SUSTENTABILIDADE

O crédito rural precisa enxergar a sociobioeconomia e o futuro do Brasil

sociobioeconomia é uma das mais promissoras soluções climáticas disponíveis, baseada em sistemas como agroflorestas, extrativismo sustentável, manejo de mínimo impacto e pesca artesanal  

Ao completar 30 anos, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) se consolida como uma das mais importantes políticas públicas de inclusão produtiva do país. Ao longo de três décadas, foi responsável por estruturar o financiamento da agricultura familiar, ampliar o acesso ao crédito e contribuir para a segurança alimentar brasileira. No entanto, esse marco histórico também impõe uma reflexão: o Pronaf precisa evoluir para responder aos desafios e oportunidades do século XXI. 

Hoje, o Brasil reúne condições únicas para liderar a transição para uma economia de baixo carbono baseada na biodiversidade. Essa oportunidade já está sendo construída nos territórios, por meio da sociobioeconomia – uma dinâmica produtiva liderada por povos indígenas, comunidades tradicionais, pescadores artesanais e agricultores familiares, que alia geração de renda, conservação ambiental e resiliência climática. Ainda assim, essa economia segue amplamente excluída do principal instrumento de financiamento da agricultura familiar.

A sociobioeconomia é uma das mais promissoras soluções climáticas disponíveis, baseada em sistemas como agroflorestas, extrativismo sustentável, manejo de mínimo impacto e pesca artesanal. São atividades lideradas localmente, que mantêm a floresta em pé, recuperam áreas degradadas e fortalecem economias regionais. No entanto, o desenho atual do crédito rural ainda não dialoga com essa realidade.  

O Pronaf permanece estruturado para modelos produtivos convencionais, com forte padronização operacional e baixa aderência à diversidade produtiva do país. O resultado é uma distorção persistente: cerca de 70% dos recursos concentram-se na região Sul, enquanto regiões como Amazônia e Nordeste permanecem subatendidas. No Norte, mais de 85% das operações estão direcionadas à pecuária. 

 

A Nota Técnica nº 11/2026, elaborada pelo ÓSociobio e coordenada pela Conexsus, evidencia a exclusão sistemática de povos e comunidades tradicionais, pescadores artesanais e agricultores familiares que operam com sistemas produtivos sustentáveis. Trata-se de uma exclusão que decorre da inadequação das regras e instrumentos do crédito rural. 

Um dos principais gargalos está no acesso ao Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF). A partir de uma base de mais de 6 mil famílias acompanhadas pela rede CrediAmbiental, estima-se que cerca de 40% ainda não possuem CAF ativo, permanecendo fora do sistema de crédito. 

Do ponto de vista econômico, essa exclusão representa uma alocação ineficiente de recursos públicos. Cadeias como açaí, castanha, cacau nativo e outros produtos florestais possuem alto potencial de geração de valor, emprego e inserção em mercados dinâmicos. 

A solução passa pela atualização das regras: ampliar o acesso ao CAF, fortalecer a assistência técnica, adaptar o Manual de Crédito Rural e criar incentivos para o financiamento da sociobioeconomia. 

Ao completar três décadas, o Pronaf chega a um momento decisivo. Adaptar o crédito rural à sociobioeconomia é alinhar o Brasil às suas vantagens comparativas e aos desafios do século XXI. O Plano Safra 2026/2027 é uma oportunidade concreta para essa mudança. 

Ignorar essa agenda é manter um modelo que financia o passado. Avançar é investir em um futuro que já está sendo construído nos territórios.       

                                                                                                                                                                                                                                     

Fabiola Zerbini é Diretora Executiva da Conexsus.  

Laura Souza é Secretária Executiva do ÓSociobio 

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