O "chiqueiro" iraquiano - Le Monde Diplomatique

EDITORIAL

O "chiqueiro" iraquiano

por Ignacio Ramonet
1 de dezembro de 2003
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“Uma rebelião pode ser conduzida por 2% de ativistas
e 98% de simpatizantes passivos.”
(T. E. LAWRENCE)

Fruto de um erro de análise e de um sonho delirante dos ideólogos de Washington, a ocupação do Iraque tornou-se rapidamente um pesadelo para as forças norte-americanas e seus aliados, alvos de ataques crescentes da resistência iraquianaIgnacio Ramonet

Em seu livro Le Merdier (O chiqueiro)1, um dos melhores romances sobre a guerra do Vietnã, Gustav Hasford conta como, alistando-se nos marines (fuzileiros navais), jovens são transformados em temíveis guerreiros para, em seguida, serem jogados em meio ao caos de um conflito para o qual sua formação se revela inadequada. Em nada os ajudaria a enfrentar um inimigo invisível, sem vanguarda nem retaguarda, que se movimenta como um gás mortífero…

O Iraque não é o Vietnã. Porém, neste “Ramadã negro”, já ocorreu uma inversão dos papéis: os atacantes passaram à defensiva. E o corpo expedicionário norte-americano tem agora um objetivo prioritário: defender-se dos golpes que lhe são desferidos por uma resistência cada vez mais audaciosa. Os números são explícitos: 10 ataques contra os invasores no mês de julho, 35 até agora, e cerca de dez norte-americanos mortos por semana… Sem contar os sangrentos atentados contra reservistas britânicos, italianos, poloneses, espanhóis… A situação torna-se um pesadelo.

Arapuca iraquiana

Com uma potência de fogo apocalíptica, os estrategistas norte-americanos teimaram em adotar, para conquistar o Iraque, o axioma do marechal Foch, segundo o qual a guerra moderna consiste em buscar o núcleo central do exército inimigo, o centro de sua força, destruindo-o na batalha. Uma destruição bastante fácil, já que o exército iraquiano se volatilizou à entrada de Bagdá e, por assim dizer, não freou a cavalgada dos conquistadores – nem pontes demolidas, nem aeroportos arrasados.

Caberia questionar se não se trataria de um estratagema para deixar penetrar os invasores e, em seguida, cercá-los na arapuca de um conflito assimétrico de muito longa duração. Isto porque, a partir de agora, as tropas norte-americanas ficarão “fixas” na Mesopotâmia por bastante tempo. Uma retirada precipitada acarretaria, nos dias atuais, uma guerra civil e uma “libanização” do Iraque que transformariam o país, provavelmente por décadas, em “núcleo perturbador” do mundo.

Vingança desorientada

A espiral da violência está definitivamente engatada. E a repressão, que se multiplicará quando entrarem em ação as milícias paramilitares, lhe dará ainda mais fôlego

Os teóricos da resistência a definem da seguinte maneira: “O inimigo avança, nós recuamos; o inimigo pára, nós o atormentamos”. Sun Tzu, um dos mais antigos estudiosos da guerra, também aconselha a explorar as fraquezas dos poderosos: “Evite sua força”, diz ele. “Ataque sua inconsistência”. Com a preocupação de nunca propiciar aos invasores um alvo específico, o objetivo dos rebeldes iraquianos consiste em impor aos norte-americanos a linha de defesa passiva mais extensa possível, o que é a forma mais cara de travar uma guerra.

A espiral da violência está definitivamente engatada. E a repressão, que se multiplicará quando entrarem em ação as milícias paramilitares criadas pelas autoridades de ocupação, irá dar ainda mais fôlego à resistência. Alimentada pelo ódio do invasor, uma dinâmica de vingança engole as forças de ocupação que, desorientadas, têm dificuldade em distinguir seus adversários dos “amigos”. Repetem-se os “equívocos” contra cidadãos iraquianos que, considerados “delatores” em qualquer lugar, constituem o alvo prioritário da resistência.

“Eldorado” dos mercenários

Ao invés de dissuadir, a invasão do Iraque estimulou e relançou de maneira trágica o terrorismo internacional

Os 130 mil soldados norte-americanos2 – dos quais apenas 56 mil são verdadeiros combatentes3 – já se mostram insuficientes para garantir a “segurança” do país. O Iraque transformou-se no “Eldorado” das empresas de segurança privadas. As embaixadas estrangeiras, as empresas ocidentais que foram beneficiadas com contratos de reconstrução (essencialmente norte-americanas e com vínculos com o governo Bush4) e os ministérios, assim como outros locais públicos, são protegidos por milhares de mercenários recrutados por agências privadas, tais como a Erinys, que contratou 6.500 homens para vigiar as instalações petrolíferas, a Global Risk, encarregada da segurança dos membros do Conselho de Governo interino, a Vinnell, que deu treinamento ao novo exército iraquiano, a Dyncorp, encarregada de formar novos policiais, e a Olive, que dá segurança aos executivos das grandes empresas norte-americanas.

Por outro lado, ao invés de dissuadir, a invasão do Iraque estimulou e relançou de maneira trágica o terrorismo internacional. Prova disto são os odiosos atentados que se multiplicam de Casablanca a Riad, de Mombassa a Istambul. Enquanto isso, o projeto de instaurar uma democracia em Bagdá vai ficando cada dia mais longe…

Como está longe o tempo em que os “falcões” do Pentágono anunciavam que as forças de invasão seriam recebidas como libertadoras… Esse imenso erro de análise está na origem do atual caos. Embriagados pela força, os ideólogos de Washington (Cheney, Rumsfeld, Wolfowitz, Perle?) se apressaram a utilizar a temível máquina de guerra norte-americana para realizar seu sonho delirante de “redesenhar o Oriente Médio”. Agora, tudo se volta contra eles.

(Trad.: Jô Amado)

1 – The Short Timers, título original do livro, foi adaptado para o cinema por Stanley Kubrick, com o título Full Metal Jacket (1987).

2 – Sem mandato da ONU, as forças de ocupação contam com 155 mil homens, originários de 34 países (nenhum deles árabe, ou muçulmano).

3 – Vale uma comparação com os 39 mil homens que mantêm a ordem somente na cidade de Nova York…

Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.



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