso, portanto, “tomar terreno” nas redes sociais – em uma das muitas noções militarescas que passaram a dominar o debate político. A campanha de Lula reuniu deputadas e deputados eleitos com votações expressivas em seus estados, e com forte presença nas redes: Ana Elisa (PT-MG), André Janones (Rede-MG), Áurea Carolina (PSOL-MG), Marília Campos (PT-MG), Guilherme Cortez (PSOL-SP), Luna Zarattini (PT-SP), Érika Hilton (PSOL-SP), Bernardo Moreira (PSB-DF), Fábio Félix (PSOL-DF), Max Maciel (PSOL-DF), Jones Maciel (PSOL-PE), Natália Bonavides (PT-RN), entre outros. Essas pessoas deveriam produzir conteúdos próprios, mas também atuar na replicação do conteúdo do perfil de Lula, que passou a publicar em colaboração com perfis associados, como o PT Brasil, Camilo Santana (PT-CE), Rafael Fonteles (PT-PI), Gleisi Hoffmann (PT-PR), Paulo Pimenta (PT-RS). Todos esses usuários, e contas de apoio, também faziam associações próprias com perfis locais, e assim por diante.  

Simultaneamente, redes auto-organizadas já produziam materiais com orientações sobre como impulsionar o alcance de mensagens do campo progressista, engajando-se na campanha presidencial. Fandoms de artistas e grupos como Billie Eilish, Beyoncé, Taylor Swift, Lady Gaga, Dua Lipa, BTS e BLACKPINK, páginas de memes, microinfluenciadores digitais e veículos de imprensa alternativa (ICL, Mídia Ninja, Brasil Fora da Caverna e Intercept) passaram a declarar apoio a Lula, e a produzir cartazes, vídeos e infográficos por conta própria para tratar de temas específicos. Se a premissa era a de que a interação com os conteúdos postados na plataforma – o Instagram e o TikTok, por exemplo – produz métricas legíveis pelo algoritmo enquanto o “sucesso” de um post, era, portanto, preciso produzir esses índices métricos curtindo, salvando e compartilhando todos os conteúdos visualizados, assistindo os vídeos até o fim, ou visualizando todos os cards de um carrossel. Publicações com conteúdo próprio deveriam ser feitas em colaboração com outros usuários. Assim, essa postagem tem mais chances de ser entregue a outros usuários da plataforma: inicialmente, a pessoas próximas, com quem se interage mais frequentemente. Se essas pessoas também se engajarem com os conteúdos, a postagem vai ampliando seu alcance “organicamente”. Isso se dá pois o objetivo último dessas plataformas é disputar a atenção dos usuários, e as métricas de engajamento sinalizam às empresas o que é eficaz para garantir a retenção do usuário na plataforma pelo maior tempo possível. 

A interação entre essas duas redes se deu especialmente por meio da emergência de iniciativas que deixavam de ser uma etiqueta de conduta individual nas redes, passando a ter como objetivo produzir impacto massivo e coordenado de maneira a alterar substancialmente o funcionamento do algoritmo, entregando a mensagem fora do círculo de “mentes semelhantes” que já interagem uns com os outros. André Janones, que já havia assumido função semelhante na campanha petista em 2022, passou a coordenar a multidão de pessoas interessadas em colaborar, congregando-as no canal “Exército do Lula”. Criado em abril de 2026, o canal, então com 50 mil seguidores, não parecia destinado a se tornar um dos principais acontecimentos do segundo turno das eleições. O próprio Janones se reelegeu com 78 mil votos, uma fração dos 238 mil votos recebidos em 2022, quando foi o segundo deputado mais votado de Minas Gerais. Em 7 de outubro, apenas três dias após o primeiro turno, o canal ultrapassou a marca de 2 milhões de seguidores, e, no momento em que este texto está sendo escrito, o canal já ultrapassou os 8 milhões de seguidores. Essa expansão merece atenção não apenas por sua velocidade, mas pelo modelo de comunicação que procurava instituir. Diferentemente das contas públicas em redes como Instagram ou TikTok, nas quais a distribuição dos conteúdos depende fortemente dos sistemas de recomendação das plataformas, o canal de WhatsApp permite uma comunicação direta e unidirecional entre administradores e seguidores. 

Não se tratava, portanto, apenas de aumentar a audiência do canal propriamente dito. O objetivo era constituir uma infraestrutura de mobilização capaz de conectar milhões de participantes e coordenar suas atividades digitais. A distinção é importante: uma audiência numerosa não constitui, por si só, uma rede efetivamente mobilizada, assim como o número de inscritos não permite determinar quantas pessoas executavam as orientações recebidas. Mais que isso, uma rede difusamente mobilizada pode produzir impacto métrico e algorítmico, mas talvez sem que o efeito desejado seja efetivamente produzido: a “entrega” do conteúdo a quem se quer convencer, furando a bolha. 

Importante pontuar que essa tem sido uma tônica de movimentos de resistência mundo afora. O genocídio palestino é um dos exemplos mais emblemáticos dos últimos anos. A produção de vídeos, imagens e relatos por palestinos, muitos dos quais jornalistas independentes – atuando como freelancers de grandes veículos de imprensa internacional, e produzindo conteúdos próprios –, articulou-se a uma rede de distribuição internacional formada por influenciadores de “todos os tamanhos” localizados, em especial, na Inglaterra e nos Estados Unidos. No Instagram e no TikTok, conteúdos gráficos, como corpos despedaçados e bebês mortos, passaram a ser entregues aos celulares de milhões de britânicos e estadunidenses, mudando, de maneira inédita, a percepção positiva sobre Israel, historicamente presente nesses países. O engajamento algorítmico mudara o jogo para os palestinos. Estudantes ocuparam universidades nos Estados Unidos, e foram brutalizados e perseguidos – muitos não conseguiram se formar, outros foram deportados com apoio do governo democrata de Joe Biden. A própria Convenção Nacional Democrata concluiu que Kamala Harris perdeu apoio significativo nas eleições de 2024 em razão da atuação do governo Biden diante do genocídio, tamanha a repercussão do tema nos Estados Unidos. 

