O despertar paraguaio - Le Monde Diplomatique

POLÍTICA / CONE SUL

O despertar paraguaio

por Roberto Cattani
4 de maio de 2009
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A eleição de Fernando Lugo põe fim a 61 anos de monopólio político do Partido Colorado – seis décadas de clientelismo, autoritarismo, brutalidades, plutocracia e corrupção. Mas o novo presidente terá muitos problemas para resolver. Entre eles, a negociação da energia excedente de Itaipu com o Brasil

Tudo tem um fim neste mundo. Até mesmo o inabalável monopólio de 61 anos do Partido Colorado no governo paraguaio chegou ao fim. E mais: por obra de um religioso alinhado com a Teologia da Liberação. Para o Paraguai, é uma revolução, e uma revolução inteiramente democrática. As eleições de Lula no Brasil, Bachelet no Chile e Correa no Equador foram eventos consideráveis para cada um desses países. Mas o elemento revolucionário da vitória de ‘Monseñor’ Fernando Lugo no Paraguai talvez só seja comparável à eleição de Evo Morales na Bolívia. O país mais reacionário, retrógrado e autárquico da América do Sul alinhou-se com a maré progressista do resto do continente. Agora só resta a Colômbia, que continuará votando majoritariamente à direita enquanto existirem as Farc.

A eleição de Lugo foi, sem dúvida, uma vitória dele próprio, contra todos os prognósticos; mas foi também o humilhante redimensionamento político do general golpista Lino Oviedo e o fim da linha para o Partido Colorado.

Os Colorados bem que tentaram se atribuir um perfil aparentemente renovador, escolhendo como candidata Blanca Ovelar e preterindo o atual vice-presidente Luis Castiglioni, que representava o lado mais tenebroso do partido, algo entre a máfia e o antigo sistema soviético. Ovelar, de 50 anos, uma ex-professora e ex-ministra da Educação (2002-2007) que diz ser “capaz de se emocionar” com a política, oferecia, de fato, uma aparência de ruptura, comparada com os caciques, coronéis e caudilhos que comandaram a política paraguaia nas últimas seis décadas. No Paraguai, o voto feminino só foi conquistado em 1961. O sonho nada disfarçado de Ovelar era se tornar a terceira mulher presidente do continente, depois da chilena Michelle Bachelet e da argentina Cristina Fernandez de Kirchner.

Para enfrentar a ascensão nas pesquisas eleitorais do “bispo dos pobres”, o Partido Colorado lançou mão de todos os artifícios da velha política coronelista: compra de votos, pressões sobre os funcionários públicos (todos inscritos obrigatoriamente no Partido Colorado), atentados contra partidários de Lugo, e uma violentíssima campanha denigratória, na qual o candidato oposicionista foi retratado como terrorista, seqüestrador, aliado das Farc e “companheiro” de Chávez e Morales na esquerda radical. O próprio presidente paraguaio, o colorado Nicanor Duarte Frutos, chegou a denunciar a presença no país de colombianos e bolivianos como assessores políticos de Lugo, sendo imediatamente desmentido pelos observadores internacionais.

Nada disso funcionou, porém. Ninguém no Paraguai, nem mesmo os militantes colorados, acredita mais nas invencionices da cúpula. Ao contrário, as manobras só serviram para mostrar claramente o pânico que reinava no velho partido, já podre e pronto a se desagregar. Um claro sinal da derrota foi o comício, anunciado como “triunfal”, de fechamento da campanha eleitoral de Blanca Ovelar: dos 120 mil militantes colorados anunciados, compareceram 30 mil, e, ainda assim, sem muito entusiasmo. As seis décadas de clientelismo, autoritarismo, brutalidades, plutocracia e corrupção paradigmática − enfim, como definiu o jornalista brasileiro Elio Gaspari, de “cleptocracia” − estavam começando a pesar demais em cima do decrépito partidão de Caballero, Stroessner e Wasmosy. Desta vez, com a presença maciça de observadores internacionais, as prevaricações e fraudes eleitorais habituais da política paraguaia se tornaram impossíveis, e o esquema de sobrevivência do Partido Colorado desmoronou.

