O ecossocialismo como alternativa nas eleições municipais

Justiça socioambiental

O ecossocialismo como alternativa nas eleições municipais

por Dafne Sena
11 de novembro de 2020
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A destruição do Planeta Terra afeta desigualmente os indivíduos que nela habitam, mas não aleatoriamente. Somos prejudicados e sentimos os sinais da devastação de forma determinada pelo próprio sistema que nos trouxe até aqui, encarando um cenário de terra arrasada caso não consigamos constituir um processo de mudança radical e sistêmica. É desse contexto que nasce e se faz cada vez mais relevante o ecossocialismo

Não há mais como dourar a pílula: já vivemos a catástrofe ecológica. O conjunto de evidências científicas confiáveis, ou seja, aquelas que passam por todo o rigor e decorrentes de pesquisas não ligadas a iniciativa privada, pagas para corroborar com seus investimentos de potencial destruidor, já nos mostram que o metabolismo deste planeta foi alterado de tal forma que danos irreversíveis foram causados a ele. Desde espécies da fauna e flora completamente exterminados, passando pelo aumento da temperatura média dos oceanos e da atmosfera, até chegar na extinção de biomas inteiros, não nos faltam evidências de que precisamos adotar uma estratégia radical se desejamos a manutenção das condições de vida no Planeta Terra.

Demarcar que o caos que nos encontramos defronte é ecológico, e não apenas climático, ambiental, ou outras variações, deve fazer parte do nosso conjunto tático no enfrentamento desta devastação. Ecologia é a ciência que estuda as relações entre organismos e sistemas, interações essas que se dão em vários níveis e muitas vezes se sobrepõem. Afirmar que a destruição da natureza em seus diversos aspectos está absolutamente interligada com circunstâncias impostas socialmente nos leva à raiz do problema.

Entretanto, trazer a sociedade para essa lida deve ser feito de forma cuidadosa para que não ceda às ilusões impostas por aqueles investidos em nos convencer de que não há que se preocupar com a destruição da natureza. Por muitas vezes caímos em discursos individualistas como “faça melhores escolhas de consumo e salve a sua parte do meio ambiente”. O que esse discurso sobre um “meio ambiente” abstrato, completamente desconectado das nossas vivências, não nos conta é que tanto as escolhas consideradas “ruins” quanto aquelas que estão sendo incentivadas pelo discurso “verde” já chegam a nós pré-determinadas por algo que nós, classe trabalhadora, não temos ao nosso dispor: a produção. O copo plástico descartável, por exemplo, não é amplamente utilizado porque é a opção mais benéfica para as pessoas que fazem o uso dele ou porque representa o melhor custo financeiro. Na verdade, ele é mais barato justamente para que seja vastamente empregado, atendendo a demandas de vazão do produto a partir da necessidade de geração de lucros daquele que detém o poder de decisão, ou seja, a produção.

Ainda, será que é do interesse da pessoa que vai até o posto de saúde e faz uso do copo descartável para matar sua sede que esse produto continue existindo em larga escala? Vivemos em uma sociedade que gera muito mais lixo do que o planeta é capaz de suportar ou que nós mesmos saibamos como destinar de forma adequada. A população mais vulnerável lida com esses resíduos diretamente, em seus locais de habitação, nas ruas das cidades quando entopem os bueiros e inundam as vias, nos odores insuportáveis ocasionados pelo rejeito nos rios e córregos urbanos e de tantas outras formas que nos leva a concluir que não é do interesse da classe trabalhadora lidar com a contrapartida negativa de decisões que não foram tomadas sobre o nosso interesse, e sim do famigerado 1% mais rico do mundo.

Ecossocialismo e eleições municipais

A destruição do Planeta Terra afeta desigualmente os indivíduos que nela habitam, mas não aleatoriamente. Somos prejudicados e sentimos os sinais da devastação de forma determinada pelo próprio sistema que nos trouxe até aqui, encarando um cenário de terra arrasada caso não consigamos constituir um processo de mudança radical e sistêmica. É desse contexto que nasce e se faz cada vez mais relevante o ecossocialismo.

