O craque crespo - Le Monde Diplomatique

IDENTIDADE

O craque crespo

por Alexandra Baldeh Loras
agosto 10, 2017
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Desde que Neymar despontou no futebol, uma de suas marcas registradas é o cabelo. Quando conseguimos fazer a transição capilar, esse gesto nos aproxima da nossa real identidade e nos empodera. Falo por experiência própria. Passei 30 anos usando cabelos lisos e já nem me lembrava de como eram meus fios naturais. Recuperar a textura crespa, para além do cuidado estético, foi um ato político, de aceitação, de autorreconhecimento e de redescoberta da minha negritude, algo que consegui no Brasil graças a minha aproximação com as militantes negras, donas de um discurso muito poderoso nesse sentido.Alexandra Baldeh Loras

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Desde que Neymar despontou no futebol, uma de suas marcas registradas é o cabelo. Sempre com um visual novo a cada campeonato, o jogador já apareceu em campo com corte moicano, tingido de loiro, raspado e com os fios alisados (ou tudo isso de uma vez), inspirando milhares de fãs mirins a adotar seus looks arrojados. Mas nesses anos de carreira ainda faltava o ídolo fazer uma aparição nos gramados com seu cabelo crespo natural, que ele assumiu recentemente para a alegria e a autoestima dos meninos cacheados que sonham ser craques um dia. Veja a foto em seu instagram na qual ele aparece ao lado do piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton, com direito a faixa que forma um topete com os fios, deixando-os ainda mais volumosos. Algo inimaginável até pouco tempo atrás para quem havia se acostumado a um Neymar liso.

Em uma entrevista à jornalista Marilia Gabriela, em 2012, o jogador afirmou que era vaidoso e gostava de estar sempre arrumado, caprichando nos brincos e bonés, mesmo, na sua opinião, não tendo um visual perfeito. “Eu tenho um cabelo péssimo, ruim mesmo”, disse ele na ocasião. Tal afirmação não é nenhuma surpresa. De um lado, passamos a vida ouvindo piadas e brincadeiras de mau gosto sobre ter cabelos crespos. De outro, somos tão bombardeados pelo padrão de beleza eurocêntrico onipresente na publicidade e na televisão que qualquer cabelo minimamente cacheado é considerado “ruim”, “duro” e “desleixado”, em oposição ao cabelo “bom”, que dispensa explicações.

Quantas propagandas de “antes e depois” você já assistiu contrapondo uma modelo de cabelos volumosos, cheios de frizz e cara de frustrada a uma nova versão dela mesma, lisa e sorridente, após o uso daquele creme milagroso? Quem nasceu cacheado certamente também já foi alvo de comentários carregados de preconceito, do mais sutil ao mais ofensivo, como esses exemplos a seguir, citados no blog Cacheia: “Por que você não faz um tratamento para controlar o volume?”, “Por que você não arruma o cabelo para a festa?” e, o pior de todos, “Cabelo crespo é coisa de pobre”.

É difícil assumir os cachos e abandonar a ditadura do alisamento em um mundo onde o cabelo liso é tido como o padrão de beleza ideal. No livro que acaba de lançar, Todos contra todos, o historiador Leandro Karnal lamenta que a escolhida para representar a imagem da mulher brasileira na abertura da Olimpíada tenha sido Gisele Bundchen. Nada contra a linda e competentíssima Gisele. Mas é a imagem da loira, ar de europeia, bem distante da imagem mais comumente associada à brasileira.

Quando conseguimos fazer a transição capilar, esse gesto nos aproxima da nossa real identidade e nos empodera. Falo por experiência própria. Passei 30 anos usando cabelos lisos e já nem me lembrava de como eram meus fios naturais. Recuperar a textura crespa, para além do cuidado estético, foi um ato político, de aceitação, de autorreconhecimento e de redescoberta da minha negritude, algo que consegui no Brasil graças a minha aproximação com as militantes negras, donas de um discurso muito poderoso nesse sentido.

Hoje basta uma rápida pesquisa na internet para encontrar inúmeros sites, blogs e grupos nas redes sociais dedicados aos cuidados com os cabelos crespos e constatar uma bem-vinda inversão do clássico clichê dos comerciais de xampu. O discurso dos fios naturais tem ganhado uma representação cada vez mais positiva, valorizando a volta dos cachos sem cair no estereótipo do “exótico”, muito comum no Brasil. Coincidência ou não, em 2015 as vendas de produtos para alisar o cabelo caíram 26% em comparação com o ano anterior, segundo a Associação Brasileira de Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos. O cabelo crespo, definitivamente, não é uma moda passageira. Torço que para Neymar também não seja.
Alexandra Loras é ex-consulesa da França em São Paulo, empresária, consultora de empresas e autora de livros.



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