O dia que a terra parou - Le Monde Diplomatique

SOCIEDADE EM REDE

O dia que a terra parou

por Hernani Dimantas
11 de dezembro de 2008
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Na web, o contato torna-se de terceiro grau – digitalizado. Em
múltiplas plataformas, em diversos platôs, com os estranhos ou não, ele
é algo do cotidiano. A ameaça torna-se imanente. De dentro para
dentro. Klaatu não é mais um alienígena. É parte do imaginário
coletivo. Klaatu não nos deixa mais parar!Hernani Dimantas

Adoro esse filme. O dia que a terra parou é um dos emblemas que marcam a sociedade do começo do século passado. Um filme de 1951, no qual o
alienígena Klaatu viaja, juntamente do robô Gort, por 200 milhões de
milhas para chegar à Terra e mandar uma mensagem a todos os seus
representantes. “Se continuarem constituindo uma ameaça a outros
planetas, todo o planeta deve ser exterminado! “Klaatu barada nikto é a frase antológica. Uma mensagem salvadora da nossa humanidade.

Em 1951, a preocupação dos senhores poderosos era correr contra o
tempo. Vencer a concorrência armamentista contra o fantasma do
comunismo. Igualdade, baby, nunca foi a vontade desses senhores. Pelo
contrário, o medo prevaleceu. O dia que a terra parou é sobre o medo
de a terra ser julgada por um deus alienígena e transcendental.

Após 57 anos, a nossa sociedade não perdeu o medo. A ameaça não é mais
a bipolaridade. Vivemos o tempo das multipolaridades, pois a vida
social é como uma distribuição mutante, um fluxo de crenças e desejos.
Podemos usar algumas metáforas para constituir aquilo que chamamos de
redes de crenças e desejos. Gabriel Tarde [1] nos apresenta o fenômeno das
mônadas – partículas elementares, substâncias
simples de que os compostos são feitos. Elas são, portanto,
diferenciadas e diferenciantes. A idéia da monadologia revela que
“toda coisa é uma sociedade e todo fenômeno é um fato social”. A
imagem das mônadas abertas e em permanente interação desembocaria,
portanto, em um “ponto de vista sociológico universal”. A mônada é o
infinitesimal finito.

A idéia da monadologia também nos leva a pensar nesse fluxo de
crenças e desejos. Numa sociedade mediada pela web, esse fluxo de
vontades tem como protagonista o sujeito. O ator em rede, para usar um
termo de Latour [2]. Esse ator se toca no mundo virtual por diferentes e
múltiplas interfaces. Para cada um de nós, navegar na rede aparece
como uma experiência singular. Ou, como as vozes das redes dizem,
“cada um é cada um”.

Creio que vivemos numa sociedade do ’infinito do mundo inteiro’. Um
espaço informacional que tende a crescer ao infinito. Teoricamente,
não existe limite para o crescimento do fluxo de informação na web.
Mas essa informação cresce numa lógica de rede distribuída. David de
Ugarte [3] diz: “uma rede distribuída é a que se você elimina algum dos nós
ela continua a pulsar”. Podemos pensar isso em termos políticos,
energéticos, culturais e muitos outros. O que temos de ter em mente é
que a fórmula da rede social que liberta e se desenvolve de forma
equilibrada é naturalmente distribuída. Natural como uma mônada.

As redes distribuídas comportam-se de acordo com o conceito da cauda
longa. Afinal, um infinitesimal finito nos revela as múltiplas
possibilidades que a rede nos apresenta. As multipolaridades tornam-se
uma opção de vida.

O ponto de partida é o medo. O medo da diferença. O medo do contato.
Todos os homens tiveram essa experiência de tentar não tocar os
outros, pelo fato de que é desagradável ser empurrado por estranhos.
Apesar de todas as preocupações, o homem nunca perde completamente o
medo do contato. Na web o contato se torna digitalizado. O contato em
múltiplas plataformas, em diversos platôs. O contato com os estranhos
é algo do cotidiano. A ameaça torna-se imanente. De dentro para
dentro. Klaatu não é mais um alienígena. Ele é parte do imaginário
coletivo. Klaatu não nos deixa mais parar!!! Não temos tempo para
isso.

