O “Comando Jungla” e o assassinato de um mapuche - Le Monde Diplomatique

CAMILO CATRILLANCA

O “Comando Jungla” e o assassinato de um mapuche

por Silvia Beatriz Adoue
22 de novembro de 2018
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Camilo Catrillanca tinha 24 anos, uma filha e uma esposa grávida quando foi executado. Era portavoz da comunidade de Temucuicui e sua curta biografia apresenta precocidade e coerência na defesa da autonomia do território.

Chile tem sido, desde 1973, um laboratório de maldades para nossa região. A morte do líder mapuche, Camilo Catrillanca, em 14 de novembro com uma bala na nuca disparada, segundo as peças do inquérito, pelo sargento de carabineiros, Raul Ávila, deixa entrever um padrão de ação repressiva. A ação visa remover obstáculos à integração otimizada dos territórios da Araucania (territórios ancestrais do povo mapuche) às cadeias produtivas. Essa integração dos territórios às cadeias de acumulação parece ser o principal objetivo dos Estados da América do Sul para o próximo período.

A mão de lã e a mão de chumbo

O governo do presidente Sebastián Piñera apresentou duas grandes políticas públicas destinadas ao território ancestral mapuche da Araucania, no centro-sul de Chile, integrada ao território nacional desde a guerra que culminou em 1881. Uma é o “Plan Impulso Araucanía” lançado no 24 de setembro durante uma viagem do presidente à cidade de Temuco. O plano pretende, por um lado, a associação de inversores com as comunidades locais para empreendimentos econômicos. Por outro, propõe cotas indígenas nos partidos políticos, além de um registro de lonkos e machis (autoridades políticas e espirituais mapuches). Isto é, visa a integração econômica nas cadeias de acumulação e a integração política ao Estado chileno.

A outra política tem a ver com a constituição de uma tropa de elite do Grupo de Operaciones Especiales de Carabineros, que recebeu o nome de “Comando Jungla” após receber treinamento da Policía Nacional de Colombia no primeiro semestre deste ano. O curso custou ao Estado chileno US$ 3.500 por policial. O grupo foi preparado e equipado para agir no sul do Chile.

Ambas políticas são as duas mãos de uma ação que visa estimular a integração e isolar os que obstinadamente se recusam a participar dela.

 

A comunidade de Temucuicui

Camilo Catrillanca tinha 24 anos, uma filha e uma esposa grávida quando foi executado. Era werken (portavoz) da comunidade de Temucuicui e neto do lonko, e sua curta biografia apresenta precocidade (como acontece com a maioria das lideranças mapuches) e coerência na defesa da autonomia do território. Foi visto, mais de uma vez, enfrentando tentativas de despejo apenas com o corpo desarmado e a palavra precisa, aos 17 e aos 20 anos.

Temucuicui é uma comunidade com soberania alimentar e escola própria. Camilo foi baleado na cabeça enquanto manejava o trator, na lida, acompanhado de um jovem de 15 anos, testemunha chave do assassinato. Em junho de 2017, as Fuerzas Especiales de Carabineros invadiram uma escola mapuche com gases lacrimogêneos, durante as aulas de ensino fundamental, que provocou o protesto formal do Colégio de Professores.

Em setembro do mesmo ano, foi detido Rodrigo Huenchullan, uma liderança de Temucuicui, durante a chamada “Operación Huracán”, junto com outros sete dirigentes de outras comunidades. Em pouco tempo, a operação de inteligência de Carabineros revelou-se uma montagem burda que enfrentou a instituição com a Fiscalía e terminou com uma série processos administrativos e judiciais contra membros da força policial. A intenção era forjar provas de uma suposta coordenação de várias organizações mapuche que estariam receptando armas provenientes da Argentina. Se bem toda a montagem foi descoberta, a tentativa de envolvimento de Huenchullan apresentava-se como um dos detalhes mais escandalosos, já que a independência de Temucuicui com relação aos outros agrupamentos mapuches é conhecida e os “roteiristas” nem se preocuparam em forjar qualquer prova que imputasse a liderança da comunidade.

Camilo Catrillanca, líder mapuche assassinado em uma operação policial no Chile.