A socióloga Sabrina Fernandes define o ecossocialismo em seu livro Sintomas Mórbidos (2018, Autonomia Literária) como uma corrente de pensamento e ação, ou seja, práxis, focada em superar a dicotomia entre humanos e natureza para promover uma síntese marxista ecológica que pode levar a uma estrutura emancipatória para a construção de uma sociedade global socialista. Ao meu entender, essa é a melhor definição até o momento do que acredito ser o único caminho possível para manutenção dos requisitos da nossa sobrevivência neste planeta. Ao entendermos que a catástrofe ecológica já teve seu início, que os indícios que temos sofrido não ocorrem de forma setorizada e sim relacionadas entre si e com o sistema pelo qual a sociedade é organizada, ou seja, o capitalismo, e que os mais afetados em decorrência de tanto é a classe trabalhadora, só podemos constatar que apenas um projeto de mundo que seja capaz de organizar os mais vulneráveis contra o sistema que gera todas essas injustiças (e tantas outras mais) será capaz de criar as condições para nossa sobrevivência. Sendo assim, o ecossocialismo é essencialmente um projeto internacionalista pois não há possibilidade de salvarmos parte da Terra apenas. O que está em jogo é um sistema de relações intensamente interligadas. Ou agimos pelo todo ou tudo perderemos.

Mas como traçar táticas e estratégias de mudança sistêmica do tamanho do mundo se estamos cada vez mais presos em uma realidade que muitas vezes nos faz sentir como habitantes de universos individuais, inundados por ilusões de coletividade fornecidas pelas redes sociais? Como nos organizar enquanto classe, se vivemos entre o desespero e a mais completa falta de tempo disponível para realizarmos projetos e interesses pessoais? Nenhuma dessas e outras perguntas que podem ter surgido a partir desta exposição encontram respostas simples, na ponta da língua. Entretanto, estamos em um período decisivo no nosso país, o de eleições municipais, e em cada momento como este devemos retirar o melhor para a construção de condições que nos possibilite a nossa luta maior, dadas as possibilidades.

Candidaturas, tanto majoritárias quanto proporcionais, que carregam o ecossocialismo em sua linha política levam consigo um dever elementar: fazerem de suas campanhas, independente do tamanho e alcance, uma ferramenta de propagação do cenário já relatado de tragédia ecológica. Isso significa enfrentar as fake news tanto do setor “terraplanista” do espectro político, quanto dos liberais mais palatáveis. Significa, por vezes, apontar para a população as consequências que já estão sendo vivenciadas por ela e seus verdadeiros culpados. Em outros momentos, significa desmascarar falsas soluções levando a conhecimento um programa radicalmente popular de resistência aos ataques e previsão de avanço na regeneração, e como isso elevará as condições de vida das pessoas.

Ainda como tarefa de campanha, os ecossocialistas devem se ocupar do diálogo com a população visando auxiliar na produção de uma perspectiva de vida soberana, onde o meio-ambiente não seja uma abstração, longe da vivência urbana, mas algo que temos e queremos no nosso cotidiano. Evidenciar como a lógica de urbanização hegemônica até o momento nos afastou do que chamamos de natureza, e como isso reflete na forma como nos vemos apartados da mesma e não sabemos sequer lidar com suas manifestações meio a tanto concreto, é parte indissociável do projeto ecossocialista, já que esse tem como premissa a radicalização da democracia e, portanto, a criação do poder popular, de onde as decisões sobre os rumos da sociedade devem derivar.

A lista de tarefas dos ecossocialistas em período de campanha eleitoral municipal, quando o foco da sociedade está em grande parte nas plataformas eleitorais, é grande e pode inclusive variar de acordo com as necessidades locais. Mas qual a relevância de elegermos candidaturas ecossocialistas para os municípios já que o âmbito de atuação é supostamente tão reduzido? Para responder essa questão, é preciso primeiro desmantelar a falsa dicotomia entre projeto político internacionalista e, portanto, global, e territorialidade.