Mais difícil de explicar é o retumbante fracasso de Lino Oviedo, que costumava se declarar “predestinado” a presidir o Paraguai. A humilhação de Oviedo é talvez o ponto final do caudilhismo de direita na América Latina. Personagem folclórico, populista (em público, tem predileção pelos discursos em guarani, mas, em privado, adora exibir seu sotaque ianque em inglês), apelidado de ‘bonsai’ ou ‘jóquei’ por seus inimigos, por causa da estatura reduzida e da paixão pelos cavalos, o general aposentado e ex-comandante do Exército paraguaio se colocava à direita até do reacionário Partido Colorado. Foi acusado em várias ocasiões de ser um títere da CIA. Os paraguaios já o consideraram um herói, por sua participação no golpe vitorioso contra a ditadura de Alfredo Stroessner, e um vilão, por sua participação no golpe falido contra o primeiro presidente civil eleito no Paraguai, Juan Carlos Wasmosy. Condenado a dez anos por um tribunal militar, Oviedo passou um ano trancado num luxuoso quartel (de cavalaria, é claro), fugiu para a Argentina, e depois para o Brasil, onde ficou preso novamente durante 18 meses. Liberado, decidiu voltar ao Paraguai, acreditando que seria acolhido como refugiado injustamente perseguido, e ficou preso de novo. Em 2007, a Corte Suprema anulou a condenação, tornando possível sua candidatura à presidência: uma manobra política do governo de Duarte Frutos, visando claramente tirar votos de Lugo, que acabou prejudicando muito mais o próprio Partido Colorado. O voto reacionário (ainda majoritário, calculando que Ovelar conquistou 30% dos sufrágios e Oviedo 20%, contra os 40% de Lugo) se dividiu e a frente progressista prevaleceu.

A frente criada por Lugo, a APC (Alianza Patriótica para el Cambio) junta todo tipo de partidos e movimentos, desde a direita moderada até a extrema esquerda, com o Movimiento Tekojoja (“igualdade”, em guarani), aglutinando ampla rede de militantes em todo o país. Pela composição da frente vencedora e pelas próprias declarações de Lugo, o que se pode esperar é um governo mais na linha do brasileiro Lula e do uruguaio Tabaré Vazquez, com pitadas de Teologia da Liberação, do que do venezuelano Chávez e do boliviano Morales. O vice-presidente eleito, Federico Franco, foi nomeado pelo Partido Liberal (mais para o centro que para a esquerda) e não esconde suas simpatias pelo conservador espanhol José Maria Aznar. Ainda não é claro se a presença do Partido Liberal na composição do futuro governo representará um fator de equilíbrio e moderação ou de divisão.

Os compromissos assumidos por Lugo com os povos indígenas paraguaios, que o apoiaram ativamente [ver o quadro], não significam que haverá realmente uma aproximação com a Bolívia, já que os índios paraguaios são minoria na população, e que, historicamente, desde a Guerra do Chaco, não há grandes simpatias entre os dois países. Tudo indica que, apesar das diferenças de interesses em relação à energia excedente de Itaipu, o governo Lula poderá se tornar um parceiro prioritário para o recém-nascido governo progressista paraguaio.

A admissão da derrota por parte da candidata colorada foi também um evento histórico. Como disse o atual presidente Nicanor Duarte Frutos, “será a primeira vez na história do Paraguai que um partido cede o poder a outro sem golpe, sem sangue e sem lutas fratricidas”.

O primeiro desafio para o novo governo será a ‘descoloradização’ da vida pública, já que há décadas o Estado e o Partido Colorado estavam em simbiose e até mesmo quase completamente identificados. Todas as estruturas, todo o poder local, e especialmente toda a arrecadação estão nas mãos dos Colorados. Essa reconversão a um poder realmente público será de importância crucial para a luta contra a corrupção, que Lugo colocou como uma das prioridades de seu governo. A outra será a reforma agrária: no Paraguai, o latifúndio representa ainda quase 80% da propriedade agrária, e aos pequenos agricultores só foram deixadas as piores terras do Chaco, que muitas vezes nem sustentam as famílias que nelas vivem. Um dos maiores exemplos da disparidade é o brasiguaio nascido catarinense Tranquilo Fávero, maior produtor de soja do Paraguai, que possui 45 mil hectares de boas terras em 13 dos 17 departamentos do país.