A repressão do “Comando Jungla”

A ação do grupo de elite em Temucuicui incluiu um helicóptero que supervisionava  o conjunto. Todos os componentes do “Comando Jungla” operam com uma câmara de vídeo ligada no seu capacete. Os que ingressaram primeiro no território atiraram, segundo as testemunhas e as cápsulas recolhidas no local, primeiro balas de borracha e depois balas revestidas de chumbo. Uma dessas se alojou na nuca de Camilo. Catrillanca teve tempo de recomendar ao menor que o acompanhava no trator para se jogar no chão do veículo. Isso salvou a vida do jovem. Imediatamente, bateram no rapaz que sobreviveu, o algemaram e o levaram detido. Durante o trajeto, continuaram batendo nele e, na sua frente, o sargento Raul Ávila, apontado como executor pela testemunha, retirou o chip de memória de sua câmara e o cortou com tesoura. Mais tarde, e depois de um interrogatório de 7 horas, admitiria o fato, alegando “razões pessoais” para destruir o vídeo. Camilo agonizou no hospital ao qual foi transladado.

Além da testemunha, quatro membros da comunidade foram detidos, entre eles dois menores. Rapidamente, a Comissão de Direitos Humanos foi acionada e se apresentou para pedir a liminar e a acusação que justificava tanto o ingresso no território comunal como a agressão ao werken e a detenção dos cinco comuneiros. Carabineros não possuíam nenhum documento para apresentar. Horas depois, os policiais apresentaram uma acusação da fiscalia a partir de denúncia por receptação de carros roubados, com a informação de que se tratava de carros de professores. No documento da fiscalia, porém, não constavam nem os nomes dos denunciantes e nem os números de matrícula dos carros supostamente roubados. O Colégio de Professores não se deixou esperar. Imediatamente negou qualquer roubo de carros a professores. A juíza a cargo do processo ordenou a imediata liberdade dos cinco detidos e a investigação sobre a operação. Os quatro carabineros que participaram diretamente do episódio foram afastados das suas funções.

 

Consequências imediatas

Somente neste século foram assassinadas 18 lideranças mapuches no Chile. Nove durante o governo de Ricardo Lagos, sete durante os governos de Michelle Bachelet e dois durante o governo de Sebastián Piñera. Isto é, o combate ao povo mapuche é uma política de Estado. Ela se baseia na militarização da região, na  tentativa de enquadramento das lutas territoriais na lei antiterrorista e na acumulação de montagens com provas forjadas.

Desta vez, com um alcance de todo o território chileno, mas especialmente na Araucania, houve mobilizações pedindo a renúncia do chefe de Carabineros, do prefeito do município, do governador da região e do ministro do Interior e Segurança Pública Andrés Chandwick, e exigindo o fim dos ataques ao povo mapuche. Nesse contexto, a ação do Estado contra o povo dos territórios está ameaçada de desmoralização, mesmo com a repressão do “Comando Jungla” na comunidade de Coñomil, próxima de Temucuicui, e nas universidades em que os estudantes se manifestaram solidários ao povo mapuche.

O velório e o enterro de Camilo contou a presença de lideranças de comunidades de várias regiões que há tempo não conversavam entre si. O avô do werken, o lonko Juan Catrillanca fez um chamado à unidade do povo mapuche. As lideranças presentes falaram da necessidade de um projeto mapuche para a Araucania, rejeitando a integração às cadeias do capital, às obras de infraestrutura para a extração, produção e escoamento de commodities para a exportação (que degradam igualmente o território), e por uma forma de organização política autônoma.

 

O padrão repressivo e o subcontinente sulamericano

Em que pese às trapalhadas expostas durante todo o episódio, e talvez por causa delas, podemos observar algumas práticas e justificativas que se reproduzem como um padrão na região. Aqui vemos procedimentos de montagem e apagamento de ações ilegais por parte de instituições do Estado. Vemos a cooperação entre forças militarizadas de vários países seja no treinamento, como é o caso do “Comando Jungla”; nos acordos para ações conjuntas, como é o caso da Fuerza de Paz Combinada “Cruz del Sur” entre Chile e Argentina; na tentativa de instalação de bases militares com presença de tropas estadunidenses, como em Neuquén, província da Argentina que abrange território mapuche ao leste da cordilheira dos Andes. E vemos também a colaboração repressiva entre Estados, como no caso da extradição do lonko da comunidade mapuche de Cushamen, Facundo Jones Huala, por parte do governo argentino para ser julgado pelos tribunais chilenos. Este processo se dá num contexto de transformações dos marcos regulatórios para a circulação do capital e flexibilização das relações de trabalho garantidas pelos Estados numa sintonia que não deixa lugar a dúvidas sobre seu alinhamento com o novo padrão de dominação.

*Silvia Beatriz Adoue é professora da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara e professora da Escola Nacional Florestan Fernandes.



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