Assumir o internacionalismo como premissa na luta é entender que o sistema que nos organiza enquanto sociedade atribui diferenças nas relações globalmente, mas que mesmo na diferença estão todas determinadas por esse sistema totalizante. Por exemplo, as opressões chamadas identitárias, por decorrência de raça e gênero, não se manifestam exatamente com as mesmas características em todos os locais do mundo, mas em todos os locais do mundo em que elas se manifestam assim o fazem estruturadas e de forma a estruturar o capitalismo naquele território. Portanto, ser internacionalista não significa negar a heterogeneidade da forma como o sistema nos organiza territorialmente, e sim afirmar a necessidade inequívoca de articulação não obstante as diferenças para alcançarmos o sistema que dá suporte e elo a todas elas: o capitalismo.

Logo, eleger candidaturas ecossocialistas nas eleições municipais se faz de extrema importância uma vez que estas devem promover o nível fundamental dessa articulação global, que é a vivência e organização comunitária a partir de espaços que têm a natureza como meio nos territórios onde a população desenvolve a maior parte dos seus vínculos. Na prática isso pode se traduzir de várias formas, como por exemplo o estímulo à produção de alimento através de hortas comunitárias, a preservação e criação de áreas verdes públicas que sirvam tanto para o lazer como também enquanto espaços educadores, a revitalização e descanalização de rios e córregos urbanos. Todas estas propostas promovem a conexão dos indivíduos com uma natureza saudável, os responsabiliza também (para além do poder público) pela manutenção dela, cria e fortalece laços comunitários a partir do território onde as pessoas passam boa parte do seu tempo. Com um fundamento social calcado na vivência coletiva, temos um cenário propício para a organização desses sujeitos em torno de demandas maiores, capazes de se articularem com outras organizações.

Como já mencionado, os ecossocialistas se pautam também no compromisso com a criação do poder popular. Um mandato ecossocialista tem como objetivo realizar não apenas uma mera transferência de poder através de mecanismos participativos que não devem ser exclusivamente consultivos, e sim deliberativos (isso é o mínimo que se espera), mas também lutar pela criação de novas prerrogativas de decisão política para a população que organiza suas demandas comuns. A máxima da radicalização da democracia não se limita às fronteiras da institucionalidade, mas também se dá tencionando-as ao seu limite que, quando alcançado, nos rende a tarefa de denúncia da insuficiência deste sistema às demandas do povo, e todo enfrentamento que daí necessita nascer. Portanto, o mandato ecossocialista não é um fim em si mesmo.

Ser voz e instrumento das lutas organizadas na sociedade é uma das maiores razões de ser para um mandato ecossocialista. Nenhuma das tarefas já citadas estariam completas se não viessem de uma demanda popular e concluíssem em intensificação na organização das lutas, ampliando vozes e pautas. Por isso, frente ao cenário de aprofundamento do neoliberalismo e conservadorismo, mais evidente atualmente na figura do Presidente da República em exercício, se faz mais necessário do que nunca a proliferação de mandatos ecossocialistas para que o enfrentamento não se dê apenas dentro dos poderes institucionalizados (executivo, legislativo e judiciário), mas também nas ruas, nas periferias, nos locais onde a “realpolitik” não alcança por que não foi feita para isso, mas que os movimentos populares sempre estiveram.

