O conservadorismo pernambucano: uma breve história

“NÃO HÁ NADA MAIS CONSERVADOR DO QUE UM LIBERAL NO PODER”

O conservadorismo pernambucano: uma breve história

por Érico Andrade
30 de outubro de 2020
compartilhar
visualização

Na capital pernambucana, a forma mais sofisticada de a oligarquia se manter no poder foi incorporar parte das lutas da esquerda como plataforma política

O populismo como matéria política da direita está presente com força no Brasil após o período da redemocratização. Ele se espraia de diferentes modos pelo país e na maioria dos estados ainda mantém a forma do coronelismo. Este último tomado – seguindo aqui uma definição mínima – como uma política oligárquica voltada aos interesses regionais e familiares. Essa definição é suficiente para nos fazer perceber como ele ainda pauta a política nacional. A diferença do coronelismo atual em face daquele da Primeira República repousa no fato de que a industrialização das cidades e o aumento de pessoas habilitadas a votar, após a Constituição de 1988, o forçaram a assumir novas camadas e roupagens para manter seu protagonismo político.

Estamos falando da força das famílias que comandam o Brasil e que em cidades seculares como o Recife, sobre a qual se volta mais especificamente meu artigo, nunca estiveram dispostas a uma virada política mais à esquerda. Na capital pernambucana, a forma mais sofisticada de a oligarquia se manter no poder foi incorporar parte das lutas da esquerda como plataforma política. Isso explica por que a primeira eleição direta para prefeito da cidade foi ganha por um partido que levava socialismo no nome (Partido Socialista Brasileiro), mas que contava com a anuência de partes das elites, ligadas sobretudo às famílias tradicionais do estado. Nesse sentido, a oligarquia operava com um suposto direcionamento à esquerda, mas que era chancelado por um pacto de centro. Esse pacto selava uma aliança entre Jarbas Vasconcelos, que migrou para o PSB apenas para ser candidato, uma vez que tinha perdido espaço no MDB, e Miguel Arraes, casado com uma das grandes representantes da elite local.

(Tulio Assis/Wikimedia)

Assim, na primeira eleição direta, a oligarquia já passou a governar a cidade num arranjo político que transformava a esquerda em centro. Esse centro político era composto por certos descendentes da aristocracia canavieira, sobretudo intelectualizados, que se associaram a uma compreensão mais urbanizada da política na qual os interesses aristocráticos não estavam diretamente em questão. Ou seja, a oligarquia se organizou em torno de pautas compatíveis com a cidade, que recebia cada vez mais pessoas oriundas do campo, sem mudar a estrutura fundamental da divisão social do estado como um todo.

Os diferentes arranjos políticos subsequentes não alteraram a ordem oligárquica e no máximo mudaram o protagonismo dos atores, que se reorganizaram partidariamente a fim de manter certas famílias, como Cavalcanti e Magalhães, no poder.

Só com a vitória de João Paulo Lima e Silva, do Partido dos Trabalhadores, em 2000, a prefeitura passou a ser governada por alguém de fora do sistema político tradicional e com a marca do operariado. Impulsionado pelo crescimento do PT e por fatos internos, como a defesa de uma ocupação que lhe custou uma vértebra fraturada, João Paulo conseguiu mudar o mapa político da cidade por uma década.

Quando o candidato João da Costa, indicado por ele, perdeu a reeleição, as forças aristocráticas retomaram a prefeitura, mas dessa vez com uma vestimenta técnica, na figura de um prefeito advindo do Tribunal de Contas e, como de costume, com uma linhagem aristocrática. Com ele se firmou uma política em que qualquer guinada mais à esquerda é obstada em nome de um governo de coalizão de centro.

Essa ordem política sofre novamente uma ameaça, mas agora do espectro da extrema direita. Se é verdade que o bolsonarismo, stricto sensu, não tem o monopólio da direita na cidade, sabemos que ele arrasta consigo, contudo, uma série de oportunistas, e é nesse contexto que a candidatura de Mendonça Filho se coloca como aquela capaz de dialogar – se submeter, se necessário – com o governo federal. É também o caso da Delegada Patrícia, mais morista do que bolsonarista, que longe de uma adesão incondicionada ao governo Bolsonaro tenta dirigir as pautas conservadoras para uma dimensão mais prática e ligada à sua função mesma de delegada. Não se tratam, neste caso, de candidaturas propriamente de extrema direita no seu DNA, mas de um candidato e de uma candidata que se colocam contra o sistema político e com um aceno significativo às pautas moralistas da extrema direita. Tecerei alguns comentários sobre essas candidaturas.