Essa tática de resistência talvez seja uma reorientação produtiva da noção de flood the zone, estratégia de comunicação política popularizada pela extrema direita. A tática consiste em produzir uma enxurrada contínua de conteúdos para que, em função da sobrecarga de informações, seja impossível discernir a verdade, exaurindo o público que acompanha. Com publicações em volume massivo, impulsionadas pelos engajamentos produzidos por um ecossistema de perfis automatizados (os famosos bots) e orgânicos, essa tática também produz dois efeitos: domina a zona “inundada” com os temas pertinentes à extrema direita, e entrega mensagens direcionadas aos interesses específicos das pessoas, mapeados previamente por meio das métricas que aquele perfil produziu ao longo de sua história em determinada rede social. Assim, a eficácia se multiplica. Essa descrição, por óbvio, considera que as plataformas seriam politicamente neutras, e que as decisões do algoritmo são isonômicas em relação a todas as perspectivas políticas, o que diferentes investigações acadêmicas e jornalísticas têm demonstrado que não é a realidade. 

Crédito: Mtvdanilo/Wikimedia Commons

De toda forma, André Janones, por meio da ação coordenada de milhões de pessoas, consegue impedir a inundação do terreno. São criadas barreiras de proteção por meio de táticas de engajamento que domesticam as linhas do tempo das pessoas para receber conteúdos de uma rede de perfis afins, evitando o engajamento com conteúdos do campo oposto ou danosos a Lula. Simultaneamente, a coordenação das ações produz um impacto imediato nas métricas, forçando, em teoria, o algoritmo a apresentar o conteúdo do campo progressista a sujeitos não alinhados, ou partidários de Bolsonaro. Essa tática foi capaz de colocar a extrema direita na defensiva durante todo o segundo turno, com derrotas em sequência. Também foi capaz de empatar a disputa eleitoral, tornando a previsão sobre o resultado das urnas impossível – uma façanha notável, especialmente após muitos analistas terem decretado que Flávio Bolsonaro já era virtualmente Presidente da República após a vitória por margem apertada no primeiro turno. 

Esse é um aprendizado fundamental aos movimentos de resistência ao fascismo globalmente. Para nós, é preciso incorporar tais aprendizados às nossas táticas usuais de ativismo e militância, independente do resultado das urnas, já que os quatro anos de mandato de Lula e a prisão de Jair Bolsonaro produziram uma falsa sensação de calmaria desse lado da bolha. A organização de nossos esforços é mais necessária do que nunca. É preciso, adicionalmente, compreender os limites dessas táticas, implementadas em um terreno que não é neutro, e o que significa para nós fortalecer as big techs, levando mais pessoas para dentro das redes. O engajamento de perfis de extrema direita, como Nikolas Ferreira – com mais visualizações que perfis como os de Beyoncé, Messi e outras figuras públicas globais –, levanta flagrantes suspeitas de engajamento inorgânico, e há muitas evidências de que as plataformas desempenham um papel nos números inflados da extrema direita. Por fim, é preciso destacar que nada disso é possível sem a construção e a coordenação de uma infraestrutura de distribuição e impulsionamento orgânico das mensagens produzidas, com um ecossistema constituído de perfis com diferentes quantidades de seguidores, e com amplo engajamento de perfis pessoais. Essa infraestrutura, no entanto, nunca é plenamente nossa: basta uma decisão da Meta para desativar perfis influentes, como também vimos no caso da Palestina.  

Diferentemente das manifestações que ocupam as ruas e avenidas do país, onde a atuação seletiva das forças policiais pode ser observada, documentada e denunciada, como historicamente fizeram os movimentos progressistas; diferentemente das disputas travadas no Judiciário, onde decisões seletivas podem ser identificadas e contestadas, como ocorreu com a tentativa inicial de censura ao Exército do Lula, sem medida equivalente contra a Tropa de Bolsonaro; diferentemente, ainda, dos debates televisionados, nos quais eventuais violações das regras do jogo acontecem diante dos olhos do público, nas plataformas digitais o próprio terreno da disputa permanece, em grande medida, inacessível ao escrutínio público. Em uma eleição presidencial na qual parte expressiva da mobilização política se desenrola nesses ambientes, não são apenas os conteúdos que estão em disputa, mas as próprias condições de sua circulação. Estamos falando, afinal, de uma das maiores democracias do mundo realizando eleições presidenciais em ruas e avenidas digitais cujas regras de circulação, mecanismos de vigilância e possibilidades de intervenção permanecem sob o controle de empresas privadas estrangeiras, sem a transparência que um processo democrático dessa magnitude exige.  

 

Glaucia Maricato é doutora em Antropologia Social. Está vinculada como Pesquisadora Colaboradora no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de Brasília. Atua em temas da antropologia das ciências e tecnologias, antropologias das métricas, saúde, dados e burocracias. 

Alexandre Branco-Pereira é doutor em Antropologia Social. Está vinculado como Pesquisador Colaborador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de Brasília, onde também desenvolve pesquisa de pós-doutorado com financiamento do CNPq. Atua em temas da antropologia das migrações, da saúde e das ciências e tecnologias. Também é coordenador da Frente Nacional pela Saúde de Migrantes (FENAMI) e do Observatório Saúde e Migração (OSM).

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