Claro que, mesmo entendendo que a devastação ecológica é sistêmica, muito têm os ecossocialistas a fazerem em mandatos municipais. Reconhecer a raiz do problema no capitalismo não nos tira das mãos a possibilidade de evitar mais espoliação da natureza nas nossas cidades e o consequente agravamento das condições de vida da população. Uma cidade completamente concretada é uma cidade entregue às enchentes, às ilhas de calor urbanas e incapaz de atender as demandas de qualidade de vida das pessoas que a constroem. Da mesma forma, uma cidade que não se preocupa com a qualidade dos alimentos produzidos em sua área rural, é a cidade de uma população constantemente envenenada e adoecida, já que a frase “se o campo não planta, a cidade não janta” é das mais verdadeiras que existe. Para essas e outras questões colocadas pela forma de urbanização imposta pelo sistema, o enfrentamento institucional tem imenso valor pois, quando vitoriosos, afetam diretamente a realidade da população daquele território. Um exemplo: para as comunidades mais vulneráveis que vivem próximo a lixões, em condições sub-humanas de existência, uma política adequada de tratamento de resíduos sólidos garante que famílias inteiras não convivam com ratos e outros animais em seus lares, odores, doenças e condições sanitárias absolutamente inadequadas ao ser-humano. Ainda, para pessoas que se organizam comunitariamente para plantio de seu próprio alimento, uma cidade que conta com política pública de compostagem fornece insumo da melhor qualidade para esse cultivo.

Por fim, não há como falar em tarefas de um mandato ecossocialista nos municípios sem falar em educação. A famosa frase do sociólogo e educador Darcy Ribeiro “a crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto” é verdade e merece um complemento: a não existência de um programa de educação ecológica em todos os níveis de faz parte desse projeto. O mesmo projeto que financia pesquisas para contradizer o consenso científico sobre o aquecimento global, que nos diz que a culpa dos problemas ambientais é da população mais pobre que supostamente “não tem consciência”, que apresenta a mágica solução para todos os problemas na simples compra de um kit de copo e canudo reutilizável. Esse projeto tem nome, é o neoliberalismo, e ele não quer salvar o Planeta ou garantir condições de sobrevivência da classe trabalhadora. Seus operadores, os donos do poder, que devastam e destroem o mundo que temos, já estão investidos em garantir a sobrevivência deles. Basta observar o bilionário americano Elon Musk, dono da Tesla, e sua obsessão em colonizar outros planetas enquanto extrai lítio deste levando países à ruína.

Contra esse projeto, promover a disseminação de uma educação ecológica baseada em pesquisas científicas sérias, conectada com a realidade do povo, é uma arma poderosa e elemento tático importante para o combate internacionalista. Alia-se isso a um projeto ecossocialista completo que vai da ampliação do poder popular, passa pela viabilização de vivências comunitárias que possibilitam uma maior a organização popular e chega no enfrentamento direto à destruição da natureza territorialmente, que é a luta pelas condições de vida da população, principalmente a mais vulnerável, e temos elementos suficientes para entender porque um mandato ecossocialista é imprescindível nessas eleições e em todas as cidades.

Não faremos a revolução ecossocialista em nossas cidades, isso é certo, mas trabalharemos arduamente na criação das condições para que ela aconteça em benefício de todos no mundo. Existe na militância ecossocialista uma frase muito usada, que é “ecossocialismo ou extinção”. Esse grito passou de agitação para dura realidade muito rapidamente. Temos em nossas mãos, em um momento chave, a oportunidade de iniciarmos essa construção no âmbito que mais nos afeta: as nossas cidades. Onde criamos vínculos com comunidades e territórios, onde nos organizamos com os nossos, onde sentimos a temperatura aumentar e a água faltar. Falar de ecossocialismo é falar de todos os aspectos da vida humana sem deixar nenhuma relação de fora, nem aquela tão negada pelo sistema capitalista que é a nossa inevitável relação com a natureza. Podemos vivenciá-la com harmonia e dela teremos todos os insumos necessários para nossas vidas. A outra opção é a que temos feito nos últimos séculos e vivemos suas consequências diariamente. A mudança necessária não ocorrerá de um ano para o outro ou em uma eleição (ou sequer através de eleições), mas seguramente temos um longo caminho a percorrer e começarmos de onde vivemos é uma tática para alcançarmos o horizonte que tanto sonhamos e necessitamos.

Dafne Sena, advogada de formação, trabalhadora de aplicativo e cocandidata da Bancada Feminista do PSOL, candidatura coletiva à vereança em São Paulo.



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