Diferentemente de outros bolsonaristas de ocasião, Mendonça Filho e o seu partido (Democratas; antigo Partido da Frente Liberal) traduzem a política tradicional e oligárquica que governou a cidade em diferentes momentos, mas notadamente recupera o caráter antissistema por meio da defesa, com a hipocrisia que lhe é própria, de bandeiras de combate à corrupção e pautas morais para agradar eleitores estritamente bolsonaristas e que ganharam volume após a eleição de 2018.

Nessa perspectiva, a estratégia da candidatura de Mendonça Filho consiste, por um lado, em conferir uma conotação de esquerda para o PSB, que esse partido está longe de ter, para lhe ser o polo oposto legítimo. E, por outro, em apostar no desgaste do PT, promovido pelo antipetismo. Com isso ela se firma como uma candidatura de direita no campo conservador e como a única de fato de oposição. Assim, se é verdade que o conservadorismo não é uma posição política monolítica, sendo o bolsonarismo um dos seus espectros, em Recife fica claro a máxima do período da regência. “Não há nada mais conservador do que um liberal no poder”. E o que justifica essa asserção é a percepção de que o fim último da política liberal em Recife (tanto dos Democratas como do antigo PFL) é garantir o seu modelo de família e aquilo que usurparam tanto dos negros e negras quantos dos indígenas: a propriedade.

Por outro lado, a Delegada Patrícia disputa politicamente a centralidade da direita com um discurso antissistema que mesmo contendo certa dose de hipocrisia, considerando a sua base de apoio e o seu vice Daniel Coelho, consegue denunciar o destino oligárquico reservado à cidade pelas demais candidaturas que, quando não disputam a paternidade de Arraes, simplesmente reproduzem outra horda familiar. Nesse ponto a sua candidatura vem ganhando força nas pesquisas porque o seu discurso direto e claro se alia ao fato de que a delegacia anticorrupção, chefiada por ela, foi fechada no governo do PSB, que comanda a atual gestão. Ou seja, na prática ela se mostra como a paladina da justiça num lugar em que se fechou uma delegacia anticorrupção. O seu discurso de que o seu primeiro emprego não foi um cargo político e de que a sua trajetória profissional foi marcada pelo mérito é alçado ao primeiro plano para esconder que longe de promover uma revolução social na cidade, a sua candidatura se constitui como um modo de colocar em prática uma agenda de direita que tende mais ao extremo do que ao centro. E no Recife as políticas mais à direita terminam sempre por beneficiar as mesmas grandes e tradicionais famílias.

*Érico Andrade é filósofo, psicanalista em formação e professor da Universidade Federal de Pernambuco.



Artigos Relacionados

UM FRACASSO EXITOSO

Massacre no Jacarezinho: necropolítica aplicada

Online | Brasil
por Thiago Rodrigues
CHACINA DE JACAREZINHO

Luto seletivo, estratégia de invisibilização

Online | Brasil
por Bruna Martins Costa e William Zeytounlian
CHACINA NO JACAREZINHO

Para o Estado, as vidas de negros, pobres e favelados não importam?

Online | Brasil
por Wallace de Moraes
SETOR ELÉTRICO

Cemig: a irracionalidade da proposta de privatização

Online | Brasil
por Diogo Santos
Editorial

Por que defendemos o impeachment de Bolsonaro

Online | Brasil
por Redação
Guilhotina

Guilhotina Especial Todo Mundo É Artista – 100 Anos de Joseph Beuys

Séries Especiais | Alemanha

Ensaio sobre a pandemia

Online | Brasil
por Vinícius Mendes
Mídia e pandemia: a democracia sob ataque

Comunicação popular e comunitária salvam vidas durante a pandemia

por Tâmara Terso e Paulo Victor Melo