Mais:

Hernani Dimantas assina, no Caderno Brasil, a coluna Sociedade em Rede. Edições anteriores:

Techies e gambiarras
Sob o ponto de vista das redes, o foco não está nas máquinas: a revolução parte das pessoas. Minhas ferramentas digitais não funcionam como deveriam. Adapto a impressora, turbino o celular. Penso que conviver com a improvisação me torna mais humano

A invasão bárbara
No ensino, ao contrário do que sempre ocorreu, o professor terá de partir partir do mundo real para o pedagógico. Isso significa que a escola começa se alimentar da inteligência coletiva que emerge da rede. Uma revolução não-televisionada, que rompe os muros da educação

O que é pedagógico?
A revolução que a internet promove nas relações sociais afetará radicalmente as trocas de informações e conhecimentos. Como a pegadogia está lidando com estas mudanças? De que modo se dispõe a lidar com modos de aprender e ferramentas que estão se tornando universais?

Diferentes platôs
Nossa sociedade vive em diferentes platôs. São muitas redes que se interconectam. Formam as redes de informação. O que é físico torna-se virtual e, catalisado, retorna ao físico gerando ações interligadas. O desafio é entender a rede como um movimento múltiplo

Sobre conversas e revoluções
Longe das baboseiras impostas como grandes verdades, estamos rompendo paradigmas, modificando a economia e o trabalho, mostrando que, fora do capitalismo selvagem, existe inteligência. Tem gente que acha isso utopia. A nossa utopia! Eu creio, tu crês ser realidade… só por prazer

O paradoxo do real
Somados os percursos, teremos reconstituído uma pluralidade de mundos dentro de um mesmo e único mundo. Ou como escreveu Borges: “… sentia que o mundo é um labirinto, do qual era impossível fugir, pois todos os caminhos, ainda que fingissem ir ao norte ou ao sul, iam realmente a Roma”

A era das trocas par-a-par
Na virada do século, o desenho das redes na internet passou por uma grande transformação. Ao invés da subordinados a um servidor, os computadores e seus usuários passaram a falar uns com os outros. A mudança abriria um leque de possibilidades ? inclusive no terreno da Educação

A cultura hacker
Confundidos propositalmente, pelo pensamento conservador, com invasores de rede, hackers somos todos os que agimos para que informações, cultura e conhecimento circulem livremente. E esta ética de cooperação, pós-capitalista, vai transbordando do software livre para toda a sociedade

Em busca da ativação
Desenvolvido desde 2002, método simples e instigante quebra barreiras em relação às redes sociais on-line e cria, em comunidades e instituições, ambientes de colaboração e compartilhamento. Prática revela como é tênue a diferença entre a presença “virtual” e a que se dá “em carne e osso”

Caminhos da revolução digital
Apesar de dominante, o capitalismo não consegue mais sustentar a lógica de acumulação e trabalho. Seus principais alicerces ? a economia, a ética burocrática e a cultura de massas ? estão em crise. Com a internet florescem, em rede, novas formas de produzir riquezas, diálogos e relações sociais

O desafio do Open Social
Em nova iniciativa supreendente, o Google sugere interconectar as redes sociais como Orkut, Facebook e Ning. Proposta realça sucesso dos sistemas que promovem inteligência coletiva e convida a refletir sobre o papel da individualidade, na era da colaboração e autorias múltiplas

Multidões inteligentes e transformação do mundo
Esquecidas na era industrial, mas renascidas com a internet, as redes sociais desafiam a fusão entre o poder e o saber, permitem que colaboração e generosidade sejam lógicas naturais e podem fazer da emancipação um ato quotidiano

 



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