“Se tem alguém que pode conseguir tudo isso é Monseñor Lugo”, afirmou o sociólogo paraguaio Marcial Riquelme, ex-professor da Universidade de Kansas, falecido em julho do ano passado.  “Como homem da Igreja e bispo, ele foi treinado para comandar as dinâmicas coletivas e já provou ser um organizador excepcional. Ele sabe como juntar pessoas que não gostam umas da outras ou que têm opiniões radicalmente diferentes, e sabe mediar entre os setores para reconciliar os interesses de cada um em nome do interesse comum”.

Fernando Lugo Méndez nasceu no dia 30 de maio de 1951, em San Solano, na região de Itapuan, uma das áreas mais pobres do Paraguai, onde mais de um terço da população vive abaixo da linha de pobreza, segundo os critérios da ONU. Vem de uma família não religiosa, mas muito engajada politicamente. Seu tio, Epifanio Mendez, foi uma figura importante do Partido Colorado, antes de passar à dissidência. O pai foi preso várias vezes por atividades políticas ilícitas e três irmãos foram torturados e exilados, como milhares de opositores, durante a ditadura de 35 anos do general Stroessner.

Lugo foi ordenado sacerdote em 1977, aos 26 anos. Em 1979, viajou ao Equador como missionário. Foi lá, pelas mãos de Dom Leonidas Proaño Villalba (1910-1988), bispo de Riobamba, um dos fundadores da “Igreja dos Pobres”, que entrou em contato com a Teologia da Liberação, então no auge de sua influência. Com Proaño, Lugo assimilou também a idéia do engajamento a favor dos povos indígenas. De volta ao país natal, em 1983, foi expulso pelo regime Stroessner e ficou quatro anos exilado em Roma. Em 1994, foi nomeado bispo de San Pedro, no centro do Paraguai, uma região de muita miséria, onde ganhou o apelido de ‘bispo dos pobres’.

Em 2006, decidiu que a atividade pastoral era insuficiente para a luta contra as injustiças sociais e a pobreza e renunciou ao sacerdócio para se engajar na luta política, com a candidatura à Presidência. Mas recusa terminantemente os epítetos de “Salvador” e de “Messias” que lhe atribuem muitos seguidores fanáticos.

Para a Igreja Católica, Lugo ainda é bispo, o primeiro bispo católico a se eleger presidente de um país. O único caso análogo é a eleição do padre Jean-Bertrand Aristide a presidente do Haiti, um antecedente negativo que o Vaticano preferiria esquecer. A suspensão a divinis, que não permite mais a Lugo oficiar e celebrar missa, não lhe tira, porém, a condição de bispo. Lugo havia pedido à Santa Sé o retorno ao estado laico: pedido imediatamente recusado, com o argumento que “o episcopado é uma serventia aceita livremente para sempre”. Com a truculência que caracteriza o pontificado de Bento XVI, a Igreja exortou o então bispo de San Pedro a recusar a candidatura, sob pena de suspensão a divinis, que acabou acontecendo em fevereiro de 2007. Com a vitória nas eleições (que o Vaticano talvez não desejasse), o dilema se tornou mais grave ainda. O presidente da Conferência Episcopal Paraguaia, Ignácio Gogorza, revelou que o próprio Bento XVI cuidará “pessoalmente” de uma questão tão delicada, e que “a Igreja tomará todo o tempo necessário para refletir”.

Os constitucionalistas do Vaticano já deixaram claro, porém, que, se o desejar, e se o papa o permitir, apesar do antecedente da desobediência grave, Lugo poderá ainda voltar a ser bispo, depois de terminado seu mandato presidencial.

 

*Roberto Cattani é jornalista e escritor, correspondente da agência italiana Ansa no Brasil. É autor do livro Islam e islamismo (São Paulo, Editora Claridade, 2008).



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