O Centro de São Paulo ainda segue sua própria dinâmica
E quando a conta não fecha no fim do mês, quais são os caminhos possíveis para fazer renda extra?
Era mais ou menos umas sete horas da noite quando, de rasante, um jovem de bicicleta pegou de supetão o celular de um rapaz que estava atravessando a rua no sentido da Praça Roosevelt. Desesperado, ele gritou: “Pega, pega!”. Em poucos minutos, na boca da noite, a bicicleta foi sumindo sob o Minhocão. Uma senhora olhou para mim e disse: “Já era”. Eu concordei e continuei meu caminho, mas pensativo: até quando o Centro de São Paulo vai carregar essa pecha?
Quem mora no Centro sabe que esse tipo de episódio pode acontecer em qualquer horário do dia. E aqui temos algo que parece se perpetuar com as dobras do tempo: a dinâmica de bairros como República, Santa Cecília e Barra Funda não perdeu a sua cadência. O problema, claro, tem a ver com segurança pública. Mas não só.

Existe um colapso social em curso que vem ganhando novas camadas com os avanços da Inteligência Artificial e a defasagem no mercado de emprego formal, fazendo com que muitas pessoas tenham subempregos como principal fonte de renda. Executivos C-level de multinacionais que trabalham com aplicativos de entrega já apostam que o delivery vai dobrar nos próximos dois anos e que o Brasil deve pular da sua 5ª posição no mercado global para a 4ª. Poderemos, então, comemorar uma vaguinha de forma antecipada na Libertadores dos Sem Carteira de Trabalho Formal? É o novo G4 dos informais?
Segundo o IBGE, quase 500 mil pessoas trabalham com serviços de entrega no Brasil; destas, 350 mil não têm CNPJ ativo. Em relação às pessoas que trabalham com aplicativos de transporte, o número gira em torno de 1,4 milhão. Sabe o que mais impressiona? Nenhuma destas pessoas está construindo um patrimônio financeiro para seus filhos ou para as próximas gerações; só estão esgotadas tentando pagar as contas no fim do mês.
Além de estarem no mercado informal, essas pessoas também estão, diariamente, correndo riscos nas ruas da cidade e sofrendo com a insegurança alimentar. É o que revela uma pesquisa de 2025, da ONG Ação da Cidadania, mostrando que 41% dos entregadores já foram vítimas de acidentes durante o turno de suas atividades laborais.
E quando a conta não fecha no fim do mês, quais são os caminhos possíveis para fazer renda extra? Um deles é a criminalidade. Muitos criminosos, inclusive, se passam por entregadores para cometerem furtos e roubos em grandes metrópoles.
Aumentar a segurança pública é importante, mas, quando olhamos a discussão por outra ótica, conseguimos ver com mais clareza as lacunas que existem em outras pontas, como a oportunidade no mercado formal de trabalho, o planejamento de carreira e a capacitação, abrindo caminhos possíveis para além do dinheiro fácil e rápido, evitando que um problema inflacionando o outro. A sociedade atual está produzindo uma geração de imediatistas, de pessoas que estão perdendo a virtude de sonhar. Infelizmente.
Luiz Vieira é jornalista, observador da sociedade e pensador das contemporaneidades.

